20/03/2006
MEU BEM, MEU MALLeitora manda e-mail cobrando uma atitude ‘mais do bem’ de minha parte. Sugere assuntos menos polêmicos, menos ofensivos, menos irônicos. Com a carta eletrônica da querida leitora, que aqui atende por C., concluí que sou uma pessoa do mal por não reservar este espaço para conversas amenas e, como dizer?, fofas - afinal o Brasil é feito de pessoas fofas. De acordo com a maioria das revistas, jornais, colunas sociais, programas de rádio, papéis de carta e blogs do país, o mundo é lindo, as pessoas são lindas, Michael Jackson é lindo, Gilberto Gil é lindo, artesanato é lindo, a Bahia é linda, Brokeback Mountain é lindo e o Rio de Janeiro continua lindo. Ao menor sinal de crítica, um exército de patrulheiros ideológicos se sente acionado para começar, então, a atirar para todos os lados cobrando uma postura politicamente correta.
Sim, nosso país é formado por um contingente de bonzinhos de prontidão sempre disposto a defender a moral, os bons costumes e os bons fluidos, já que em algum momento da prosa aparece um bem aventurado dizendo que tais críticas atraem energias maléficas à integridade física e jurídica de quem ousa quebrar a tabuada. Sim, estamos divididos em pessoas do bem e pessoas do mal. Simples assim. Como nos tempos da escola primária, quando meninos vestiam azul e meninas vestiam rosa. Ser do bem é agradar a gregos, baianos, troianos e medianos. Ser do bem é aderir à ditadura da simpatia, sorrir até quando faltam dentes e motivos, dizer que está tudo bem mesmo acordando de péssimo humor.
Aqui costumamos confundir simpatia com boa educação, portanto uma pessoa feliz e sorridente facilmente se faz passar por educada e ninguém liga se ela berra no celular, grita com os empregados, acende cigarro em aeroporto ou fala palavrões a torto e à direita. Ser do bem é demonstrar felicidade plena, digna de Regina Duarte. As pessoas do bem se esforçam para serem unânimes, aceitas, convidadas para as festas, ilustradas em colunas, bem quistas e bem citadas em textos tão dissimulados quanto elas, tão falsos quanto uma nota dada por alguns jornalistas que vivem a ganhar presentinhos para falar bem de tudo.
Ser do bem é poder falar coisas boas pela frente e as más por trás. Se numa roda de conversa, por exemplo, todos estão a falar mal de alguém isso não quer dizer que eles sejam do mal. Só é do mal quem for o único a falar mal. Deu pra entender? Faz sentido?
E no mundo das pessoas do bem, tudo é hiperbólico: ama-se e adora-se com uma força invejável. No universo ‘do bem’, objeto de adoração vai de roupas a pessoas, cachorros a filmes, mas só tem validade quando novidade.
Pessoas do bem ficam melhores amigos em uma semana e no dia seguinte tornam-se inimigos mortais (uma das partes, automaticamente, passa a fazer parte do grupo do mal). O bem-estar entre as pessoas do bem tem em nosso país um sentindo tão amplo, tão aberto, tão espaçado, que beira o vazio. Já parou para pensar no vácuo de um diálogo relâmpago entre duas pessoas ‘do bem’?
- Tudo bem?
- Tudo.
- Então tá.
Com sinceras desculpas aos jornalistas de celebridades do bem, às crespas de São Paulo do bem, aos fãs de Gilberto Gil do bem, aos simpatizantes do bem da causa de Michael Jackson, aos adoradores de artesanato do bem, aos gays do bem que choraram em Brokeback Mountain, aos leitores de Bruna Surfistinha do bem, aos baianos do bem e do mal e a todos do bem que um dia se sentirem ofendidos por este nada humilde jornalista que vos escreve: não pretendo ser bonzinho de acordo com o significado que os bonzinhos do Brasil dão à palavra ‘bonzinho’. Assim sendo, adoraria ser chamado de mauzinho, ao menos é um diferencial. Para o bem ou para mal, já me sinto especial por isso. Sim, como diria sua amiga do suplemento de fim de semana: falem mal, mas falem de mim. Um pouco de bom humor e auto-crítica, por favor. Seu silêncio será bem-vindo. Críticas construtivas e palavras destrutivas serão cobradas à parte.
Paz na Terra aos homens de bem. Com amor, Luiz Caldas.