30/03/2006
BAUL DO RAÚ
Tenho o corpo fechado e sou aberto a críticas. Não cultivo em mim o hábito de excluir comentários deixados aqui, até os de baixíssimo nível são poupados – ou não vivemos numa democracia? E que vença a maioria, pois não? Mas agora estou pensando em mudar de idéia. Depois de ler um recado que o leitor 'Mar' deixou no capítulo de anteontem, me pergunto se uma leve censura não seria providencial, benéfico. Sim, é com ar de tristeza, quase asma, que aviso: alguém deixou um trecho de uma música de Raul Seixas em meu blog. Nada nem ninguém foi tão cruel, nem quando me chamaram de gay, preconceituoso, reacionário, xenófobo e jornalista medíocre. Até aí tudo bem, afinal preconceituoso não se escreve com dois esses, xenófobo é com xis e reacionário não leva cedilha. E gay não é ofensa, é estado de presença. Raul Seixas, sim, este é uma ofensa. Estou péssimo. Me senti ultrajado, desnivelado. Praticamente um fã de Legião Urbana. Sou contra a censura, até porque se fosse eficiente proibiria a obra de Raulzito, o baiano mais carregado de todos os tempos. Sou a favor da liberdade de expressão, desde que ninguém pense mais em fazer tributo a Renato Russo. Sou a favor da vida, da alegria, da bispa Sonia Hernandez, da Fernanda Young, do leilão de jóias. Sou a favor da Preta Gil. Mas sou contra Raul Seixas. Na verdade, sou contra os fãs de Raul Seixas. Vamos instituir o AI-6 e acabar com o legado de Raul? Vamos fazer como Adriana Calcanhotto e quebrar todos os discos? Vamos comer Caetano? Vamu cume, vamu cume, farinha ô ô ô ô.

E vamos aproveitar a ocasião e tirar do baú da mala do Raul algumas rimas profundas e cheias de significados? P.S: O segredo está nas entrelinhas.

“Eu que não me sento no trono de um apartamento”?
“Vocês precisam acreditar em mim. E conheço a História do princípio ao fim!”?
“Cada um manda no seu nariz, por isso que o povo lá é feliz”?
“Como os donos do mundo piraram. Eles já são vítimas do próprio mecanismo que criaram”?
“O eclipse, os símbolos do apocalipse, os séculos de Nostradamus, a fuga geral do ciganos”?
“Eu sou a vela que acende, eu sou a luz que se apaga. Eu sou o tudo e o nada”?
“Este caminho que eu mesma escolhi, é tão fácil seguir por não tem onde ir”?
“Se eu quero e você quer tomar banho de chapéu ou discutir Carlos Gardel. Vou esperar Papai Noel”?
“Meu gato pôs um ovo, mas gato não põe ovo”?



ói, ói o trem...
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29/03/2006
QUAL É O PENTE QUE TE PENTEIA?

Acompanho à distância a luta da atriz Debby Lagranha para domar sua cabeleira. Debby tem 14 anos, metade deles dedicados às mais instigantes técnicas de defrisagem, alisamento e relaxamento. Com tanta química, penso alto se o cabelo de Debby já emite gases tóxicos, radiação ou se produz energia elétrica alternativa. Debby é a melhor amiga de Sasha, que tem sete anos. Sou obcecado por essa amizade, preciso confessar. Mas o assunto de hoje é outro.

Debby é cabelo-de-chave de um grupo que aprendeu a fazer escova antes mesmo de andar, como Marina Lima e Preta Gil. Debby representa também aqueles que têm os pais como maiores inimigos das madeixas dos filhos. Por exemplo? Ronald, fruto proibido do romance permitido de Ronaldinho e Milene Domingues. A rainha das embaixarias se recusa a cortar os cachos do menino – brasileiro adora fazer promessa com o cabelo dos filhos, repare. Cammilly Victória é outra vítima das idéias da mãe. Carla Perez sempre coloca a menina em cima de trio elétrico penteada de Astrid Fontenelle. E o que dizer de Yaclara, herdeira biológica de Mônica Carvalho, atriz? Yaclara já não pôde escolher o próprio nome, vai passar o resto da vida atendendo por marca de detergente. Que pelo menos tenha autonomia sobre o cabelo.

Acredito que a pioneira do tratamento capilar independente, aleatório e auto-suficiente entre os famosos tenha sido Baby do Brasil. Ainda nos anos 80, Baby – ex-Consuelo, ex-Cósmica, ex-Telúrica, ex-Rá e atual pastora evangélica – já coloria o cabelo dos filhos com tinta de hidrocor. E o que sobrava colocava em sua franja. Na sua e na do marido, Pepeu Gomes, que aparentemente não tinha outra opção. Depois foram barrados na Disneylândia e até hoje se perguntam por quê. Por essas e outras que meu voto vai para Leci Brandão, crespa original, virgem de progressiva. Leci não nega as origens e mantém vivas suas raízes. E que raízes.

Voltando ao capítulo Debby. Navegando pelo seu site oficial, blog e fã-clube virtual, descobri que a atriz é uma pessoa dócil. Mas os seus cabelos são mais rebeldes que criança de orfanato. A seguir, uma seleção com os melhores penteados de Debby Lagranha, a melhor amiga de Sasha. Já disse que sou obcecado por essa amizade?
Debby é uma camaleoa...

Ao natural...
Pente quente
Uma coisa Leci
Cândida
Tipo fashion
Meiga
Etérea
Debby é a da esquerda
Escapismo afro
Pose musa
À vontade
Ahahahahah
Penteado almôndega
Defrisée. Debby é a da esquerda
Gata molhada
Varre, vassourinha
Inspiração Suzy Rêgo
O futuro é crespo...
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28/03/2006
GIRA MONDO
Somos uma nação de pobres alcoólatras. Só não bebemos mais que irlandeses e ingleses por falta de dinheiro. Nossas esquinas são tomadas por botequins fedorentos, mesas enferrujadas e bêbados que urinam como cachorros sem raça. Estes deveriam aprender o caminho no banheiro na marra – como na Indonésia, 100 chibatadas para quem fizesse xixi na rua. Como disse Lord Byron certa vez, o vício é um luxo que deve ser reservado à elite.

Por isso, sugiro a lei seca permanente para quem ganha menos de cinco salários mínimos. Assim, seríamos poupados de ver homens gastando o dinheiro do supermercado, perdendo o caminho de casa e o rumo da vida. Também proponho a proibição da venda de bebidas alcoólicas para maiores de 65 anos: se os velhos reclamam tanto do valor da aposentadoria, que não gastem com supérfluos. Uma garrafa de cerveja custa o equivalente a uma cartela de analgésico. Pode ser pouco, mas já é alguma coisa. Na pior das hipóteses, de dor de cabeça ninguém sofre mais. E com a abstinência, eles passariam a ter menos problemas no fígado, nos rins, na bexiga, enfim, talvez não tivessem que dar entrada em hospital público com um pé na cova e outro na ambulância Kombi doada pela produção do programa do Netinho de Paula.

Claro que com essa decisão, todos os bares seriam autuados pela fiscalização sanitária inglesa, depois lacrados e por fim incinerados. Você ia ver a diferença na diminuição de ratos e baratas na porta da sua casa. E com isso, ninguém mais ia batucar no seu ouvido, o pagode talvez sumisse de circulação, alguns fãs de Martinho da Vila também, seu porteiro chegaria na hora e não dormiria no plantão, sua empregada não desapareceria três vezes por semana com o amor da vida dela. A regra valeria também para época de Copa do Mundo, quando todos comemoram enchendo a cara como se um jogo de futebol mudasse os rumos de um país. Aliás, no Brasil muda: a cada vitória, perdemos um dia útil de trabalho - natürlich.

A ressaca seria um luxo para poucos. E esta minoria, se ousasse doar cachaça aos desfavorecidos, levaria mais 100 chibatadas. Se dirigisse alcoolizada, mais 100. Se sobrevivesse ao acidente, a penitência multiplicava. Se fizesse vítimas fatais, passagem só de ida para a Indonésia, onde levaria mais chibatadas e depois seria preso em cela comum ao lado de terroristas e surfistas traficantes. Ah, nosso presidente, apesar de ganhar bem mais que cinco salários, também seria terminantemente proibido de beber. Afinal, como disse Lord Byron, o vício é um luxo que deve ser reservado à elite.

Fiado só 31 de fevereiro...
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27/03/2006
STATUS QUO
É fácil ser socialite em São Paulo. Ao contrário do Rio, pois para exercer a profissão é preciso ter festa. E já faz um tempo que Narcisa Tamborindeguy não recebe em grande estilo. Sim, uma festa é a arena do high society, o palco. O picadeiro. Claro que nos salões dos Jardins o termo socialite tem um sentido mais amplo, menos específico, quase nonsense. A ver. Para tornar-se um socialite de sucesso, não é preciso ser bonito, nem famoso, nem chique, muito menos educado ou de família tradicional. E o mais importante: não é necessário ser rico – aliás, dinheiro é o único artigo de luxo em falta no mercado jetset. De resto, é tudo na base da permuta. De jantares a viagens. Na alta sociedade, um sobrenome vale mais que mil palavras, o valor agregado a uma pessoa depende de como ela esteja vestida e por quem ela quer ser despida. A seguir, um guia prático para quem sonha em freqüentar.

. Seu guarda-roupa precisa ser essencialmente preto. Assim, ninguém repara se o look é repetido ou não. E se perguntarem de onde é, diga com segurança que é um Balenciaga. Ninguém precisa saber que na verdade trata-se de uma adaptação quase livre de preço semi-honesto assinada por Pedro Lourenço.

. Repita as histórias ouvidas na festa anterior, mas substitua o sujeito. Você passa a ser a ação. E o verdadeiro dono da história passa a ser um predicado distante na sua vida.

. Emita risadas falsas. Treine diante do espelho do lavabo para não soar tão falso assim. No high, todo mundo diz que é verdadeiro – até nas jóias. Desconfie.

. Faça sinal de positivo com a cabeça, mesmo não entendendo uma palavra do que está sendo dito.

. Não se preocupe em puxar assunto. O repertório é sempre o mesmo, as pessoas se repetem o tempo todo. Para parecer novidade, mude o tom da fala. Dê um peso mais dramático, ou trágico. Se não funcionar, apele para o canto. Funciona.

. Aproveite a altura do som para falar, no máximo, duas frases com cada convidado. Concordância verbal e sintaxe estão fora de questão.

. Não arrisque uma aproximação íntima com ninguém antes da quinta taça. E não fique no salão depois da décima. A sabedoria está na busca do equilíbrio. E na descoberta de um banheiro sem fila.

. Nunca vá ao banheiro acompanhado (a). Não que alguém vá achar que você está fazendo sexo selvagem na pia, longe disso (até porque, em festa de sociedade é um zero a zero...). Aliás, a pia é o problema. Passe a mão sobre ela e descubra o que há por trás de tanta excitação entre os convidados.

. Não fale com aqueles que você só tenha esbarrado uma vez na vida. Finja que nunca viu mais gordo – aliás, você não pode ser visto com gordos.

. Gays são bem vistos socialmente. Tenha sempre um à mão, nem que seja para descer o zíper na hora do xixi. Gays também funcionam quando você não quer chegar sozinha a uma festa ou quando você não sabe o que vestir para parecer mais gostosa do que é e mais bonita que aquelazinha que andou saindo com seu ex-namorado empresário de capital médio.

. Interessado em alguém? Antes de saber quem é, procure saber o que ela faz. Será decisivo na sua escolha.

. Chegou à festa de carona? Tenha sempre um dinheiro reservado para o táxi. Não se iluda: a pessoa que te levou pode tranqüilamente te abandonar no salão. E o que é pior: te deixar conversando com aquela estilista deprimida que coloca zíper em tudo.

. Evite fazer perguntas sobre a vida pessoal de alguém. Até porque tudo no high society é impessoal. Mas nunca imprevisível.

Ave Bruno!
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24/03/2006
FOREVER YOUNG, FERNANDA YOUNG?

Alguém já se deu ao trabalho de assistir Avassaladoras, a série? Sabe quando você vê um programa até o fim só pra se irritar e ficar constrangido pelos atores? Aconteceu comigo de novo – a última vez foi em Como ser Solteiro (semana passada, no Telecine Brasil), um clássico da retomada do nosso cinema WC com Cássia Linhares e Heitor Martinez vivendo um casal paleolítico de Zona Sul carioca. Em Avassaladoras, quatro mulheres-clichê saem em busca de homem, dinheiro, status e tudo aquilo que, talvez, a idealizadora da série nunca tenha conseguido realizar na vida real. Na psicologia primária, chamam isso de projeção.

Voltando à trama: Em Avassaladoras, todas são bonitas, solteiras, poderosas, bem-sucedidas, independentes, cheias de pretendentes e com apartamento de frente para a Lagoa com a sala cheia de móveis de acrílico. Sim, elas são modernas. Uma coisa meio Fernanda Young, a Susan Sontag de Niterói. Elas são determinadas. Sabem o que querem. Querem marido e filhos. Depois abrem mão de tudo que conquistaram para se dedicar à família e fazer lista de compras de mês. É sempre assim.

Veja o caso de Maria Mariana: Depois de se confessar na adolescência, experimentar tudo e todos, cansou da vida rebelde de filha de diretor e seguiu carreira solo como mãe convencional. Atualmente, a ex-atriz, diretora, roteirista, escritora e xis-tudo mora numa casa pré-fabricada em Macaé, cidade-presépio ao norte do estado do Rio. Maria Maria (arre, aeha arre, aeha arre) Mariana jura estar feliz com os filhos e marido, que deve trabalhar na Petrobrás. Já já ela surta. E escreve suas novas confissões. E o livro ganha adaptação para a TV. E eu vou assistir. E ficar constrangido. Como a vida é cíclica. Ou seria ciclotímica? Oh, preciso parar. Um beijo para você, Luana Piovani. Alguém me diz o que a Fernanda Young está fazendo em liberdade? Censura nela!

"Torço pelo personagem de Glória Pires". Com amor, Lídia Brondi.
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www.ego.com.br Todos os dias, em caráter excepcional, críticas construtivas e crônicas destrutivas do mundo moderno na visão de Hermés Galvão, um jornalista antiquado.
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