27/03/2006
STATUS QUOÉ fácil ser socialite em São Paulo. Ao contrário do Rio, pois para exercer a profissão é preciso ter festa. E já faz um tempo que Narcisa Tamborindeguy não recebe em grande estilo. Sim, uma festa é a arena do high society, o palco. O picadeiro. Claro que nos salões dos Jardins o termo socialite tem um sentido mais amplo, menos específico, quase nonsense. A ver. Para tornar-se um socialite de sucesso, não é preciso ser bonito, nem famoso, nem chique, muito menos educado ou de família tradicional. E o mais importante: não é necessário ser rico – aliás, dinheiro é o único artigo de luxo em falta no mercado jetset. De resto, é tudo na base da permuta. De jantares a viagens. Na alta sociedade, um sobrenome vale mais que mil palavras, o valor agregado a uma pessoa depende de como ela esteja vestida e por quem ela quer ser despida. A seguir, um guia prático para quem sonha em freqüentar.
. Seu guarda-roupa precisa ser essencialmente preto. Assim, ninguém repara se o look é repetido ou não. E se perguntarem de onde é, diga com segurança que é um Balenciaga. Ninguém precisa saber que na verdade trata-se de uma adaptação quase livre de preço semi-honesto assinada por Pedro Lourenço.
. Repita as histórias ouvidas na festa anterior, mas substitua o sujeito. Você passa a ser a ação. E o verdadeiro dono da história passa a ser um predicado distante na sua vida.
. Emita risadas falsas. Treine diante do espelho do lavabo para não soar tão falso assim. No high, todo mundo diz que é verdadeiro – até nas jóias. Desconfie.
. Faça sinal de positivo com a cabeça, mesmo não entendendo uma palavra do que está sendo dito.
. Não se preocupe em puxar assunto. O repertório é sempre o mesmo, as pessoas se repetem o tempo todo. Para parecer novidade, mude o tom da fala. Dê um peso mais dramático, ou trágico. Se não funcionar, apele para o canto. Funciona.
. Aproveite a altura do som para falar, no máximo, duas frases com cada convidado. Concordância verbal e sintaxe estão fora de questão.
. Não arrisque uma aproximação íntima com ninguém antes da quinta taça. E não fique no salão depois da décima. A sabedoria está na busca do equilíbrio. E na descoberta de um banheiro sem fila.
. Nunca vá ao banheiro acompanhado (a). Não que alguém vá achar que você está fazendo sexo selvagem na pia, longe disso (até porque, em festa de sociedade é um zero a zero...). Aliás, a pia é o problema. Passe a mão sobre ela e descubra o que há por trás de tanta excitação entre os convidados.
. Não fale com aqueles que você só tenha esbarrado uma vez na vida. Finja que nunca viu mais gordo – aliás, você não pode ser visto com gordos.
. Gays são bem vistos socialmente. Tenha sempre um à mão, nem que seja para descer o zíper na hora do xixi. Gays também funcionam quando você não quer chegar sozinha a uma festa ou quando você não sabe o que vestir para parecer mais gostosa do que é e mais bonita que aquelazinha que andou saindo com seu ex-namorado empresário de capital médio.
. Interessado em alguém? Antes de saber quem é, procure saber o que ela faz. Será decisivo na sua escolha.
. Chegou à festa de carona? Tenha sempre um dinheiro reservado para o táxi. Não se iluda: a pessoa que te levou pode tranqüilamente te abandonar no salão. E o que é pior: te deixar conversando com aquela estilista deprimida que coloca zíper em tudo.
. Evite fazer perguntas sobre a vida pessoal de alguém. Até porque tudo no high society é impessoal. Mas nunca imprevisível.
Ave Bruno!