13/04/2006
JORNADA DUPLA
Cansado de seu chefe de língua presa? Insatisfeito com o ticket refeição de R$ 7,50? Arrependido por ter seguido carreira como advogado de média empresa? Triste por ganhar menos que sua amiga estampada de Belo Horizonte? Que tal mudar de vida e ingressar nas novas carreiras do moderno mercado de trabalho? Com a falta de educação e o excesso de promoção nas Lojas Americanas, surgiu no nosso país uma população economicamente ativa e assumidamente passiva com sede de sucesso e fome de viver. Eles buscaram um lugar ao sol no Ibirapuera e uma sombra para estacionar o Corsa parcelado em 36 vezes. E conseguiram. Agora chegou a sua vez de realizar os sonhos mais lindos, é a grande chance de comprar aquele criado-mudo em pátina ou planejar as férias em Trancoso. Aposente o seu tailleur, aquele que você tirou o modelo para a costureira do bairro fazer, vista sua melhor calça jeans da Forum e vá à luta. O único requisito é ter os dentes da frente e português nível básico. Espanhol intermediário, segundo grau incompleto e domínio de MS DOS não são mais necessários. A seguir, algumas sugestões para você, querido desempregado que trancou a faculdade de contabilidade no segundo período noturno.

Produtor de moda – requisitos:
. Cabelo estilo mullets;
. Calça estonada Reinaldo Lourenço;
. All Star encardido;
. Bolsa-brinde do desfile de Alexandre Herchcovitch;
. Voz anasalada;
. Boné Von Dutch;
. Vocabulário para o dia-a-dia: absurdinho, avonts, adoro, uó, tô passada, se joga bee.

Make up artist, aka maquiador – requisitos:
. Cabelo com mega hair;
. Calça Diesel sete lavagens e dois tamanhos abaixo;
. Mocassim Sérgio K;
. Bolsa Louis Vuitton (verdadeira);
. Voz suave;
. Boné Dolce & Gabbana;
. Vocabulário para o dia-a-dia: glam, luxo, horrorosa, cafona, arrasa rica, fofa.

Hair designer, aka cabeleireiro – requisitos:
. Cabelo reco
. Calça Versace stretch;
. Sapato Fernando Pires;
. Bolsa Louis Vuitton (verdadeira, presente da cliente que é atendida em casa);
. Voz levemente doce;
. Boné Gucci (falsificado);
. Vocabulário para o dia-a-dia: mona, bofiscândalo, aqué, sou vip, tô lôca, fina.

Designer novos talentos – requisitos:
. Cabelo conceito, tipo duas cores e três camadas;
. Calça customizada no ateliê;
. Botas Bicho Comeu vintage;
. Bolsa saco dourada customizada no quarto de casa;
. Voz rouca;
. Chapéu de brechó;
. Vocabulário para o dia-a-dia: incrível, referência, intimista, aura retrô, escapismo.

Se nenhuma dessas lhe interessou, invente a sua profissão. Lembre-se de usar a palavra ‘designer’ na sua nova ocupação. Exemplos:

. Designer de sobrancelhas;
. Stationery designer;
. Candle designer;
. Beef designer;
. Despacho designer;
. Toilette paper designer;
. Personal stylist designer;
. Set designer;
. Interior designer;

P.S: A partir de hoje não serão mais aceitos comentários que não digam respeito ao blog. Recados nonsense serão excluídos. Para eventuais discussões interraciais ou assuntos particulares por favor procurar uma sala de bate-papo. Obrigado e bom lanche.

Namaste.
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12/04/2006
NON, JE NE REGRETTE RIEN

Hoje vou falar de nada. Um dia voltado para a reflexão sobre o vazio em sua homenagem, querido leitor. Uma quarta-feira de trégua espiritual às vésperas do santo bacalhau que sua tia salgada de Viçosa prepara como ninguém. É tudo ou nada. Nada pode ser coisas e pessoas. Nada pode ser uma cor, uma flor, nada pode ser o Nicola Siri. Pedra-sabão é nada, show de Orlando Moraes é nada, Niterói é nada. Nada é por acaso. Nada contra, nada a declarar, nada para dizer, nada a ver. Teatro é nada, projeto de teatro é nada. Nada pessoal, mas tofu é nada. Nada demais, mas aula de step também é nada. Nada mal, nada além, não custava nada. Nada acontece, nada de costas. Pêra é nada, Nívea Maria é nada. Surgiu do nada, no sabia de nada. Chimarrão é nada, Goiânia é nada, nada ficou no lugar. Origami é nada. Apesar de tudo, não diz nada. Macapá é nada, Espírito Santo é nada.

Nada pode ser agora. Vamos refletir. Volte-se para dentro num movimento similar ao do tatu bola, olhe para seu interior e pergunte-se: por que eu comprei esse jeans desfiado do Carlos Miele? Abdique da vida material e repita que a partir de hoje você quer concretizar seu lado abstrato e se ligar nessas coisas que dizem sobre a origem do universo e do nome Pitty Webbo. Liberte-se!

Saia do quartinho de empregada que seu marido converteu em escritório, vá até a cozinha, pegue aquele copo de requeijão e encha de água. Eu espero você voltar. Agora sente-se na cadeira da Tok & Stok, feche a porta, abra a boca e acenda um cigarro (caso não fume, risque um incenso. O ambiente precisa ter um clima noir). Dê uma tragada – ou respire fundo – e olhe para cima. A infiltração no seu teto não pode tirar sua concentração. E um, e dois, e três. Inspira, expira. Pronto. Nada de especial, nada romântico, nado sincronizado. Obrigado. De nada.

Nada para fazer?
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11/04/2006
É SEMANA, SANTA?

Hóspedes e turistas, é melhor não tê-los. É fácil se livrar de seu primo de Goiânia, difícil é passar ileso às invasões bárbaras de visitantes vindos de todos os esconderijos do mundo. Nem sempre foi assim, mas desde a criação das companhias de viagem nada ficou no lugar. Cidades foram tomadas de assalto e seus habitantes se renderam aos hábitos estranhos do turista, como acordar cedo e fotografar postes. Antes de gerar divisas, turismo gera dor de cabeça e sujeira. Poderia ser diferente, mas quem pensa o contrário que aplauda a primeira aterrisagem.

Aquela cafeteria simpática nunca mais foi a mesma depois que um grupo de 100 invadiu o local com a ajuda do guia da Folha de São Paulo. O trânsito piorou depois que o cruzamento das ruas X e Y tornou-se atração graças à citação de Madame Z. em seu último livro lançado pela editora Tudo de Bom. O metrô agora atrasa meia hora para esperar a chegada daqueles que pararam no balcão de informação para perguntar qual o sentido da vida e, de quebra, puxar assunto com a estagiária solícita. A sua praia dos sonhos hoje serve caipirinha de maracujá para casais em lua-de-mel e o restaurante da Dona Janete, agora, só fazendo reserva. A alta temporada é a maior baixaria e a baixa temporada está com os preços lá em cima. E por causa das agências, abriu-se, como dizer?, um leque de opções para os turistas à procura de, hum-hum, bagagem cultural. Porque viajar é expandir horizontes, não é mesmo minha gente?

Jogue suas mãos para o céu e pergunte a mesa ao lado o que seria de nós se a CVC não divulgasse a existência do festival do crochê de Monte Sião e a festa do tomate de Pati do Alferes? O que seria de seu estagiário sem as suaves prestações da Tia Ninete Turismo (filial Anália Franco) para participar da Oktoberfest e da Micareta de Brasília? E o que aconteceu com a sua tia avó de Viçosa depois de um fim de semana na serra gaúcha para sentir friozinho? Onde já se viu geada ser ponto turístico? E lá no Sul tem mais coisas legais para fazer, como tomar café da manhã colonial, com chocolate quente e queijo amarelo, e ver princesa da festa da uva de Caxias fantasiada de adega; Tem também cidades alemãs e italianas onde os residentes, por serem loiros, se tornam parada obrigatória.

Agora subindo: em Minas, as cidades históricas recebem visitantes que se emocionam com cinzeiro de pedra-sabão. Não vejo sentido em Ouro Preto. Nem em Tiradentes. A CVC também opera em outros estados do Brasil e na Europa. Os pacotes para o Velho Continente são imperdíveis. A ver: Europa Maravilhosa, passando por sete cidades em três dias e duas noites; Europa Fabulosa, com doze cidades em cinco dias; Europa Transcedental, com vinte e duas cidades em quatro horas e quinze minutos; Europa Translumbrante, com oitenta e quatro cidades em incríveis duas horas. E meia. Mantenha limpa a sua cidade, dê banho nos ingleses.

Paris hoje? OK.
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10/04/2006
SONHO DE ÍCARO
Uma companhia aérea diz muito sobre seu país de origem. A pontualidade, o serviço de bordo, as acomodações e a tripulação, claro. Transportar o passageiro é fazer sala em altitude de cruzeiro, usar da diplomacia informal para mostrar qualidades únicas de uma nação. O avião é como a Arca de Noé e por isso devemos mandar para lá os melhores representantes de nossa ‘espécie’. Não estou a chamar aeromoças de vacas ou elefantes, mas é claro que a presença de uma bela comissária de bordo faz a maior diferença. É o que faz um vôo da KLM, por exemplo, ser muito mais agradável que uma viagem pela TAP. É a diferença entre as barangas da Iberia e as sisudas da Lufthansa, as esquálidas da Air France e as risonhas da JAL. É o charme decadente do crew da Aerolineas Argentinas e a aristocracia de copeira das senhoras da British Airways. É o caos da Alitalia e a assepsia da SAS. É assim desde os tempos da extinta Brannif International, que convidou Emilio Pucci para desenhar os uniformes de suas meninas. Por aqui o glamour era similar. Nas asas da Pan Air, comissárias-coqueluche tornavam a viagem mais agradável a bordo de suas saias e paletós engomados – cabelos idem.

Tinha cinco anos quando viajei de avião pela primeira vez. Era verão de 1980. O vôo saira do Galeão com destino a Recife e o Boeing 727 da Varig partira na hora marcada. As ‘tias’ que me recepcionaram estavam impecáveis e muito sorridentes. Levado pela mão, fui sentado na primeira fila e minha poltrona, de repente, tornara-se o maior trono do mundo. E eu, um pequeno príncipe de camiseta amarela listrada e cara grudada na janela. As boas-vindas tiveram, para mim, um enorme sentido libertário. Era a primeira vez que eu pedia, sozinho, uma coca-cola sem que minha mãe me olhasse com cara feia ou sem que mandasse substituir por suco de laranja. Enfim, sentado ali, enquanto não aterrisávamos, era como se tudo fosse permitido em nome de um certo je ne sais quois que a viagem nos proporcionava. Ok, fim da sessão nostalgia.

Acompanho a crise da Varig e estou apreensivo com as minhas milhas. Na sexta-feira, emocionei-me com a imagem da aeromoça chorando durante a passeata dos funcionários. Lá estava ela, penteadérrima, com o foulard bem laçado, maquiagem em cima. A foto me parecia perfumada. Era o último suspiro de um tempo que não volta, de uma época de Transbrasil, Cruzeiro e Vasp. De quando a Varig era a nossa estrela brasileira a voar para destinos que sempre sonhamos conhecer; de quando nossas comissárias emanavam um cheiro de Free Shop de seus cangotes, qualquer coisa entre Eau de Rochas e Dioríssimo. Hoje, aqui no aeroporto, tudo que vejo é uma descabelada de coque frouxo e blouse amarrotada. Desconfio ser da TAM. Transportes Aéreos Marília. É tudo que nos restou. Que falta de glamour.

A propósito, meu vôo está atrasado 40 minutos.

Ah, e parabéns a nova Miss Brasil, que representou o Rio Grande do Sul. Pela milésima vez consecutiva, o título foi para uma candidata do sul do país. E depois o preconceituoso sou eu. Ô povinho hipócrita. Viação Aérea Rio Grandense by Gisele
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07/04/2006
E NAS ESTRELAS FAZER MEU ZIRIGUIDUM...
Tenho estado fora de órbita durante a temporada de Marcos César Pontes no espaço. Confesso que não li uma linha das notícias que acompanham passo a passo do astronauta de Bauru na Estação Internacional. Mas ontem uma manchete me chamou atenção: "Experimento com sementes de feijão na ISS é um sucesso". Nosso mister universo desafiou a lei da gravidade para plantar grãos interplanetários.

A primeira participação brasileira em além-Terra teve caráter agrícola. É a zona rural na era espacial. É o Brasil experimentando monocultura a anos-luz do Ceasa. Gastaram US$ 10 milhões para fazer o que a gente aprendeu no jardim de infância. Um algodão, uma sementinha e uma tampa de Nescau. Pronto: lá estava o nosso pezinho de feijão. E não gastávamos nem Cr$1.

Com orgulho escolar, o Ministério da Ciência e Tecnologia avisa que a missão de Pontes foi cumprida. Sim, num futuro remoto teremos feijões na Via Láctea. E da próxima vez que mandarmos alguém para os ares que levem arroz, toucinho e farofa de ovo para realizarmos a primeira feijoada sideral. Este sim, será o genuíno almoço com as estrelas. Vai ter pagode e tudo. Com marcianos na bateria. Ô coisinha tão bonitinha do pai...

Chora cavaco.
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www.ego.com.br Todos os dias, em caráter excepcional, críticas construtivas e crônicas destrutivas do mundo moderno na visão de Hermés Galvão, um jornalista antiquado.
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