02/05/2006
O ULTIMO METRO
Pois entao, queridos leitores. Venci o tedio numa manha chuvosa para assimilar um pouco mais de… cultura. A ideia de passar o dia no Beaubourg nao foi minha, que fique claro, mas la fui eu em busca de… arte moderna. Foi tudo muito moderno, a comecar pela fila. Me senti muito moderno ao pagar 10 euros para ver duas exposicoes, uma intitulada ‘Los Angeles, 50 anos de nascimento de uma capital artistica’ e a outra ‘O Movimento das Imagens’. Fui arrastado pela amiga de uma amiga (ambas modernas), de boina, que logo na entrada ficou estatica por dez minutos em frente a um quadro com um borrao qualquer. Mais tarde, ela iria dizer que aquilo era um estilo surgido a partir de um manifesto radical contra as novas diretrizes da escola pos-moderna anglo-saxonica. Aquilo era um nada, ou seja, arte moderna. Uma coisa abstrata, sem sentido, sem razao. Mas e arte moderna e, assim como Chico Buarque, e proibido dizer que nao gosta. Bem, eu e a amiga da minha amiga nos perdemos, ou melhor, eu me perdi dela. Parti, entao, para o temido tour individual. Ninguem para conversar, nada para fazer. Apenas olhar para arte moderna e temer por alguma manifestacao artistica-familiar ao meu lado – como por exemplo um grito histerico de um bebe paquistanes. Nao entendo a presenca de criancas de colo em museus.
Salas enormes exibiam esculturas feitas de lixo domestico, videos caseiros mostravam cenas do cotidiano americano, telas desproporcionais, sem titulo, ocupavam o tempo de quem o tinha para perder sentado em frente a elas. Tudo muito moderno, como voces podem imaginar. O tedio comecava a me derrotar quando entendi, num golpe de raciocinio moderno, que os destaques do Georges Pompidou nao sao nada especiais perto de seus visitantes. Descobri, sozinho, que os chatos de museu estao aqui e tambem por toda parte. A chatice nao faz distincao de cor, raca, credo, sexo, pais de origem ou situacao financeira. Paris e a cidade dos chatos, dos intelectuais de bistro, dos modernos de oculos quadradinho, das assexuadas de cabelo chanel. Paris esta aborrecida. Entra aspas da amiga da minha amiga: ‘Paris precisa de gente pra cima’. Pois e, nos nos encontramos outra vez. E acho que a indireta era pra mim, ja que ela sorria ate para caixa eletronico. Mas voltando ao assunto: o chato e uma pessoa do mundo, uma criatura cosmopolita. O chato e tudo aquilo que voce queria ser ao tentar se vestir como francesa ou falar ingles com sotaque britanico.
Geralmente, o chato assimila tanta cultura que nao sobra tempo para tomar banho. O chato faz patrulha ideologica, o chato finge ser inteligente quando o que ele mais queria era ser bonito. O chato leva tudo a serio, de relacoes a exposicoes. Tudo muito intenso, mas ao mesmo tempo vazio. Um bla-bla-bla de Espaco Unibanco. O chato passa horas pensando na vida e a vida passa por ele sem parar. O chato cobra posturas e atitudes, embora nao as tenha. O chato tem resposta pra tudo, o chato tem opiniao pra tudo. O chato e tudo. O chato nao e moderno. O chato e um classico.
P.S: Fontes seguras e amigos inseguros ja mandam noticias quentinhas do Brasil. Nao percam no proximo capitulo uma analise precisa dos fatos que marcaram o pais durante minha ausencia. To com medo de voltar.