18/05/2006
ICE CREAM SODA
O frio chegou a São Paulo e aos estados do Sul. O resto do país continua a viver no inferno tropical com temperaturas nada higiênicas. Com a proximidade do inverno, o povo comemora a estação e começa a tirar do guarda-roupa aquele sobretudo bege comprado na última viagem à Argentina – a excursão foi parcelada, e ainda não foi quitada. Algumas famílias estão pendentes junto às agências de turismo, vale ressaltar.
Pelas ruas de São Paulo, um desfile de looks bizarros, combinações insólitas e trajes inapropriados para o momento. Sim, não está calor, mas os termômetros não descem a tal ponto de fazer as pessoas saírem por aí fantasiadas de colchonete amarrado. O exagero faz parte do glamour que o inverno representa para os brasileiros; nesta época, grupos procuram a serra para tocar a neve e fazer bonecos de geada.
A esta altura, amigos e casais realizam o sonho de experimentar as delícias da insossa culinária alpina, como por exemplo a raclete. E tudo que se come vira assunto no dia seguinte: “Ontem fomos ao restaurante e adoramos o fondue de carne”. O mesmo vale para o vinho. Até julho, todos os pais de família tornam-se enólogos – mas sempre acabam no Valpolicella. Fazem aquela cara de Alex Atala cozinhando um miojo, cheiram a bebida, cheiram a rolha, cheiram as axilas e, por fim, aprovam o tinto de R$ 39.
Acontece também um estranho fenômeno entre a população, o de usar o diminutivo para exaltar as atrações da saison: com o friozinho, vem o vinhozinho, o casaquinho, uma sopinha, um chazinho. Paulistanos a 16 graus também gostam muito de acender lareiras e viajar para Campos do Jordão atrás de chocolate quente e uma oportunidade única de derreter sob casacos de pele de qualidade intermediária.
No Sul, uma multidão oito quilos acima começa a se mobilizar para percorrer Gramado, Canela e outras cidades-tédio e lá se esbaldar nos cafés da manhã coloniais, com queijinhos, pãezinhos e docinhos, e tirar fotografias em frente de canteiros floridos. E tem as festas da Uva, da Cerveja, do Morango, do Chã de Dentro...
No Rio de Janeiro é ainda mais grave. Para os que não fogem no fim de semana para Araras e adjacências, resta a ilusão de que o frio um dia chegará em Ipanema. Como diz o jornalista Paulo Sampaio, a cena típica de um inverno carioca é ver alguém andando no calçadão com short de tactel e um moleton escrito ‘Nova Friburgo’.
Eu só quero que você me aqueça nesse inverno... tchu tchu laiá laiá