29/05/2006
VILA MARIA, VILA MADALENA
Sucumbi à pressão ocular e fui assistir a Código Da Vinci, o filme mais aclamado pela crítica popular brasileira. Escolhi a última sessão, das 22h, para ficar livre do pessoal que pega cedo no serviço. Comprei os ingressos pela Internet, para evitar qualquer contato físico com espectadores expectorantes. Marquei meus assentos ainda em casa, para me isolar de pipoqueiros e casais que mal esperam apagar a luz para começar a sessão beijo de ventosa. Cheguei em cima da hora, para não ter que passar por possíveis encontros de Espaço Unibanco, aqueles onde você acaba encontrando a amiga de uma amiga que provavelmente esqueceu seu nome, mas grudou em você por não ter com quem conversar naquele momento. Sim, perdi quase três horas do meu domingo para tirar a limpo uma história que, a julgar por quem gosta, não iria me agradar. Mas lá fui eu, disposto a começar a semana com mais, hummm, bagagem cultural.
Começou o filme. O Louvre está vazio. Um Opus Dei mata um velho do Priorado de Sião. Corta. Em dois minutos de filme, surge um diálogo atrás de mim.
– O que é Priorado de Sião?
– É uma seita parecida com a Opus Dei, mas eles não se batem tanto.
– Ah, tá. Já ouvi falar.
De volta à ficção (mesmo sabendo que a realidade estava muito mais divertida). Tom Hanks aparece e faz cara de Semil em Belíssima. Corta. Tom Hanks vai ao Louvre e mantém a cara – que vai acompanhá-lo até as cenas finais. Corta. Surge Audrey Tatou, que podia ser cortada do filme. Audrey explica a Hanks que ele corre perigo. Um número, uma frase. Um anagrama, vejam só. Muitos mistérios, mortes, pistas desencontradas, traições, ambições, sangue pisado. De repente, O Código Da Vinci me pareceu um desenho do Scooby Doo, com Audrey no papel de Velma – e Tom Hanks, claro, no papel de Salsicha. E quanto mais tempo passava, menos vontade eu tinha de assistir ao filme.
Take 2:
– Jesus era casado?
– Isso é coisa de Opus Dei. Tinha um amigo que era de lá e falava isso pra mim.
– Pecado, já não tô gostando do filme.
– Mas eu te avisei que o filme era sobre Deus.
– Virgem Maria.
Momentos decisivos na trama de Dan Brown. Já passa da meia-noite e o casal dorme feliz nas poltronas aconchegantes do cinema multiplex. Ação, religião, assassinatos. Uma caixinha, um envenenamento, um segredo. A revelação. Audrey é descendente direta de Jesus. E ganha a vida como funcionária pública em Paris. Audrey não parece se alegrar muito com a notícia – a tatatatatatatatataraneta de Jesus é blasée.
E a dupla dorme, profundamente. Corta. Tom Hanks está no Ritz. Tom Hanks sai do banho, enrolado na toalha e deixando à mostra seu peitoral (podiam cortar essa cena). Tom Hanks veste a mesma roupa e corre pelas ruas de Paris. Tom Hanks ajoelha-se diante da Pyramide.
E sobem créditos.
Os amigos acordam da soneca.
– Ei, me dá uma carona?
– Vai pra onde?
– Vila Madalena.
The End.