31/05/2006
ANTIQUES

Há uma diferença entre o que é vintage e o que é démodé, muito embora a linha que os separa seja bastante tênue. Talvez por isso pouca gente saiba diferenciar uma coisa da outra. Vintage e démodé podem ser antônimos ou opostos que se atraem mutuamente. A recíproca é sempre verdadeira. Vintage pode ser uma roupa, uma pessoa, uma comida, uma palavra ou uma atitude. A mesma regra vale para démodé. Difícil saber como, onde e, o mais importante, quem decide o que é o quê. Não se sabe de onde vem o grito, quem divide o mundo em dois universos paralelos, mas todos compram o barulho – e fazem eco. O vintage é presente concreto, o démodé é passado composto. A qualquer momento, o vintage pode tornar-se démodé. E vice-versa. O vintage perde status à medida que se torna popular. O démodé ganha pontos assim. O vintage tem caráter exclusivista, o démodé tem seu lado otimista. O vintage é o velho ressuscitado, o démodé é o velho em mau estado. O vintage é antigo, o démodé é antiquado. Démodé é anticlímax. Vintage é romântico.

DÉMODÉ
Marisa Monte
Funghi
Sanca
Bahia
Tubinho preto
Hype
Presunto cru
Santo Daime
Frascatti
Gilberto Gil
Caetano Veloso
Louis Vuitton
Salmão
Mateus Nachtergaele
Tomate seco
Tom Ford
Naomi Campbell
Clubbers
São Paulo
Axé Music
Anna Hickmann
Jet bronze
Chapinha
Vera Fischer
Luana Piovani
Revista Caras
Catupiry
Fernanda Barbosa
Ibiza
Swarovski

VINTAGE
Canecão
Strogonoff
Yuppie
Fricassé
Supla
Rio de Janeiro
Mortadela
Missa
Chico Buarque
Versace
José Dumont
Misto quente
Buenos Aires
Samba
Bruna Lombardi
Sonia Braga
Narcisa Tamborindeguy
Coquetel de camarão
Rayito de Sol
Escova
Luiza Brunet
Goiabinha
Ivone Kassu
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30/05/2006
SEGUNDA-FEIRA

Sempre ouvi dizer que nada pior do que ser vice em alguma coisa. E sempre concordei com a máxima. O segundo lugar é triste. Em Olimpíada, por exemplo, a medalha de prata é uma espécie de prêmio de consolação para os derrotados. Ao contrário do terceiro lugar, e conseqüentemente da medalha de bronze, ninguém luta por um vice-campeonato. Ninguém quer a medalha de prata. Nas redações – pelo menos nas quais passei –, o subeditor era sempre aquele que julgava (numa egotrip pessoal e intransferível) ser o chefe de redação. O sub nada mais era que a segunda opção do diretor, aquele que, em casos extremos, assumiria o comando. Como nunca houve caso extremo no jornalismo brasileiro, nenhum sub (pelo menos testemunhado por mim) chegou plenamente ao ‘poder’ em caráter definitivo. O sub tinha (e continua tendo) seus 15 dias de fama – que é o tempo que dura a folga dos mandas.

Ontem, convencido por uma amiga pouco confiável, atravessei o perímetro higiênico de São Paulo para ‘participar’ da festa de Cristal, a nova novela do SBT. Era minha segunda opção para a noite – a primeira é ficar em casa, sempre, salvo e alheio ao submundo. O primeiro choque deu-se já na entrada, onde recepcionistas, vestidas de modernas, davam as boas-vindas aos convidados que logo se juntariam ao elenco de Cristal no salão de festas. Era o segundo time da teledramaturgia reunido pela primeira vez em grande escala. Em trajes específicos (quase típicos, eu diria), muitos de segunda mão, atores e atrizes refletiam em suas maquiagens o leve dissabor de estrear uma novela que tem como meta alcançar o segundo lugar de audiência. Por um instante, esbarrando levemente em figuras homogêneas (repare que todos no SBT têm timbre e tom de cabelo semelhantes), a sensação de estar rodeado de pessoas que vieram para perder. Ou melhor: que se contentam com o vice. Já passava das 22h. Hora de ir embora. Tarde demais para uma segunda-feira.

Pretinho, branquinho ou malhadinho?
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29/05/2006
VILA MARIA, VILA MADALENA

Sucumbi à pressão ocular e fui assistir a Código Da Vinci, o filme mais aclamado pela crítica popular brasileira. Escolhi a última sessão, das 22h, para ficar livre do pessoal que pega cedo no serviço. Comprei os ingressos pela Internet, para evitar qualquer contato físico com espectadores expectorantes. Marquei meus assentos ainda em casa, para me isolar de pipoqueiros e casais que mal esperam apagar a luz para começar a sessão beijo de ventosa. Cheguei em cima da hora, para não ter que passar por possíveis encontros de Espaço Unibanco, aqueles onde você acaba encontrando a amiga de uma amiga que provavelmente esqueceu seu nome, mas grudou em você por não ter com quem conversar naquele momento. Sim, perdi quase três horas do meu domingo para tirar a limpo uma história que, a julgar por quem gosta, não iria me agradar. Mas lá fui eu, disposto a começar a semana com mais, hummm, bagagem cultural.

Começou o filme. O Louvre está vazio. Um Opus Dei mata um velho do Priorado de Sião. Corta. Em dois minutos de filme, surge um diálogo atrás de mim.

– O que é Priorado de Sião?
– É uma seita parecida com a Opus Dei, mas eles não se batem tanto.
– Ah, tá. Já ouvi falar.

De volta à ficção (mesmo sabendo que a realidade estava muito mais divertida). Tom Hanks aparece e faz cara de Semil em Belíssima. Corta. Tom Hanks vai ao Louvre e mantém a cara – que vai acompanhá-lo até as cenas finais. Corta. Surge Audrey Tatou, que podia ser cortada do filme. Audrey explica a Hanks que ele corre perigo. Um número, uma frase. Um anagrama, vejam só. Muitos mistérios, mortes, pistas desencontradas, traições, ambições, sangue pisado. De repente, O Código Da Vinci me pareceu um desenho do Scooby Doo, com Audrey no papel de Velma – e Tom Hanks, claro, no papel de Salsicha. E quanto mais tempo passava, menos vontade eu tinha de assistir ao filme.

Take 2:
– Jesus era casado?
– Isso é coisa de Opus Dei. Tinha um amigo que era de lá e falava isso pra mim.
– Pecado, já não tô gostando do filme.
– Mas eu te avisei que o filme era sobre Deus.
– Virgem Maria.

Momentos decisivos na trama de Dan Brown. Já passa da meia-noite e o casal dorme feliz nas poltronas aconchegantes do cinema multiplex. Ação, religião, assassinatos. Uma caixinha, um envenenamento, um segredo. A revelação. Audrey é descendente direta de Jesus. E ganha a vida como funcionária pública em Paris. Audrey não parece se alegrar muito com a notícia – a tatatatatatatatataraneta de Jesus é blasée.

E a dupla dorme, profundamente. Corta. Tom Hanks está no Ritz. Tom Hanks sai do banho, enrolado na toalha e deixando à mostra seu peitoral (podiam cortar essa cena). Tom Hanks veste a mesma roupa e corre pelas ruas de Paris. Tom Hanks ajoelha-se diante da Pyramide.
E sobem créditos.

Os amigos acordam da soneca.

– Ei, me dá uma carona?
– Vai pra onde?
– Vila Madalena.

The End.
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26/05/2006
WE ARE THE WORLD
Soube que Angelina Jolie está prestes a dar à luz seu primeiro filho biológico. Será o quinto elemento na família mais feliz do mundo. Sim, Madoxx vai ganhar um irmão – já tem nome e tudo: Neutroxx. A recém-adotada, Zahara, assim que crescer, deverá ir a cartório exigir mudança de nome para Botoxx. Brad Pitt e Angelina estão na Namíbia, vejam só. E o país comemora a temporada do casal ameaçando decretar feriado nacional no dia do nascimento de Neutroxx. Admiro, com uma pontada de dor de cabeça, a escolha de Angelina por parir longe de casa e perto do que ela chama de paraíso – até onde eu sei, a Namíbia é um inferno.

CARTA A ANGELINA
Socorro, Angelina Jolie. Será que cabe mais gente na sua casa em Hollywood? Sei lá, algumas crianças brasileiras já que até o nascimento de seu filho deverão ser largadas mais dez em alguma lixeira de Minas Gerais. Sim, eu sei que temos uma penca de atrizes e atores ricos que não se interessam em adotar recém-nascidos de origem duvidosa, nem em ajudar algum orfanato, mas enquanto eles não tomam nenhuma atitude será que você e o Brad poderiam passar por aqui para ver de perto o que acontece? Você acha que é pretensão a minha achar que nossas celebridades poderiam retribuir a fama e o dinheiro ganho às custas da nossa admiração para tomar a frente de algum projeto de assistência social no nosso país?
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25/05/2006
SORRISO DE MONALISA

Cannes repudiou a estréia de O Código Da Vinci. Na Croisette, críticas ferozes para a adaptação da obra de banheiro de Dan Brown para as telas. Não assisti ao filme, mas quero deixar registrada a minha vaia. Os cinemas de São Paulo – e do país inteiro, acho – não comportam a demanda para O Código Da Vinci. Desde a estréia do longa estrelado por Tom Hanks, o Tony Ramos da Park Avenue, as salas da cidade foram invadidas por um público, humm, diferente.

São leitores do livro homônimo, presumo, talvez os mesmos que costumam pegar senha em fila de churrascaria, certamente aqueles que pedem autógrafos e tiram fotos com artistas em jogos de futebol beneficentes. São casais de jeans manchado, moleton com frases em inglês e tênis Nike que brilham no quarto escuro. São pessoas que marcam encontro na praça de alimentação ou que ligam a cobrar para o seu celular pós-pago. São funcionários públicos concursados, de meio expediente e estabilidade no emprego, são pais e mães aposentados da Caixa Econômica Federal, são fiéis de workshop e fãs de carteirinha.

São famílias inteiras que se arrastam pelas filas, impedindo quem está atrás de conseguir o seu bilhete para assistir a uma outra película em cartaz. São estudantes de All Star surrados a gritar no seu ouvido como se estivessem na varanda de uma república, são entusiastas de qualquer romance barato que agora invadem as ruas como se todos estivessem ali pelo mesmo motivo. Não consigo ir ao cinema. Que O Código Da Vinci chegue logo à Blockbuster.

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www.ego.com.br Todos os dias, em caráter excepcional, críticas construtivas e crônicas destrutivas do mundo moderno na visão de Hermés Galvão, um jornalista antiquado.
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