19/06/2006
ANDAR COM FÉ EU VOU...
Retiro quase tudo que disse. Frente a Parada Gay, o encontro dos evangélicos foi um concurso de beleza. Desculpas sinceras aos crentes que deixaram seus puxadinhos na Zona Leste para confirmar a fé em Deus e testemunhar o milagre da multiplicação das carrocinhas de cachorro quente. Para quem pensava, assim como eu, que a jornada Jesus era o inferno na Terra é porque não viu de perto a chegada das sapatonas no metrô Paraíso. A mais bonita era sósia do Wando, a mais feia tinha a cara da fome. E todas foram reprovadas com louvor no quesito traje de gala. Vi tudo de longe, para evitar agressões e refrões de Ana Carolina, mas aceitei todos os códigos vigentes no tão discutível universo lésbico. Só não entendi algumas coisas: por que todas, eu disse todas, usam o mesmo corte de cabelo? Aquele batidinho na frente e picotado atrás, sabe? E por que a presença das malditas pochetes? E olha que eu nem prestei tanta atenção nos chaveiros presos à calça (baggy) e nos blazers.
Bem, por um outro lado, as bibas também ganharam notas baixas no corredor polonês que se transformou a Avenida Paulista. Bois de penas de galinha, calça jeans apertadíssima (para dar um efeito vagininha), cabelos domados nas mais variadas modalidades de alisamento – de henê a pente quente até a boa e velha touca – e o pior: camisetas da Cavalera tamanho PP. E todas tão magrinhas... Bem, antes de dar continuidade ao tema, um adendo: ao me referir às lésbicas, antes de escrever logo acima a palavra ‘sapatona’, procurei um termo mais, como dizer?, carinhoso para me referir à elas. E não encontrei. Não encontrei porque não existe. Todos os sinônimos ou referências são, ora pejorativos, ora depreciativos. Portanto, além do mundo gay ser machista, não tive outra escolha senão chamar as bolachas entendidas de sapatonas. E que não me venham com represálias – nem com ameaças à minha pessoa.
Pensando bem, este fim de semana prolongado foi bastante importante para mim. Depois da convenção cristã e da invasão das madames satã, crenças e teorias particulares foram por água abaixo. Passei a duvidar ainda mais da existência de Deus e agora critico, com sérias ressalvas, o direito do livre arbítrio. A liberdade de expressão e de culto trouxe à tona, se somarmos os dois eventos ocorridos, cinco milhões de pessoas estranhas, com gostos e atitudes muito discutíveis.
Um mar de gente triste, travestida de alegre, se formou em nome de uma idéia vaga que diz defender sem ao menos saber que assunto está em pauta. Contra a homofobia ou a favor do dízimo, todos estavam boiando e se perguntando para que lado nadar. Sobre a Parada Gay? Meu Deus, como a vida pôde ser generosa para tão poucos? Se só Cristo salva, quem vai livrar a cara dessa turma que só acredita no poder de um convite vip? E que ninguém me ouça, mas será mesmo preciso levantar bandeiras para reivindicar um espaço na sociedade ou um lugarzinho no céu?
... COM FÉ NÃO COSTUMA FAIÁ