21/06/2006
É PRETO NO BRANCO

E a comunidade judaica levantou os braços para reclamar da personagem Ester, de Belíssima. Jacobs e Sarahs estão perplexos com o perfil avarento e perverso sugerido por Silvio de Abreu à atriz Ada Chaseliov.

Enquanto isso, militantes da causa negra pedem outro final feliz para Sinhá Moça. Segundo um promotor de justiça (baiano, claro), a novela abolicionista erra ao mostrar o negro extremamente passivo e sofredor, que precisa de heróis brancos para se libertar. Bem que Preta Gil poderia aparecer nos últimos capítulos, vestida de Lucélia Santos, para salvar a pele dos escravos. Aí sim teríamos um fim verossímil.

Vamos acabar com o racismo já, a partir de hoje vamos repelir prostitutas nordestinas em horário nobre, gays afetados em peças de teatro, lésbicas explosivas em tramas inconclusivas e Camila Pitanga no papel de doméstica. Ou então aplicar um sistema de cotas para cada novela. De agora em diante, todos os autores serão obrigados a incluir, pelo menos, uma Maria Ceiça em cada folhetim. E vamos lutar por um Brasil mais justo, menos noveleiro e com participações especiais de Mila Moreira até o último capítulo.

Mas o país passa na TV, já dizia sua diarista manauara. Está tudo lá, para quem quiser acompanhar. A branca rica, o negro pobre, a índia indigente, o bandido mulato, a gostosa cabocla, a jovem bonita e a velha esquecida. Só não vê quem não quer, mas a contar pela audiência, bem que você, sua mãe, sua irmã e sua avó estão adorando tudo.
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20/06/2006
180 MILHÕES EM AÇÃO - OU A INÉRCIA DOS CORPOS

Então, minha gente. Estão gostando da Copa? Conseguiram trabalhar ainda menos que o habitual? Arrumaram tempo para assistir a todos os jogos, inclusive Paraguai e Trinidad e Tobago, hoje? O que acharam do esquema tático da Tunísia no que diz respeito ao futuro das equipes africanas no cenário mundial planejado pela Fifa para a popularização do esporte no continente até o próximo campeonato? Para quem os militantes de Sinhá Moça estão torcendo? Gana ou Costa do Marfim? O que a Ana Maria Braga está fazendo em Munique?

Estou sem respostas. Ainda faltam 20 dias para a final e já não agüento mais ouvir tanta filosofia de padaria em torno de futebol. E não tem para onde fugir: onde quer que se vá, lá está o torcedor genérico. Não importa quem esteja em campo, ele vibra com um simples escanteio cobrado errado por PSol (lateral croata e legenda para as próximas eleições). A pátria de chuteiras chutou a rotina para assistir a outros jogos que não os do Brasil. Que preguiça.

Aliás, fomos o país que mais mandou jornalistas para a Alemanha. E para quê mesmo? Ora, para mostrar o dia-a-dia de todos os jogadores das 32 seleções participantes, falar de assuntos que surgem justamente da falta de assunto. O que interessa saber por onde anda o centro-avante do Togo ou o que o atacante de Sérvia e Montenegro faz nas horas vagas? Quem quer saber a opinião de um ex-jogador sobre a arquitetura de Berlim? E amanhã tem Irã e Angola.
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19/06/2006
ANDAR COM FÉ EU VOU...

Retiro quase tudo que disse. Frente a Parada Gay, o encontro dos evangélicos foi um concurso de beleza. Desculpas sinceras aos crentes que deixaram seus puxadinhos na Zona Leste para confirmar a fé em Deus e testemunhar o milagre da multiplicação das carrocinhas de cachorro quente. Para quem pensava, assim como eu, que a jornada Jesus era o inferno na Terra é porque não viu de perto a chegada das sapatonas no metrô Paraíso. A mais bonita era sósia do Wando, a mais feia tinha a cara da fome. E todas foram reprovadas com louvor no quesito traje de gala. Vi tudo de longe, para evitar agressões e refrões de Ana Carolina, mas aceitei todos os códigos vigentes no tão discutível universo lésbico. Só não entendi algumas coisas: por que todas, eu disse todas, usam o mesmo corte de cabelo? Aquele batidinho na frente e picotado atrás, sabe? E por que a presença das malditas pochetes? E olha que eu nem prestei tanta atenção nos chaveiros presos à calça (baggy) e nos blazers.

Bem, por um outro lado, as bibas também ganharam notas baixas no corredor polonês que se transformou a Avenida Paulista. Bois de penas de galinha, calça jeans apertadíssima (para dar um efeito vagininha), cabelos domados nas mais variadas modalidades de alisamento – de henê a pente quente até a boa e velha touca – e o pior: camisetas da Cavalera tamanho PP. E todas tão magrinhas... Bem, antes de dar continuidade ao tema, um adendo: ao me referir às lésbicas, antes de escrever logo acima a palavra ‘sapatona’, procurei um termo mais, como dizer?, carinhoso para me referir à elas. E não encontrei. Não encontrei porque não existe. Todos os sinônimos ou referências são, ora pejorativos, ora depreciativos. Portanto, além do mundo gay ser machista, não tive outra escolha senão chamar as bolachas entendidas de sapatonas. E que não me venham com represálias – nem com ameaças à minha pessoa.

Pensando bem, este fim de semana prolongado foi bastante importante para mim. Depois da convenção cristã e da invasão das madames satã, crenças e teorias particulares foram por água abaixo. Passei a duvidar ainda mais da existência de Deus e agora critico, com sérias ressalvas, o direito do livre arbítrio. A liberdade de expressão e de culto trouxe à tona, se somarmos os dois eventos ocorridos, cinco milhões de pessoas estranhas, com gostos e atitudes muito discutíveis.

Um mar de gente triste, travestida de alegre, se formou em nome de uma idéia vaga que diz defender sem ao menos saber que assunto está em pauta. Contra a homofobia ou a favor do dízimo, todos estavam boiando e se perguntando para que lado nadar. Sobre a Parada Gay? Meu Deus, como a vida pôde ser generosa para tão poucos? Se só Cristo salva, quem vai livrar a cara dessa turma que só acredita no poder de um convite vip? E que ninguém me ouça, mas será mesmo preciso levantar bandeiras para reivindicar um espaço na sociedade ou um lugarzinho no céu?

... COM FÉ NÃO COSTUMA FAIÁ

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16/06/2006
JESUS TE AMA – E MAIS NINGUÉM

Olha, bem que tentei. Passei quase todo o feriado trancado em casa com medo da invasão evangélica em São Paulo. Mas anoiteceu e alguma força estranha me tirou de casa – vai saber não era Deus me chamando? Desde a visita do PCC no Jardins não se via tanta gente suspeita perambulando pelas ruas da cidade. Crentes de todo o país, procedentes de onde Judas perdeu as botas – vale lembrar, querido leitor evangelizado, que Judas, aqui, neste caso, não é o dono da oficina do bairro onde seu Chevette morreu – se reuniram para confirmar a fé e deixar o dízimo no bolso do pastor.

A pergunta é: não tinha lugar melhor para rezar? Sei lá, num estádio de futebol em Osasco ou no fã clube da Mara Maravilha filial Cambuci. A questão é que (Deus que me perdoe) nunca, em tempo algum, a cidade havia reunido as pessoas mais feias do país num espaço tão curto de tempo. A Avenida Paulista parecia uma rodoviária, para se ter uma idéia da gravidade da coisa seria um milagre esbarrar com alguém por ali que tivesse a arcada dentária completa. Para saciar o povo, nada de pão e água. O negócio era (Deus me livre) hot dog com purê e tubaína na promoção – combo por R$ 1. A cerveja era vendida no câmbio negro (com perdão aos críticos de Sinhá Moça) a preços pecaminosos e meninas com cara de cruz credo estavam vestidas do jeito que o diabo gosta.

E no fim da festa, a certeza de que a fé move montanhas – de lixo. A sujeira era tanta que faria Nossa Senhora chorar. Sacos plásticos, restos de comida, copos descartáveis, garrafas, papel... Agora resta saber se a fé remove gordura. Não sei não, mas tenho minhas dúvidas se Jesus aprovaria o encontro. Deus é 10.

Ah, e não percam na segunda-feira os detalhes mais sórdidos do encontro de bispos e travestis nos corredores do Hotel Fórmula 1, horas antes da Parada Gay. Ai, Senhor, me tira daqui.
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www.ego.com.br Todos os dias, em caráter excepcional, críticas construtivas e crônicas destrutivas do mundo moderno na visão de Hermés Galvão, um jornalista antiquado.
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