29/06/2006
CALÇA CURTA

Então pessoal. Ontem foi o último dia de Luana Piovani sentada sobre o sofá conceito de Saia Justa. Infelizmente perdi o programa de despedida, mas tenho a mais absoluta certeza que Luana, inteligente que é, deixou uma mensagem otimista de amor e carinho para os telespectadores já saudosos de sua participação especial. Algo entre Sartre e Chico Xavier, uma coisa condizente com seu momento de vida previamente cifrado no horóscopo da revista Viva Mais.

Notícia morna, saída diretamente de um site especializado em notas frias, diz que já existe uma substituta a altura (?) para a atriz de teatro. Uma não, duas. Será que Luana vale por duas? Será que sempre cabe mais uma no cenário ‘feminimalista’ de Mônica Vick Vaporubi? Quem são as novas integrantes? Senhoras e senhores (e gays), com vocês... Maitê Proença e Ana Carolina, a cantora bi. Agora sim, o quadro está completo.

O Saia Justa será a Arca de Noé do feminismo de estúdio, com uma representante de cada, como dizer?, espécie no ar. Teremos uma filósofa de criado-mudo, uma jornalista dona-de-casa, uma ex-modelo nostálgica com sérios momentos de bad hair days, uma atriz no papel de escritora bissexta e, a-rá, uma cantora bi (e daí?). Olha, do jeito que a coisa anda acho bom chamar Fernanda Young de volta. O Saia Justa, segundo Marcelo Madureira, é o programa mais machista da TV brasileira porque parte do princípio que mulher falando coisas inteligentes dá ibope. Não que elas falem, mas não custa nada tentar. Custa assistir, e dói nos ouvidos. Sou mais você, Ana Maria Braga.

Saia Justa é coisa de mulherzinha.
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28/06/2006
QUANTAS GRAMA, MINHA TIA?

O brasileiro está obeso. E quanto mais pobre, mais gordo é. Desde o advento dos restaurantes a quilo, o povão passou a comer mais e pior. Macarrão, maionese, feijão, arroz à grega (repare bem que os ‘pessoal’ adora internacionalizar suas tranqueiras: bife à milanesa, arroz à piamontese e batata portuguesa, por exemplo) e catupiry, o ingrediente onipresente na baixa culinária nacional – a catupirização da gastronomia chegou a graus alarmantes e hoje, dadas observações in loco, posso dizer: diga que comes catupiry que te direi quem és. E se és aquilo que comes, posso dizer com tranqüilidade que quanto mais misturas absurdas fazes no prato duralex, mais distante do ideal estarás. Sim, podemos medir o nível de civilidade e educação de uma pessoa de acordo com que ela coloca no prato - e com a quantidade de açúcar que ela usa no café.

Para você, participante do programa Vale Refeição, antes de percorrer o buffet de quentes e frios, cuidado ao encher a pança. Coma somente o indispensável, antes que ninguém te coma mais. Você, amiga funcionária da Telefônica com o crachá pendurado na blusinha de crepe, larga essas bolinhas de queijo; Ei, enfermeira hipertensa, saia da fila da picanha e esqueça a capinha de gordura da sua fatia mal passada. Alô estagiários de advocacia, meninas de tailleur mal cortado e mochilinha Victor Hugo: nada de sobremesa! Torta alemã, pavê tricolor, café com chantilly nem pensar. Bem, vou almoçar agora. No meu quilo preferido a duas quadras do meu ‘sirvissu’. Sim, sempre cuspi no prato que comi.

No meu tempo frango era chamado de galinha.
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27/06/2006
MAS É PRECISO TER GANA, SEMPRE?

Quem ganha? Brasil ou Gana? Lá na África, os tambores avisam que vai dar Gana de goleada. Pelo menos foi o que disseram os mediúnicos de plantão em todos os terreiros de Accra, a capital do país. Sim, o candomblé é tão onipresente no outro lado do Atlântico quanto por aqui. Segundo os freqüentadores e simpatizantes ganenses, um bom ebó à moda da casa vai despachar o Brasil da Copa e garantir a vaga para a seleção afro de penteado reggae.

Se der Gana, vai ser a maior zebra. E eles se encaixam como ninguém neste papel tão, digamos, savânico. Mas se galinha preta e farofa desse resultado a Bahia estaria as mil maravilhas – e os baianos, todos ricos. E Luiz Caldas estaria no topo das paradas musicais, e ACM seria presidente, e Nizan Guanaes... bem, deixa pra lá. Por isso, estou incrédulo no que diz respeito ao jogo de hoje – religiosamente falando, que fique claro.

Não duvido do poder de uma arriada completa, nem de um frango em tempo regulamentar, tenho minhas reservas em relação a encruzilhadas e vendedoras de artigos macumbeiros. Inclusive conheço casos de pessoas que trouxeram a pessoa amada em sete dias – mais na marra que na reza, é verdade. Aliás, uma dúvida: a mãe Sissinha de Obaluê, que opera no eixo Tatuapé-Vila Carrão, em São Paulo, traz a pessoa amada, mas será que garante uma recíproca verdadeira? Haja canjica, vela e ovo cozido. No Rio, mãe Valéria de Oxossi avisa que se pessoa amada não aparecer, ela devolve o dinheiro.

É isso aí, satisfação garantida ou seu despacho de volta. Bate macumba. E se o dia de hoje será resolvido na macumba, vamos ver se os baianos fazem alguma coisa por nós e começam a bater esse tambor já nas primeiras horas do dia.

Não percam amanhã: Grupo Gay da Bahia protesta contra a decisão de Madonna de cancelar seus shows no Brasil. Alguém chama o Giovani.

Arre, arreia, arre, rei, rei, rei...
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26/06/2006
PULA A FOGUEIRA

Festas populares sempre me causaram estranheza. São João em especial. Das comidas às danças, tudo é imoral e engorda. Canjica, quadrilha, pescaria com prêmios plásticos, forró, salsichão rodado na farinha, quentão e barraca do beijo administrada pelas meninas mais feias do seu bairro. Sem falar na sua prima de Teófilo Otoni que não só adora festas juninas, mas que capricha no visual caipira – e você nunca sabe se ela está a caráter ou se está a passeio completo.

Acho que tenho algum recalque em relação a São João. Algo não resolvido na análise e que agora veio à tona com a chegada das festividades. Minhas lembranças são rarefeitas, mas se não me engano foi meu irmão mais velho o responsável por eu ter passado uma noite inteira detido na prisão naquele arraiá de playground. Enfim.

Quero aproveitar o espaço para discutir uma outra festa de peculiaridade similar: Parintins. Alguém pode me explicar a razão da existência da Festa do Boi? Não sei se já é hora de falar a respeito do ‘evento’, não sei se já começou ou se está para acontecer, sequer sei os motivos que levam tanta gente a se mobilizar em volta de um bovino de espuma e glitter movido a tração nas quatro pernas.

Mas o que será que dá na cabeça do Amazonas para pular de um lado para o outro com tanga de pena de peteca e cocar de papelão? Qual a graça de ver um bando de índia requebrando até o chão enquanto um tabajara solta fumaça pelas ventas para uma multidão manauara espetada na arquibancada a 38º? Entra ano, sai ano, e está tudo lá, igual. Sem tirar nem pôr. A cultura brasileira não se renova e vive em eterna manutenção de clichê. Talvez por isso minha melhor festa junina foi aquela onde passei atrás das grades. Obrigado, meu querido irmão.
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23/06/2006
O ÚLTIMO ROMÂNTICO

O amor é lindo, mas não existe relação sincera que sobreviva à falta de dinheiro. Para um casamento duradouro, recomendo capitalizar, captar recursos. E fazer do marido (ou mulher), seu melhor sócio. Sim, a vida a dois é uma sociedade autônoma, ou ilimitada, depende de quando e como você quer chegar ao primeiro milhão. Na comunhão de bens ou na separação deles fica evidente que no juntar das escovas de dente ninguém quer sair perdendo. Em circunstância matrimonial, a divisão é uma operação simples que deve ser usada apenas para pagar as contas.

Debaixo do mesmo teto, deve-se somar e multiplicar. E nunca subtrair. Uma entrada para o cinema deve custar R$ 15 e não R$ 30. Um jantar a dois não deve passar dos R$ 150 – para cada um, que fique claro. E a conta conjunta, em tempos modernos, é o golpe do baú dado à prestação. Os juros virão, não se preocupe, em forma de crise conjugal. Sucesso na intimidade é tratar o dinheiro como amante – e respeitar o seu espaço e a sua importância até que a morte os separe.

Aviso aos monogâmicos: dinheiro é traiçoeiro, só você é fiel a ele. Não subestime o poder dele, pois trata-se de um aliado sexy e sedutor. Super romântico quem sustenta o outro, mas quem realmente pretende bancar aquele que não ganha nem para a gasolina? Amar custa caro e o dinheiro, dizem os pobres, compra até amor verdadeiro.

Quem quer dinheirooooo
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22/06/2006
PONTO FACULTATIVO
Nada na vida é de graça, já lembrava sua prima de Belém. Mas por que tanta cobrança se não devo nada a ninguém? Já que os inúteis caminham para o fim do dia útil vou me dar ao direito de aumentar a torcida do nada faz. Ficarei de braços cruzados hoje. À espera do fim de semana. Amanhã é ponto facultativo? Não tenho assunto agora, apenas idéias vagas que precisam ser organizadas o quanto antes. Me sinto cobrado e pago caro por me obrigar, diariamente, a exigir de mim o incontável, o impossível. Hoje não tem pão velho, queridos leitores. Mas o amanhã é inevitável.
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www.ego.com.br Todos os dias, em caráter excepcional, críticas construtivas e crônicas destrutivas do mundo moderno na visão de Hermés Galvão, um jornalista antiquado.
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