17/07/2006
CROSSOVER
Não há crônica ou conto que me divirta mais que críticas de desfile de moda. Se não conhecesse as pessoas que as escrevem diria tratar-se de bons escritores, poetas remanescentes do concretismo ou do construtivismo.
O mais gostoso disso tudo é que eles são reais, os jornalistas e seus textos. Não tive forças físicas e preparo psicológico para aparecer no cenário mico-africano de Paulo Borges, mas não perdi um dia sequer da semana de moda fashion week via web.
É preciso estar antenado, não é mesmo pessoal? E também avonts e descolado, mas algo me diz que esse papo tendência não cola. Por isso, troquei uma sala de desfiles pela minha sala de estar e descobri novas maravilhas no You Tube – como Mara Maravilha cantando no programa Milk Shake, com Angélica embrulhada num vestido lameado (nada muito diferente do vestido por ela nos 15 minutos de Carlos Tufvesson).
Enfim, antes do fim do evento multiétnico e racial tomei a iniciativa de destacar algumas pérolas do nosso jornalismo de moda. Promoção absurdinha: juntando as frases, você compõe automaticamente uma música para o novo disco de Arnaldo Antunes.
“O transe universalizado é convite para uma viagem lisérgica e multiétnica.”
“Manifesto de resgate memórias perdidas, emoções roubadas, sensações de opostos, jogos de esconder e revelar.”
“Exercícios de edição e montação na passarela, ainda mais que o mote aqui é o minimalismo vigente.”
“Resposta fashion às notícias trágicas dos jornais com uma coleção que usa o conceito contemporâneo de bem-estar como mote.”
“O ato é acertaderrerézimo.”
“Acionam o fundamentinho Devendra Banhart.”
“Um descompromisso de alma hippie.”
“Vem mais afiado do que nunca, enterrando a imagem fragmentada.”
“Impressiona por conjugar os valores desta nova elegância.”
“Acerta na contenção das formas.”
“A sequência de looks é um megamix das paixões.”
“As referências borbulham no caldeirão com fragmentos barrocos.”
“O forte da coleção são justamente essas peças que dialogam com o hoje.”
“É a essência da performance.”
“Um bucolismo às avessas.”
“Um perfume de romantismo que passou.”
“Colocam a gente com um pé numa realidade mais cósmica.”
“A liberdade proposta foi exagerada e deixou a coleção sem unidade.”
“Dentro dessa leitura conferem elegância e androginia ao look.”
“Renova seu repertório com tendencinhas e uso de cores fortes e novos materiais.”
“Motivada por um crossover, a estilista apresenta uma coleção com minimalismo de idéias e sem emoção.”
“O estilo justapõe peças de noite, praia ou activewear, e tem caimento contemporâneo.”
“Os exercícios no feminino estão mais fortes, mas quando se envolve na estética do olhar são desejáveis.”
“A apresentação foi longa, com edição burocrática, blocada por cores e peças corseletadas.”
“Há um grito preso na garganta. Uma vontade de quebrar as regras. Uma paixão desenfreada pela moda.”
“Seu look mais basiquinho é sessentinha, com luvinhas, amplos e macaquinho com capuz, estampinha listradinha, batinhas soltas e vestidinhos tropicais fofolitos.”
“Consegue emprestar seu desejo de lifestyle relax aos looks que chegarão à vida real mais arrumadinhos.”
“Africanismos, proporções e comprimentos estão mais leves e completam uma cartela de naturais, que pode vir vazado a laser.”
“A leitura da tendência bucólica e romântica, quase folk, e um vídeo lisérgico ao fundo.”
O preto e branco é a vedete. Ninguém me contou, eu mesma vi. Thanks, M. Mendes