09/08/2006
TER UM AMIGO...

Desculpem o atraso, espero que ainda esteja em tempo de tocar no assunto ‘Criança Esperança’. Cirque du Soleil? Circo de Moscou? Circo Imperial da China? Pra quê tudo isso se temos o melhor espetáculo da Terra no show de horrores apresentado anualmente para uma platéia sovaqueira no Ibirapuera?

Não pude acompanhar a atração pela TV do jeito que gostaria – existe censura no meu convívio social e eu agradeço por isso –, mas o pouco que vi deu para perceber que Debby Lagranha, que já tem confirmados 16 anos (e não 15, como eu havia dito anteriormente), não participou desta vez. Debby perdeu o papel-título de menina sapeca vitalícia de Didi Mocó e foi substituída por Livian Aragão, filha de Renato Aragão. Não é por nada, mas a menina é a cara do Zacarias. E sabem o que descobri? Que Livian tem sete aninhos e sua melhor amiga é ninguém menos que... tcharan! Debby, a também melhor amiga de Sasha, que tem oito anos (e não sete, como eu havia imaginado). “Livian, Sasha e Debby são amiguinhas há muito tempo”, justifica a entrevistada da semana. Está provada mais uma vez a teoria da relatividade.

Meus leitores sabem da minha estranha obsessão por Debby e minha preocupação latente com o seu futuro profissional. Temo que Debby não seja absorvida-pelo-mercado-de-trabalho, que sua carreira seja apenas uma lembrança da infância gloriosa presa na parede em forma de pôster autografado. Mas o que Debby anda fazendo para subir na vida além de levantar seríssimas discussões na Unicef respeito da sua cabeleira indomável? Mesmo sendo duvidoso, o futuro de Debby não é tão acaju quanto vocês imaginam: pensem que todo circo sempre precisa de um leão. E todo leão precisa de uma juba.

Debby, eu sou você amanhã. Com amor, Narjara.
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08/08/2006
LIKE A PRAYER

É fácil causar polêmica, difícil é não achar graça da reação alheia. Vamos sair um pouquinho do âmbito nacional e viajar até Roma, onde Madonna se apresentou pela milésima vez – e pela milésima vez provocou a ira da igreja católica com sua perfomance de cruz credo.

Desde que o mundo é pop, a cantora faz uso 'indevido' do símbolo maior do Vaticano: o crucifixo, seja no palco ou no pescoço. E desde que o papa é pop, ela encontra um jeitinho de louvar sua religiosidade em vão para alegria ecumência dos produtores de moda da Frei Caneca.

Madonna já foi apostólica romana e pecou pelo excesso de apelação; agora é cabalista e envereda pelo mesmo caminho sem volta. Sua necessidade de buscar o sagrado acaba por deixá-la vulgar – antes a tornasse profana.

Tudo em Madonna é gratuito, muito embora uma multidão de fiéis ainda pague caro para assistir a um show carregado de significados engradados. Não há nada de novo em Madonna ou em sua turnê confessionária. Desde o anjo negro de Like a Prayer, tudo em sua carreira é de fácil digestão - difícil é engolir quem ainda clame por ela ou reclame dela. A subversão está no subconsciente, ao contrário do que pensa o inconsciente coletivo. Madonna é para iniciantes, o pop é para iniciados.

O pop não poupa ninguém.
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07/08/2006
CONTRA TODOS E CONTRA NINGUÉM

Hoje vamos tratar de um tema polêmico: a polêmica propriamente dita. Tive um fim de semana delineado por assuntos polêmicos. Na verdade, conversas simples do dia-a-dia que por falta de um denominador comum tornaram-se polêmicas. Cada um defendendo o seu ponto de vista e sem abrir mão do direito de razão.

A busca pela unanimidade torna-se incansável à medida que os argumentos vão ficando menos plausíveis, a falta de um senso comum é a linha de partida para a discussão e por fim ganha quem levar no grito. Convencer-se do contrário é dar a mão à palmatória, é sair perdedor de uma guerra sem vencedores. Ou achar que na vida tem-se que entrar sempre para ganhar.

O desejo da unanimidade é o único ponto pacífico e por mais frustrante que seja a descoberta do impossível, menos perceptiva é a intenção do real sentido do termo polêmico. Afinal, o que significa polêmica? É ir contra a opinião pública? É ter uma visão particular, e não por isso distanciada, de uma realidade construída apenas no social?

Polemizar é contrariar o desejo absoluto de tornar a rotina uma sucessão de pastiches de identidade. Ser polêmico não é ser simples e puramente do contra; é, antes de tudo, saber que tudo isso vai dar em nada.

Sou contra proibir. Ahora a Diós Fidel!
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04/08/2006
MORA NA FILOSOFIA

Nizan Guanaes virou professor de candomblé, já que todo baiano se diz uma sumidade em relação a tudo, inclusive a religião. Suas aulas acontecem a partir de setembro na Casa do Saber, em São Paulo, embora não tenha visto seu nome e nem o seu curso na programação do centro de estudos profundos. Seria mais uma jogada de marketing do nosso publicitário?

Para quem não sabe, a Casa do Saber é um centro de estudos onde o interessado pode aprender tudo sobre filosofia, religião, literatura, física, história e arte em apenas quatro encontros. Os cursos são intensivos. Por apenas R$ 320 eles passam a ter assunto nas rodas de conversa no café da moda, nas festas no Jardim Europa e o mais importante: podem sair por aí dizendo que têm conteúdo.

É nova mania entre os modernos dizer que está em busca de seu eu interior. Cada vez mais pessoas se encontram para, digamos, estudar. Na Casa do Saber, por exemplo, o curso “Sentido da Existência” aborda a questão “O que é existir?” Diz a ementa: “Essa questão, essencial para a filosofia e para a existência humana, é abordada à luz do pensamento de quatro grandes filósofos: Pascal, Kierkegaard, Heidegger e Sartre.

Tem permuta?
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03/08/2006
ASSALTIMBANCO

São Paulo tem 10 milhões de habitantes, sendo que sua área útil – aquela onde você mora ou espera morar, aquela onde você sai ou gostaria de sair – é povoada por não mais que 1 milhão de pessoas. Em termos práticos, isto faz da cidade, que se orgulha em ser a segunda mais lotada do mundo, não muito maior que Lisboa, por exemplo, e, dada a sua alta sociedade relativa, não menos provinciana que Curitiba.

Aceitei o convite para assistir à pré-estréia do Cirque du Soleil, que subiu a lona num terreno baldio a duas pistas de distância do rio Pinheiros e por razões óbvias reuniu o que as colunas sociais chamam de fina nata paulistana. Foi a primeira vez que a trupe tornou-se coadjuvante em seu próprio show. Por um instante, ou dois, os acrobatas elásticos e seus ‘uniformes’ Pucci não foram suficientes para prender minha atenção – talvez porque, em tempos mais áureos, pude aplaudir ao espetáculo em terra estrangeira.

A platéia estava, como diria Joyce Pascowitch, muito singular. Foi um festival de peles, bico fino, sobretudos abotoados, vestidos laminados e cabelos aerodinâmicos tão armados que nem um salto triplo, do alto do trapézio mais íngreme, tiraria um fio do lugar. Debaixo do mesmo ‘teto’ estavam políticos, socialites e nomes que jamais entrariam na minha lista vip – Naji Nahas e Celso Pitta, por exemplo.

O mise-en-scène fora do picadeiro brilhava em strass, vison, escovas progressivas, trajes regredidos e falsos brilhantes – e eu, com cara de palhaço, assistia ao show de horrores estéticos encenados a partir da mesa ao lado. Homens, mulheres, crianças e pessoas do mundo fashion (um gênero à parte, você há de convir) vestidos de modo a despertar a atenção da vizinha faladeira, como na estréia de uma peça de teatro em Brasília com atores da Globo no papel principal.

Eram saltimbancos do dia-a-dia exibindo para o público seu velho estilo espalhafatoso. Pão e circo para todos, como nos tempos romanos. E no fim da noite, todos se digladiando por um espaço no César Giobbi de amanhã.

“Ói nós aqui, Ói nós aqui,
Hollywood fica ali bem perto,
só não vê quem tem um olho aberto...”
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www.ego.com.br Todos os dias, em caráter excepcional, críticas construtivas e crônicas destrutivas do mundo moderno na visão de Hermés Galvão, um jornalista antiquado.
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