03/08/2006
ASSALTIMBANCO
São Paulo tem 10 milhões de habitantes, sendo que sua área útil – aquela onde você mora ou espera morar, aquela onde você sai ou gostaria de sair – é povoada por não mais que 1 milhão de pessoas. Em termos práticos, isto faz da cidade, que se orgulha em ser a segunda mais lotada do mundo, não muito maior que Lisboa, por exemplo, e, dada a sua alta sociedade relativa, não menos provinciana que Curitiba.
Aceitei o convite para assistir à pré-estréia do Cirque du Soleil, que subiu a lona num terreno baldio a duas pistas de distância do rio Pinheiros e por razões óbvias reuniu o que as colunas sociais chamam de fina nata paulistana. Foi a primeira vez que a trupe tornou-se coadjuvante em seu próprio show. Por um instante, ou dois, os acrobatas elásticos e seus ‘uniformes’ Pucci não foram suficientes para prender minha atenção – talvez porque, em tempos mais áureos, pude aplaudir ao espetáculo em terra estrangeira.
A platéia estava, como diria Joyce Pascowitch, muito singular. Foi um festival de peles, bico fino, sobretudos abotoados, vestidos laminados e cabelos aerodinâmicos tão armados que nem um salto triplo, do alto do trapézio mais íngreme, tiraria um fio do lugar. Debaixo do mesmo ‘teto’ estavam políticos, socialites e nomes que jamais entrariam na minha lista vip – Naji Nahas e Celso Pitta, por exemplo.
O mise-en-scène fora do picadeiro brilhava em strass, vison, escovas progressivas, trajes regredidos e falsos brilhantes – e eu, com cara de palhaço, assistia ao show de horrores estéticos encenados a partir da mesa ao lado. Homens, mulheres, crianças e pessoas do mundo fashion (um gênero à parte, você há de convir) vestidos de modo a despertar a atenção da vizinha faladeira, como na estréia de uma peça de teatro em Brasília com atores da Globo no papel principal.
Eram saltimbancos do dia-a-dia exibindo para o público seu velho estilo espalhafatoso. Pão e circo para todos, como nos tempos romanos. E no fim da noite, todos se digladiando por um espaço no César Giobbi de amanhã.
“Ói nós aqui, Ói nós aqui,
Hollywood fica ali bem perto,
só não vê quem tem um olho aberto...”