18/08/2006
A AJUDANTE DO MÁGICO - UM CONTO
Nem estava tão cheio como o palhaço imaginara, mas, aos poucos, crianças e mães iam se acomodando nos bancos de ferro enquanto pais equilibravam churros e groselhas nas mãos. Era o último dia do circo.
Um menino de buço olhava pelo furo da lona a morena despindo-se de gente e jamais quis que aquele espetáculo começasse algum dia. Era, ela, a ajudante do mágico. Nascida no banco de trás da jaula do leão, cresceu entre ciganos duvidosos que tocavam o Gran Cirque Jolie pelas pequenas cidades.
Queria, ela, ser bailarina, mas faltava-lhe graça de magrinha e, por indicação da trapezista, foi lançada nas mãos do ilusionista Bartô. Desde os treze dividia o trailer e aos quinze aprendera a ser esposa. Nesse meio tempo foi treinada para ser a ajudante do mágico.
E o circo começou, então. Famílias russas no trampolim, trapézio, o mágico e sua ajudante. E veio: maiô brilhante, batom borrado e um sorriso amarelo cansado dos velhos truques do marido mágico.
Bem, lá estava ela: pé direito adiantado e olho vivo nas pombas brancas. Facadas na caixa, serrote e roleta russa – somente em dias de estréia ou na presença do prefeito (às vezes dava errado). Era, ela, a ajudante do mágico mas este nunca fizera uma para ela.
No último dia de apresentação naquela cidade, ela, a ajudante, enxotou pombas e lenços no chapéu do marido e, de maiô dourado, deixou o circo para nunca mais brilhar. No dia seguinte, taparam o buraco da lona.