06/09/2006
VISTA ESSA CAMISA
Vou mandar confeccionar uma camiseta com os dizeres “Estou em São Paulo apenas a trabalho”. É que tenho vergonha de morar aqui, na verdade acho um vexame a convivência diária em sociedade paulistana.
Na segunda-feira, durante a pré-estréia de O Diabo Veste Prada, um publicitário lançou um filme de si mesmo antes da exibição da película. Nele, suas funcionárias falavam da maravilha que é trabalhar com uma pessoa bonita, criativa, descolada (termo em desuso), generosa e sei lá mais o quê.
Ao fim da mostra, os convidados – todos vips – foram de encontro ao self-marqueteiro para dar-lhe os parabéns. Não sei, mas desconfio que em nenhuma outra cidade do mundo exista tanta gente inapropriada para convivência diária.
Ontem, ouvi uma ladainha moderna a respeito de uma tal busca incessante pela humildade: a pessoa que declamava é das mais arrogantes que conheço, mas seu discurso funcionou para aquelas pobres coitadas que, por falta de programa melhor, sentaram-se à mesa daquele restaurante mais ou menos para ouvir o que o amigo humilde tinha a dizer.
Adoro gente arrogante, na verdade. Mas gosto das que tem talento para ser, não pretensão para tal. Até para ser arrogante, vejam só, é preciso ter inteligência. Não é o caso de nenhuma dessas pessoas que fazem de São Paulo a maior província do mundo.
De cosmopolita, aqui, nem mesmo as roupas que eles vestem, nem as lojas que eles compram e muito menos os assuntos que eles clamam. E eu reclamo. Não sei, leia na minha camisa.
05/09/2006
QUEM TEM MEDO DE CAROLINA DIECKMANN?
Deu no jornal Estado de S. Paulo que as vendedoras de um shopping do Rio de Janeiro têm medo de Carolina Dieckmann. Segundo nota do colunista social Cesar Giobbi, a atriz é considerada uma cliente difícil de ser atendida. Gosto de pessoas difíceis, ainda mais quando não são bem entendidas. Mas não acho que seja o caso de Carolina Dick-man.
É muito fácil perceber o que se passa com Carolina, difícil mesmo deve ser atender suas necessidades fashion-fisiológicas. A atriz ostenta um ar, como dizer?, estrelado, só não sei se vai conseguir sustentar o personagem por muito tempo.
Gosto de gente temperamental, mas não gosto de quem finge assim o ser em nome de um comportamento tão impróprio para atrizes de porte inconsistente e talento irrelevante. Talvez não seja o caso de Carolina, talvez.
Não vejo sentido em artistas brasileiras que perseguem a pose de diva num país sem star quality e sem o menor quilate de glamour. E vejo menos razão ainda para acreditarmos que uma simples decoradora de roteiro, que só trabalha em papéis sob medida, possa causar algum tipo de medo em seres humanos. Talvez esta teoria não se aplique a vida prática de Carolina, uma ex-primeira dama de circo.
Há boas atrizes na TV Globo, mas não acho que elas possam gerar qualquer tipo de pânico entre vendedoras de galeria comercial. Aliás, diva que é diva não freqüenta shopping center. Não é o caso de Carolina Dieckmann.
A Internet e suas maravilhas. Visitem o site de Pitty Webo, a atriz com nome de sabonete íntimo.
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04/09/2006
Amargo regresso.
Duas semanas depois de ter dado as costas para o Brasil, eis que bato de frente outra vez com um país atolado em sua própria lama movediça. De volta estou ao coração da América Latrina, rodeado de hipertensos sociais, chafurdando no grande chiqueiro do Novo Mundo, a pouco mais de nove horas de um lugar um menos indecente para se viver, a muitas léguas ao sul de um bom café.
Ainda não sei ao certo se fomos esquecidos pelo mundo ou se nos perdemos num espaço de tempo definido pela nossa própria indiferença. Estamos tão longe e tudo que fazemos é nos isolar mais e mais, quilômetros tornam-se anos-luz enquanto as horas passam tão devagar que somos capazes de continuar dormindo de cabeça para baixo.
Apenas impressões definitivas de um passageiro autista que por amor a pátria abstraiu o fato de aterrissar em São Paulo sob aplausos entusiasmados de conterrâneos que sequer deveriam ter saído de suas poltronas. Ah, se elas não só flutuassem e também voassem.
01/09/2006
Acabou-se o que era doce – de ovos. Minhas merecidas férias vão chegando ao fim, este será meu último fim de semana em território quase estrangeiro. A partir de segunda-feira volto a atender no mesmo endereço, retomarei velhos hábitos e deixarei de lado algumas idéias antes insolúveis e agora diluídas em água depois de uma rápida retrospectiva de mim mesmo.
E para que servem os descansos senão para rever certas opiniões? O melhor de tê-las em excesso é poder mudá-las sempre que plausível, até que se torne possível crescer outra vez. E mudar de novo. Um simples ritual ciclotímico, quase neurótico, este de esperar um ano inteiro para marcar no calendário a data X da grande mudança. Não que seja necessariamente assim, mas é tão simbólico e subjetivo como comemorar o ano novo em 31 de dezembro.
Enfim, sem muito mais desde já. Passa das 18h aqui e há muito o que fazer a partir de agora. Mas sempre há, ontem mesmo eu era outra pessoa. E amanhã talvez seja outra, outra vez. E por aí vai. E por aqui fico. Até segunda-feira.
31/08/2006
UMA CASA PORTUGUESA
Mais que a cortiça, a hospitalidade é o maior produto de exportação de Portugal. E talvez os portugueses nem tenham a noção exata da quão detalhada (e não detalhista) é a vossa arte de receber.
De uma simples mesa de café da manhã ao mais sutil conserto de uma revelia sanitária, tudo é feito de maneira tão sincera que somos levados à vontade para tornar dispensáveis quaisquer protocolos verbalizados ao redor dos velhos hábitos das pequenas éticas – em suma: etiqueta.
Sim, as etiquetas que tantos fomos obrigados a perceber talvez sirvam apenas para camuflar o que temos de mais franco: as boas gafes. Etiqueta é um conjunto de belas palavras traduzidas em pequenos gestos nem sempre verdadeiros. E por educação aprendemos no Brasil a sorrir de tudo e para todos, sem maiores critérios.
Muito sorriso para pouco dente, muita simpatia para pouca cordialidade. Felicidade travestida, alegria fantasiada, tristeza abafada, fatalismo às avessas. Camuflaram a nossa sinceridade, anularam o entre e fique à vontade.
Deveríamos esquecer as etiquetas e lembrar apenas das grandes éticas. Detalhes nem tão pequenos e que no fim fazem a maior diferença – assim como as rolhas de cortiça.
30/08/2006
De todos os males, o pior: os portugueses sofrem de baixa auto-estima – e nós herdamos isso deles, assim como assimilamos outras características igualmente degenerativas como, por exemplo, alimentar uma estranha obsessão por outras culturas.
Nossos colonizadores, ora ora, são tão colonizados quanto nós e desconfio seriamente que existe por aqui um certo complexo de inferioridade em relação aos vizinhos espanhóis - tão grandes, bravos e imperiais desde as navegações (com alguns hiatos devidamente apagados com a ajuda da União Européia: mesma forcinha esta que deveria, a partir de 1986, levar os lusitanos ao encontro do novo Velho Mundo.
Ainda há tempo, mas talvez seja quase tarde para mudar a mentalidade dos nossos descobridores, estes que desde o século XVIII vivem a expectativa de retornar ao posto de entreposto econômico e cultural da península Ibérica e áridas adjacências.
Algumas muitas centenas de anos depois de ser considerada a maior e mais importante cidade da Europa, Lisboa chora sua elegante desimportância entre conversas e códigos tão comuns a cidades do interior do Brasil ou do meio-oeste americano: assim como em Phoenix (Arizona), aqui neste miúdo Concelho (com cê mesmo, antes que um de vocês ameace entrar em pormenores) costuma-se reparar nos costumes, corre à boca pequena que às tantas aquela boca já beijou toda a região. Ouvi dizer que na Baixa nada fica dito pelo não dito. O mundo gira, e a lusitana roda. Até amanhã.
29/08/2006
Haviam me alertado sobre o sofrimento que é estar na Espanha em fins de agosto. Ainda assim segui em frente e descobri os destemperos veranistas da Andaluzia numa bravíssima saison à beira do Mediterrâneo, à beira do cais e à beira do caos.
E a moda neste verão vem mesmo da praia – cada dia, diz o El Pais, 350 ilegais chegam à costa espanhola nas modalidades mais variadas: barco, caiaque, remo, nado livre, Debora Secco em ‘América’ e pedalinho. Todos vindos da África, todos mortos de fome e com sede de trabalho desonesto e obviamente mal remunerado.
Os espanhóis precisam tanto do imigrante subsaariano quanto os paulistanos precisam dos baianos, os súditos de Sofia são tão gratos e fartos dos estrangeiros quanto sua amiga fina de família árabe do eixo Itaim-Estúdio W. Mas enfim, é graças aos marroquinos, mauritanos, argelinos, senegalenses e nigerianos que a produtividade espanhola cresce a níveis quase chineses a cada ano – e é graças a eles que o país oferece o mais barato haxixe da União Europeia – não que eu faça uso da droga, mas não me custou nada perguntar o preço.
Finda a temporada em terras andaluzas, eis que me encontro agora de passagem pelo Algarve, já em Portugal outra vez. Estou a caminho de Sagres, onde os navegadores deveriam ter aprendido o verdadeiro caminho das Índias. Espero não errar o roteiro e acabar voltando para a Espanha, onde acabam de naufragar mais 350 bem aventuradas em busca de novas descobertas.
28/08/2006
SIESTA
Estoy admirado com a evolução da sociedade capitalista espanhola. Em menos de dois anos passaram de meros pensionistas a consumistas vorazes, sedentos por novidades vindas do circuito Elizabeth Arden.
Magazines, tiendas, comerciais de TV e outdoors vendem todo tipo de cosmético, roupa e afins milagrosos que prometem transformar o shape das espanholas em algo equidistante entre francesas e inglesas – a propósito, nada pior neste verão no Mediterrâneo que as londrinas de passagem pelas praias da Costa del Sol a fins de celebrar as famosas ‘hen parties’, isto é, despedida de solteira. Longe dos futuros maridos e cada vez mais perto das armadilhas marroquinas, elas passam por mim cada vez mais bêbadas, carentes, gratuitas e entregues ao que há de pior na Espanha: o sexo com os espanhóis.
Enfim, voltando ao assunto de hoje: a nova onda de consumo na Europa tem sotaque manchego e andaluz: em Madrid ou Sevilla, cada vez menos siesta e cada vez mais fiesta do euro. Cerrar as portas às 13h tem deixado de ser um bom e velho hábito para tornar-se um costume tão folclórico quanto as dançarinas de flamenco das cercaninas de La Giralda.
Mesmo sob um calor de 40º graus, ainda que o sol dite as regras do horário comercial no país de Rossi de Palma, parece que hoje abrir mão da siesta é um tão natural quanto fazê-lo. Ganha-se dinheiro, mas perde-se um pouco do charme.
25/08/2006
DOWN NO BAIRRO ALTO
Vou contar um segredo: Lisboa ainda guarda esconderijos secretos. Entre suas ruelas, varais lotados de calçolas e portões de ferro pombalino, eis que surgem pequenas tascas de gostos e preços bem populares.
Sentado em uma das quatro mesas de A Primavera, descobri a cozinha secular da boa e velha Dona Maria, aquela clássica atendente de botequim que nós, cariocas, jamais imaginávamos reencontrá-las por todo lado em variações genéricas e quase sempre simpáticas.
Pois fui servido à moda, com dourada na brasa acompanhada de grelos salteados e peixinhos da horta. Bem, até agora não sei exatamente por que estou a contar-lhes sobre um almoço banal e, até certo ponto, vulgar. É que me ocorreu uma nostalgia de um tempo que não vivi. Acho que a pior saudade é aquela que não sabemos porque sentimos.
E foi assim que me peguei, a olhar duas raparigas da minha idade, acho eu, descendo a rua das Gáveas em compasso de pressa. Sequer sei para onde iam ou de onde eram, mas por um segundo deu-me imensa vontade de segui-las mais adiante.