30/10/2006
DOG’S LIFE
Este fim de semana entrei de cabeça, corpo e membros no universo canino. Nuno, meu pequeno cão, enfim, completou quatro meses de vida e de aniversário ganhou, entre ossos e snacks, a última vacina, isto é, sua carta de alforria. Ontem saímos juntos pela primeira vez, seu début nas ruas de São Paulo teve direito, até, a sessão fotográfica. Nuno agora é cidadão do mundo e, vejam só, já tem amigos no parque do bairro e foi convidadíssimo para a festa de fim de ano promovida pelas donas de poodles e bichon frisé do Jardim Paulistano. Achamos por bem não participar, mas agradecemos o convite e estamos abertos para conhecer, superficialmente, os tutus felpudos que vivem nas cercanias.
Nuno gostou mesmo dos cães grandes e de uma simpática vira-lata de nome Nina. Nina e Nuno trocaram telefones e algumas dicas de como sobreviver aos donos. Assim como eu, a mãe de Nina sofre ao sair de casa e com a idéia de deixar sua ‘cã’ sozinha por alguns instantes. Virou refém voluntária de sua criaturinha e já não atende a todos os telefonemas dos amigos que a convidam para falar sobre nada nos cafés middle class do eixo Jardins-Itaim. Também evita lugares proibidos para cães e fareja à distância a aproximação de senhoras que fazem voz de criança para se comunicar com cachorros de pequeno porte.
Pois foi um fim de semana deveras especial, para mim e para Nuno. Caso interessado estivesse, metade do bairro estaria na minha cama neste exato momento graças a Nuno. É um mundo novo que se abre também para mim, este dos donos de cachorros. Troca-se de tudo, de impressões passageiras a olhares penetrantes. Os cães são grandes alcoviteiros, talvez responsáveis por alguns romances sem pedigree que hoje vi passar pela mesma calçada que escolhi para andar. Se deu vontade de retribuir o flerte ocasional? A companhia de um cão é tão prazerosa quanto dizer um sonoro não a quem joga charme até para um poste.
Voltamos para casa, sozinhos e mais unidos do que nunca, cansados de um domingo de sol e de luz. No doce regresso, vieram Akitas, Cokers, Labradores... Reconheceram-se, conversaram, fizeram um rápido contato e seguiram seu rumo, cada um à sua maneira: uns rebolam, outros trotam, alguns latem e outros simplesmente fazem silêncio e olham em volta achando tudo uma maravilha. É o caso de Nuno, que já desenvolve uma particular obsessão por folhas secas e pássaros. E adora o cheiro que vem dos canteiros e das padarias. Os cães são de uma simpatia desumana, de uma inteligência divina. A natureza foi sábia ao não dar a eles uma voz. Se fazem ouvir pelos gestos, estes muito mais valiosos que qualquer palavra.