23/11/2006
DOWN NO HIGH SOCIETY
A sociedade paulistana nunca esteve tão em voga. Festas, encontros, jantares, enfim, tudo aquilo que o Rio de Janeiro teve quando o termo socialite ainda fazia sentido e quando realmente havia bons motivos para receber amigos e convidados para um vis-a-vis. Geralmente, os encontros eram em torno de um escritor, de um artista plástico, um nobre de passagem pelo país ou um charmoso plebeu. E a discrição era tal que não bastava apenas ser amigo do amigo do convidado para aparecer de bicão. Era preciso ser alguém para estar na lista. Aliás, não havia sequer lista. Quem não pertencia, não ia. E pronto, sem maiores dramas ou desejos de vingança. Naqueles tempos não existia a figura da promoter ou dos assessoras de imprensa, ninguém tinha razões para se vender ou anunciar a intimidade em troca de duas fotos 3X4 em coluna social. As pessoas apareciam porque mereciam ser mostradas e não porque precisavam ser vistas a partir do critério da jornalista de meia revista.
Pelo que me dizem e pelo que sei (já trabalhei em coluna social e, por razões puramente trabalhistas, precisei freqüentar o métier por algum tempo), ser um jetsetter é, antes de tudo, ter atitude e ser diferente, inteligente o bastante para girar em qualquer roda de conversa e elegante o suficiente para saber o que vestir e, principalmente, quando vestir. Não me parece o caso. Quatrocentões acordam escondindos atrás de uma máscara de plástico, dormem sobre um vazio sem tamanho, sonham num eco sem fim, vivem da luz de um falso brilhante pendurado no pescoço e se alimentam de muita conversa fiada para sustentar senão a conta bancária, pelo menos o personagem que levam para a cama. E no dia-a-dia fazem tipo de boa gente, ora altruísta, às vezes egoísta e quase sempre vigarista.
Acho irresistível tirar um dia da semana para ver nos jornais e sites o que o ‘high society’ de São Paulo anda aprontando por aí. Hei de confessar que já não entendo mais nada: são heteros vestidos de gays, gays travestidos de heteros, decoradores e arquitetos sustentando casamento de fachada, presos a alicerces revestidos de plumas e paetês, pessoas sem profissão definida posando de empresários, colecionadores de xilogravura fazendo pose de curador, mulheres traídas à beira de um ataque de nervos, descontroladas fashion fantasiadas de tendência, habitantes do planeta hype vivendo dias de penúria sem perder a compostura. Peruas bronzeadas em tom de lombinho caramelizado, cabelos tão artificiais quanto fio de nylon, roupas que por mais caras que possam ser nelas aparentam ter custado um troco de supermercado. Personagens se repetem, não se reinventam, não dizem a que vieram. Nada de útil fazem, nem mesmo para suas próprias famílias. Nada de mais pensam, nem mesmo em causa própria.
Tô bem?