07/12/2006
AERO DINÂMICA

Nossos aeroportos tornaram-se rodoviárias. Culpa do Lula e de sua equipe – todos muito acostumados a andar de ônibus desde os tempos de calango com farinha no almoço. E quando o presidente gabiru ainda pensava que avião era disco voador, acompanhávamos da sala de embarque um Brasil voando para o alto e sempre avante. E a estrela brasileira no céu azul não era a decadente do PT, mas a reluzente da Varig. Foi-se o tempo que bastava apenas chegar no guichê, comprar a passagem e embarcar.

O Rio era tão perto de São Paulo que às vezes eu chegava em Ipanema antes dos meus amigos colocarem os pés nas areias de Maresias. Hoje é gente brotando dos ralos e carregando aquelas sacolas plásticas lotadas de cacarecos comprados em camelô e nos mercados de genéricos. O Brasil é uma grande loja de R$ 1,99 e nossos conterrâneos vestem-se como se estivessem saindo de uma aula de lambada. Pelo menos é o que eu vejo nos aeroportos, hoje o maior símbolo do país: falido, caótico, pobre, feio, defasado, atrasado, sujo e inoperante.

Ei, atenção: Varig, vôo 171 com destino a Manaus. E lá vai mais um bonde do terror.
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06/12/2006
RED CARPET E CALCINHA VERMELHA

Meu voto vai para Britney Spears. Na terra do nada pode, no país dos pastores tarados, eis que a cantora lésbica (pleonasmo) conseguiu aquilo que mais queria na vida: ser amiga de uma patricinha de Beverlly Hills. Ao lado de Paris Hilton, Britney é hoje tudo aquilo que Courtney Love um dia pensou ou quis ser.

Nada a favor da pessoa de Britney, acho tudo aquilo um engodo, mas sinceramente adoraria ter 25 anos de novo e ser bastante rico para poder fazer o que quiser: inclusive andar sem calcinha, caso me apetecesse. Agora diz que Britney e Paris estão namorando, ou melhor, “mantendo relações sexuais”. Viva Sapata! Também faria o mesmo se tivesse 25 anos, ou mais: chamaria a Lindsay Lohan para completar o ménage e faria um bondage com a Nicole Richie. E deixaria todo mundo ficar sabendo, faria a alegria dos fotógrafos paparazzi mortos de fome que passam a noite fazendo porta em boate da moda.

Também não daria entrevista só para manter um certo clima de mistério e dúvida no ar, afinal existe gente mais mal informada que jornalista de celebridade? Britney é a cara dos Estados Unidos: reprimida na infância e louca varrida na juventude. Hipócrita e contraditória, sexual e vulgar. Assim como eu, assim como você. Igual a todo mundo. Mas quem assume?

No Brasil, todas as famosas usam calcinha, são fiéis aos maridos, sonham com casamento, filhos e uma casa no campo com vista para a jacuzzi. Todas mostram a perereca na Playboy para comprar apartamento e o nu artístico entra no currículo, dá status e papel na próxima novela. Mas sem cachê, a perereca de fora dá até processo. Justiça seja feita: os famosos brasileiros não têm a menor graça, são caretas e moralistas. Não assumem a condição sexo-financeira e ainda posam de exemplo para a sociedade. Os famosos brasileiros são assim, como você.
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05/12/2006
MASSA FALIDA

Foi decretada a falência do hype. Empregos, casamentos, negócios, namoros, amizades e transações extracurriculares geridas pelo hype passam a não valer mais nada a partir de hoje. Caras, bocas, poses, convites e nomes na lista vip deixam de ser moeda corrente e perdem valor agregado.

Entra em vigor a política da individualidade com todos os direitos reservados, a invasão de privacidade perde o sentido e qualquer semelhança entre realidade e ficção não passará de mera coincidência.

As pererecas das famosas operam em baixa na bolsa de valores, mas o investidor estrangeiro continua a aplicar suas ações no mercado futuro nas praias do Nordeste – ainda assim Salvador, Recife e Fortaleza fecharam em baixa na noite de ontem. Todos a venda, todos a postos, a especulação vai começar. Quanto você vale? Quem der mais leva ou quem comer primeiro ganha?

Quatrocentões à beira do abismo, socialites à margem do autismo, gays e lésbicas afundados em idéias reacionárias e negros perseguidos pelos próprios conceitos. O mundo é brega, a Inês é morta e o fim é certo. E agora, querida?

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04/12/2006
CHIC NO ÚLTIMO

Nunca entendi o real sentido dado ao termo ‘chic’. Afinal, o que é ser chic? Quem é chic? Alguém pode se auto-denominar chic ou somente um outro alguém pode designar alguém com tal adjetivo? Quais as qualidades atribuídas ao indivíduo chic?

Vamos lá: uma pessoa bem vestida é necessariamente chic? Vestir preto é pré-requisito para ser chic? Aparecer em coluna social é chic ou apenas os chics aparecem em coluna social? Coluna social é chic? Ser colunista social ainda é chic?

Aparentemente, o chic se extrai a olho nu, mas cada vez mais entendo que o chic está onde menos se imagina, ou, quem sabe, quando menos esperamos. O chic vem de dentro, mas não sai da boca pra fora; o chic é naturalmente exposto através de pequenos gestos que se tornam grandiosos pela ausência de propósito. Como receber visitas num domingo distante no Ipiranga, como ser presenteado com uma bela fantasia sem que haja alguma razão social intrínseca para justificar o ato. Assim, fora de contexto e dentro de um certo pretexto, ações que não dependem de reações. Naturalmente gratuito, verdadeiramente sincero.

O chic habita o inesperado, o chic é se deixar ver nos olhos para que todos possam enxergar seu encantamento com o novo, ainda que o novo seja velho para alguns – como uma viagem para Nova York. E ontem, ali sentado, alheio ao frenesi da noite anterior, vi, com certo deslumbramento, que ainda há gente disposta a se encantar com o inevitável. Chics são eles.

Alguém viu um anão vestindo uma jaqueta Prada?
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01/12/2006
FICÇÃO BASEADA EM MUITOS FATOS REAIS:

Marisinha Rebelo sequer fora convidada para a noite de gala chez Joaninha Elisy. Ontem, resgatou da agenda telefônica o número de uma ex-amiga que talvez pudesse levá-la ao esperado placement de Natal, encontro já tradicional entre as madamas paulistanas. A senhorita Rubi, amicérrima de Joaninha, atende a chamada de Marisinha, mas logo trata de encerrar a conversa via celular. Estava no trânsito, a caminho da floricultura, e sabia exatamente as razões que fizeram a ex-companheira de tranca ligar para ela.

- Marisinha é social butterfly. Nasceu longe, sabe Deus aonde, mas chegou perto do jet set, sabe Deus como, diz Rubi, às gargalhadas, ao comentar com a amiga Florinha Olviedo o telefonema oportunista da dublê de bon chic.

- Se não fosse a falta de assunto, Marisinha estaria hoje, quem sabe, na lista de Joaninha. Com direito a um acompanhante até, reflete Florinha, inimiga mortal de Marisinha (N.E: Marisinha está casada atualmente com o terceiro marido de Florinha).

‘Par contre’, Marisinha recebeu, com alegria íntima, o convite para comparecer a outra festa levemente disputada na cidade. Quem recebe é Vina Veritas, figura carimbada e já repetida no eixo. Vininha faz o tipo cosmo girl, mas já não tem idade para saias curtas e cabelos longos. Recém-aloirada dois tons acima, mentindo a idade dois anos para baixo, Vininha está neste momento na sala de espera da clínica badalada do cirurgião plástico e esteticista Fortunato Medonha, o mesmo que transformou Marisinha em sósia de Danuza Leão. Chega a hora de Vininha.

- Doutor, só não me faz aquele implante de cabelos igual ao de Marisinha.
- Mas eu não tenho nada a ver com aquilo. Marisinha já chegou ao meu consultório com aquela franja.
- Ela me disse que o senhor havia colocado.
- E você acha que eu trabalho com tufos crespos?

Fim da consulta, Vininha deixa o consultório. Ansiosa, batendo o salto no piso de mármore – de Carrara – mal espera abrir a porta do elevador e liga imediatamente para Rubi.

- Sweet, sabe que Marisinha jamais implantou aquela franja com o Doutor Medonha...
- Bem que eu desconfiei. Lembro da festa de Izildinha Babaçu Pereira de Passos Couto Peçanha de Amoedo. Estávamos na pista de dança, um calor subsaariano, e a franja de Marisinha começou a encrespar de modo que eu sei, por experiência própria, que os apliques do Medonha jamais vencem. Honey, cancele o convite feito a Marisinha.
- Só por causa disso?
- E precisa de mais?

Sexta-feira, sete e meia da manhã. O celular de Marisinha toca ao lado do criado-mudo em pátina.

- Alô, querida. Sou eu, Vina.
- Oi Vininha, isso são horas de ligar?
- É que bateu um telefone sem fio e tout São Paulo já sabe que sua franja é uma farsa. Tive que cortá-la da minha lista.
- Escuta aqui, querida, será que tout São Paulo vai à sua festa depois de saber que seu Valentino, na verdade, um Arthur Caliman?
- Marisinha, amore, venha sim e traga quantas pessoas você quiser.
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30/11/2006
VERY IMPORTANT PEOPLE

Ontem eu participei de um evento, hum, vip. Foi o lançamento do livro de uma amiga, do mundo da moda – porém amiga. A noite estava recheada de vips, pessoas consideradas muito importantes por elas mesmas. A fila para comprar o livro era grande e para o autógrafo maior ainda. Na condição de não-vip, não dei importância à minha falta de importância e posicionei-me na fila juntamente com outros menos importantes que eu, entre eles uma ex-modelo com cara de ex-modelo e uma ex-estilista com cara de confeiteira. O calor lá dentro e a chuva lá fora me fizeram sentir numa noite em Bangladesh, aliás São Paulo tem tido dias monçônicos.

Ao invés de diminuir, a fila só aumentava. E por quê? Ora, alguns vips se deram ao direito de entrar na frente e cumprimentar a autora, ignorando a fila indiana que se formava no local. No Brasil, até o conceito de vip é invertido e controverso. Que direito tem a estilista de bordado de passar por todos para ganhar seu autógrafo? O que faz o produtor de suplemento semanal se achar na razão de furar a fila e deixar nós, pobres vips de nós mesmos, ainda mais a espera do, como dizer?, grande momento?

Acho que a partir de agora, agências bancárias, assentos de ônibus, metrô e caixas de supermercado devem reservar um espaço não só para idosos, gestantes e deficientes físicos mas também para vips – ou deficientes sociais, neste caso. E para se considerar vip, basta acreditar piamente que você é muito melhor que o outro, sem distinção de cor de cabelo, raça, opção gastro-sexual e pia crença na auto-confiança.

Foram 40 minutos de paciência e muita respiração cachorrinho, mantras e pensamentos positivos focados na busca do meu próprio eu na fuga daquele universo paralelo e incongruente. Até que minha hora chegou. Saí do recinto, tracei uma reta e voltei para meu esperado anonimato. Livro na mão e a certeza de que vip mesmo é aquele que sabe esperar a sua vez. Sem tirar proveito da condição de desimportante incondicional. E que nunca me entendam mal e passem a entender que mereço um tratamento diferenciado em noites indiferentes.
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29/11/2006
HE MAN

Teorias infundadas a respeito do universo masculino:

- Quanto maior é o carro, menor é o pênis;
- A quantidade de brigas armadas na rua é inversamente proporcional a qualidade do sexo feito em casa;
- Quem come quieto não come ninguém;
- Quem fala muito de mulher é porque não sabe nem onde fica o clitóris;
- Homem se faz de difícil quando a mulher é impossível;
- Mulher se faz de fácil quando um homem é a última opção;
- Todo homem tem um lado feminino extremamente gay;
- Toda lésbica é um homem em estado ativo;
- Todo homem é uma lésbica em potencial;
- Todo homem é passivo quando a conta corrente é inativa.
- O homem das cavernas atualmente mora em flats;
- Todo metrossexual é um gay enrustido;
- Todo gay enrustido é homossexual;
- Os gays são os melhores amigos dos homens;
- Todo homem impotente deseja levar duas mulheres para a cama;
- As lésbicas jamais desejam levar um homem para a cama;
- Macho que é macho joga futebol e não fala de futebol;
- Bissexualidade é como mediunidade: todos têm, mas só alguns desenvolvem.

Sou macho pra caramba.
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28/11/2006
CLIPPING

Notícias de terça-feira que mudarão para sempre a vida dos brasileiros.

- O ator Sergio Marone perdeu a virgindade com uma prostitua;
- O baixinho da Kaiser, José Valien Royo, foi sondado pela revista G Magazine para posar nu;
- Brad Pitt foi visto em um mercado indiano comprando uma versão orgânica do Viagra;
- Zilu tirou o domingo para fazer compras de Natal no Shopping Iguatemi...
... E Zélia Duncan foi ao cinema no sábado;
- Colunista Heloisa Tolipan (?) fica passada com o calendário de bofiscândalos da Key 4 (?);
- Jorge Fernado dá selinho em Walcyr Carrasco;
- Marcia Goldschimmit faz tratamento de clareamento de gengivas para entrar em forma (?);
- Tom Cruise usou cinta em seu casamento;
- Lagostim macho se finge de fêmea para ser comido;
- Ex-marido afirma que Britney Spears é bissexual;
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27/11/2006
FOI UM RIO QUE PASSOU EM MINHA VIDA

Pesquisadores têm analisado rios do mundo em busca de traços de consumo de cocaína. O resultado indica que os novaiorquinos são os maiores consumidores da droga. E como os peritos descobrem o quão grande é o uso de coca numa cidade através da água? Dizem os livros que o corpo de um usuário produz uma substância chamada benzoilecgonina encontrada no esgoto em estado ativo por tempo indeterminado. A partir daí, químicos fazem medições com amostras recolhidas nos dejetos das cidades e chegam a importantes conclusões como essa. De acordo com as estimativas, 95 mil pessoas em Nova York dão um teco todos os dias.

Tenho medo que esses farejadores cheguem um dia por aqui e descubram, através das águas do Tietê, que o paulistano, além de cheirar em demasia, faz um cocô muito do fedorento. Se bem que acho impossível algum pesquisador conseguir se aproximar do rio para fazer a coleta. Seria praticamente um exame de fezes coletivo, é titica de mais de 10 milhões de criaturas desarranjadas. Imagina entrar em contato, mesmo que in vitro, com os resíduos dos clubbers, fashionistas e publicitários que bóiam pelos restaurantes, bares e boates dos Jardins? Quer droga mais pesada que essa?

Isso não tá me cheirando nada bem.
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24/11/2006
LIBERDADE DE EXPRESSÃO

Acalento um sonho de receber, quem sabe um dia, um prêmio qualquer de jornalismo – algo como o melhor texto do ano ou a reportagem mais incrível do momento. Mas me sentiria igualmente feliz se fosse escolhido o funcionário do mês do meu emprego (quando morei em Londres, fui eleito o segundo melhor profissional do restaurante onde trabalhava. A disputa era acirradíssima: além de mim, havia outros dois garçons no páreo, isto é, todo o staff do estabelecimento.

Enfim, pelo que escrevo, pelo andar da carruagem e pelo que me proponho a ser, acredito que vencer um concurso esteja tão próximo da minha realidade quanto ganhar na megasena. Deixa estar, vai passar. Por falta de perspectiva e por excesso de concorrência, SuperEgo lança agora o concurso 'A Pior Matéria do Século'. O vencedor ganha um ano de assinatura grátis da revista de Joyce Pascowitch e dois ingressos para assistir a qualquer peça de teatro dirigida por Bia Lessa.

A primeira etapa começa hoje, com uma concorrente de peso e dificílimo de ser superada: a matéria foi publicada na revista Joyce com o título 'Neobiruta'. E o que é neobiruta? De acordo com o texto (merece ser lido com atenção, vá até a manicure mais próxima e dê uma folheada na revista. Obs: não compre, pois o ato pode levar a publicação a atingir a marca de 8 exemplares vendidos), o termo neobiruta se aplica a meninas – vamos lá – antenadas, descoladas, criativas, rebeldes, diferentes, enfim, modernas. Vestem-se como querem, falam o que pensam (?), trabalham no que gostam e namoram muito.

Elas são decididas, determinadas, fortes, arrojadas e... birutas. O elenco é primoroso, acredito que duas ou três que ali aparecem sequer sabiam do que se tratava ao aceitar a proposta (caso contrário, jamais pagariam esse mico) e as outras caíram no conto do hype por falta de estrutura emocional. As neobirutas estão com tudo e não querem ser apenas um rostinho exótico na cena paulistana. As neobirutas podem estar ligando para seu celular neste momento. Cuidado com elas.

Então vamos lá? Que vença o pior. Escolha você também os textos mais sofríveis do século. Pode ser um de minha autoria, tenho senso crítico. Aguardem os resultados.

Dicas para consulta:

Revista Caras
Veja São Paulo
Revista da Folha
Revista de Domingo do Jornal do Brasil
Jornal do Brasil como um todo
Revista Quem
Caderno Ela do jornal O Globo
Site Erika Palomino
Revista da Joyce

P.S: Releases de assessoria de imprensa entram no concurso como hors-concours.

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www.ego.com.br Todos os dias, em caráter excepcional, críticas construtivas e crônicas destrutivas do mundo moderno na visão de Hermés Galvão, um jornalista antiquado.
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