16/02/2007
CONTOS DE AREIA
Minha primeira vez numa quadra de escola de samba foi aos 11 anos. Fui levado por Martinha, nossa empregada (assistente do lar, segundo minha mãe), passista da Portela e péssima cozinheira. Mas isso não era motivo para impedi-la de trabalhar em minha casa. Martinha era cabrocha de ancas largas e dona de um rebolado que parava Madureira – pelo menos em sua opinião. Já não me lembrava dessa história, nem da quadra e tampouco de Martinha.
Tanto tempo sem rasgar a fantasia, longe de todos e longe de mim. O Carnaval havia perdido o sentido – muito mais pela minha falta de direção do que pelo rumo que a festa tomou. Certo de que morar em São Paulo, onde a única marchinha que se ouve nesta época é a fúnebre, ajuda a matar qualquer espírito carnavalesco. Na cidade dos contratos prósperos e das relações falidas nada faz lembrar que é Carnaval.
Hoje, ao raiar da sexta-feira, quando o dia prometia acordar como sempre, eis que fui tomado por uma alegria momesca tipicamente carioca, a minha, a mesma sensação daqueles anos de Suvaco de Cristo e Portela. E sob o sol do verão paulistano, descendo uma rua qualquer sem um enfeite pendurado entre postes, na cadência do surdo, passei a lembrar-me de antigos sambas, velhos amigos e outros carnavais.
Como o de 81, quando me perdi em plena Praça Onze, ou aquele de 85, da Mocidade, escola da minha avó, que se encantou com as baianas vestidas de astronautas rodando e cantando Ziriguidum 2001. E do ano seguinte, na passarela, sendo acordado pelo meu pai para ver a águia da Portela entrando na Sapucaí. O de 88, da Vila Isabel, e o de 92, da Estácio. Ao cruzar a rua cheguei à redação e, antes de vestir a máscara de homem sério, descobri que é Carnaval dentro de mim.
Bom feriado para todos.
Tem cheiro de mato, é terra molhada, é Clara guerreira, lá vem trovoada...