26/02/2007
GREEN CARPET
O Oscar é gay, negro e verde. Nesta ordem. Assim como a Revista Veja, a Academia é a última a abordar assuntos pertinentes – ou a tratá-los com devida importância. Logo agora que ninguém mais acha graça premiar um ator negro, dar ouvidos a uma lésbica ou comprar bottom do Greenpeace, lá vem eles bancando os modernos engajados na luta por um mundo melhor, ou pelo menos mais arborizado.
Levando em conta que as celebridades democratas residentes em Beverly Hills gastam 200 litros de água por dia para regar o jardim, acarpetar a grama e lavar os carros, ou ainda encher o tanque duas vezes por semana para rodar Los Angeles de ponta a ponta, não vejo muita razão para acreditar nessa onda green que tomou conta de Hollywood por uma noite. Talvez seja mais uma tendência passageira, assim como os documentários de Michael Moore. Não desce, não engana.
Tudo na premiação correu tão nonsense quanto o encontro de Al Gore e Leonardo DiCaprio no palco que, como sempre, parecia um cenário do Topa Tudo Por Dinheiro. Discursos e estatuetas à parte, (no fim das contas os vestidos das atrizes é o que vale a noite), fica a pergunta: o que Celine Dion estava fazendo ali? Não seria o caso de mantê-la trancafiada no lavabo do Ceasar Palace de Las Vegas? Mas agora o Oscar é ecologicamente correto, pois não? E na onda verde, Celine Dion leva o prêmio como a mais mal vestida do cinema mundial. A voz de Celine é uma poluição sonora, um crime ambiental. Que o diga Ennio Morricone, um dos maiores compositores do cinema e que antes de receber o Oscar Honorário precisou engolir cinco minutos de barulho, muito por nada. Como sempre.
Na ressaca do Oscar, vem a especulação para o movimento engajado do ano que vem. Talvez contra a anorexia nervosa seguida de festa, vai saber, ou pela proteção das baleias mancas do Ártico. Contra a política externa no Iraque, no way, já que no fim todo americano tem ¾ de sangue republicano nas veias. O outro quarto é de origem hispânica e está mais preocupado no futuro da culinária tex mex e na política de cotas para ingresso de estudantes porto-riquenhos na FIT.
Hollywood ainda vende sonhos, e nós nos enganamos o tempo todo mesmo. Ou você realmente achou que Eddie Murphy fosse ganhar um prêmio por fazer um negro drogado? Ou uma coisa, ou outra. As duas, ao mesmo tempo, ainda é muito forte para os padrões da Academia.
Celine Dion e seu traje samambaia