27/03/2007
CORPO A CORPO
Dois homens se esbarram no vestiário da academia. São colegas de malhação, encontram-se diariamente no mesmo horário e têm, entre outras coisas em comum, o mesmo corpo em forma de pêra. Para má sorte de suas mulheres, são casados e pelo jeito da prosa, de sempre, fazem o tipo do marido que nunca dá conta do recado. Apesar das proporções modestas, pensam ser o melhor partido do mercado.
Não são muito diferentes dos outros, aliás, são iguais a todos eles, aqueles que trabalham de segunda a sexta e falam de futebol de domingo a domingo. Campeonatos, placares, craques de outrora, jogos do futuro e, quem sabe, algum presente especial para a patroa a fim de suprir a falta que fazem dentro de casa, sobre a cama.
Ancelmo e Murilo também falam de mulheres, como se todas olhassem para eles e, principalmente, como se cada uma delas os desejassem selvagemente. Não é o caso, nunca foi. Ambos contraíram matrimônio no quarto ano da faculdade de administração de empresas, nunca fizeram sucesso entre o público feminino – talvez pela baixa estatura e alta tendência para engordar.
Todos os dois financiaram a casa própria e agora vivem às turras com a quitação das parcelas do Corsa zero sem opcionais de fábrica. Ancelmo tem dois filhos, um casal. Murilo tem três, sendo um gerado fora de hora porém muito bem-vindo quando nasceu a cara do pai. Junior é o orgulho da família, aos cinco anos já responde à tia da escola, mostra o pinto para as amiguinhas de classe e diz que quer ser engenheiro quando crescer. Igualzinho ao pai quando aluno do Educandário Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.
Ancelmo está próximo dos 50, mas pensa que crise de idade é papo de bicha. Vive a flor dos 40 e tantos, ainda acredita na chegada de uma vizinha gostosa que o tire da rotina. Desde que se mudou para o dois quartos em Moema mora porta a porta com Dona Myrtis, viúva aposentada do Banco do Brasil e confeiteira de mão cheia. Aos sábados, Myrtis toca a campanhia de Ancelmo a fim de oferecer sua torta floresta negra, famosíssima entre os moradores do edifício Mansão de Racine. Murilo e Ancelmo fazem sauna às segundas e quartas, quando trocam impressões do fim de semana e colocam o papo em dia.
- Muita mulher nessa academia, hein Ancelmo?
- Pô, fico louco. Até esqueço o canhão que tenho em casa.
- É, elas quando viram mãe esquecem que têm marido.
- Eu tiro até a aliança quando venho pra cá.
- Mas elas gostam de homem casado.
- Querem um papai pra dar colo, é ou não é?
- Ô se querem, tô com duas na manga esperando pra ninar.
- Mulher tá fácil demais mesmo.
- O lance é se fazer de difícil e deixar elas correndo atrás.
- Nem precisa cara, é tudo facinha.
- Na quarta eu chamei uma daqui pra jantar, aquela boazuda da aula de spinning.
- Comeu?
- Nem, não dava pra fazer jornada dupla. A patroa fica na patrulha.
- A minha também faz, por isso marco minhas transas de manhã.
- Ótima idéia, vou chamar a Dani pra almoçar amanhã.
- Boa sobremesa, meu.
- He, he, tá certo. Vou sair, essa sauna tá fedendo a macho.
- E o Rivelino, hein?
- Você viu? Aquilo sim era futebol.
- Pois é, nem me fala. E agora aquele Roger dando bola fora.
- Sempre desfalcando o Timão. Muito mocinha.
- Namorava aquela potranca da Galisteu.
- E levou um fora, esse cara tem que ir pra reserva.
- Só.
- Abraço Murilo.
- Até quarta, Ancelmo.