16/04/2007
JOGO DA VIDA
Dona Carmem, digo, Carminha, encontrou no bingo a melhor companhia desde que o marido se foi. Ele, um idôneo funcionário do Banco do Brasil, falecido em 1996 de alguma insuficiência não revelada – a viúva prefere não entrar em detalhes. Se perguntada, diz que Feliciano morreu porque Deus quis assim, e que já era hora. Carminha viveu o luto de modo exemplar, mas há dois anos resolveu que já era hora de dar uma chance a si mesma. Descobriu na jogatina uma nova razão para levantar-se e tirar do armário alguns dos trajes que costumava usar quando parceira de Feliciano no baile de domingo do Clube Militar.
Todo sábado, ao cair da tarde, Carminha sentava-se frente a penteadeira e começava, então, seu mis-en-plis. Pó de arroz, batom cereja de Max Factor e duas rajadas de laquê na franja depois de tirar devidamente cada um dos bobes que fariam seus cabelos menos lisos e ralos. Um conjunto de linho muito bem passado a ferro, por ela mesma (nunca confiou em empregadas, fazia o serviço doméstico sozinha e jamais permitiu que alguma faxineira de ocasião entrasse em seu quarto), e sapatos de salto baixo que a permitissem andar até o Bingo Jardins, coisa de duas quadras e meia de seu apartamento, único bem deixado pelo finado marido.
E não era pouca coisa, Carminha dizia que um imóvel nos Jardins é um patrimônio de valor inestimável. Sua filha, advogada, já tentara vender o apartamento. – É grande demais para a senhora, repetia. Com o dinheiro deste, compramos um menorzinho no prédio em frente. Mas Carminha, lúcida e ciente da filha que criou, recusou quaisquer ofertas e jurou de pés juntos que só sairia dali para o cemitério. E pelo passar dos anos, a certeza da morte era uma idéia distante.
No auge de seus 70 e poucos, conheceu Abigail na mesa do bingo. Desde julho passam noites combinadas no fim de semana a apostar parte da pensão que recebem em cartelas numeradas. Abigail, esta sim uma mulher a frente de seu tempo, orgulha-se em dizer que é desquitada desde os anos 50. Seu marido morreu há mais de 20, porém Abi diz que seu estado civil é outro. – Se disser que é viúva, Carminha, só plano de saúde liga pra sua casa. Tem que dizer que é separada, assim ninguém fica achando que você é sozinha no mundo. E ninguém no mundo é mais sozinha que Abi.
Mas ela sabe a diferença entre solitude e solidão. E cada caso se aplica a uma delas, pois Carmem, com filha única e três netos, é das mais solitárias senhoras do bairro. Já Abigail, sem filhos e sem apartamento próprio, se basta em sua própria existência no conjugado com vista para o viaduto.
- Que invejinha de você, Abi.
- Querida, tem que parar de achar que a sua felicidade depende da companhia de alguém.
- Mas os meus netos podiam me visitar de vez em quando. Moram tão perto...
- Vá você visitá-los, Carminha.
- Mas eu chego lá e eles nem dão bola pra mim.
- Normal. Você também não ligava pra sua avó.
- Mas eu era obrigada a visitá-la todos os domingos.
- Taí a maravilha dessa geração, Carminha. Ninguém é obrigado a nada.
- Acho uma falta de educação, isso sim.
- Se eles te visitarem é porque querem te ver. É sincero.
- Faz dois anos que eles não aparecem lá em casa para comer meus bolinhos de chuva.
- Então ligue oferecendo outra coisa. Uma quiche, sei lá.
- Você acha que o problema é o bolinho?
- Não, o problema é a rotina.
- E o que os bolinhos de chuva têm a ver com isso?
- Nada, mas experimente preparar uma quiche.
- Quiche no meu tempo era empadão.
- Leva menos massa, Carminha. É mais ‘laite’.
- Abi, pega um refrigerante pra gente.
- Soda?
- Não, água tônica. Com duas gotinhas de Tanqueray.
- Vamos comprar outra cartela, então.
- Tô sentindo que agora vai. O bolão é de 40 mil.
- Então compramos duas cartelas. E dobramos a dose de gin.
- Uma rodela de limão para mim.
- Volto já. Você tem trocado?
- Não. Você sabe que eu nunca ando com dinheiro pequeno.
- Ai, Carminha, você é tão previsível.
- Aonde eu encontro receita de quiche?
- Te mando amanhã.
Na segunda-feira seguinte, Dona Carmem preparou sua primeira quiche. E convidou a família para experimentá-la. Passou aquele mês à espera da visita que jamais apareceu. E provou, sozinha, a mais nova maravilha que aprendera na cozinha. Ontem, no ato da venda do imóvel dos Jardins, seus netos entraram pela última vez no apartamento. No ar ainda havia um cheiro de bolinhos de chuva.