04/05/2007
DOWN, DOWN, DOWN NO HIGH SOCIETY

Nunca tive a pretensão, tampouco a vocação e muito menos a tradição para ser considerado – ou me considerar – um socialite. Prefiro me achar parte de uma nova frente, batizada por mim mesmo de light society. Ou o anti-social que só sai socialmente semana sim, mês não. Tenho pavor de gente superexposta, festas de arromba (todas encerram o bar, por falta de oferta, antes das 3 AM), pessoas que seguram taça de espumante de R$ 19,90 como se estivessem degustando um Krug e eventos fotografáveis em geral.

E não acredito que estar na hora certa no lugar certo é a chave para o sucesso – até porque, em São Paulo, os lugares são sempre errados e nunca chegamos na hora em lugar nenhum. E quando se chega é aquela beleza: fila para manobrista, empurra-empurra pra tentar uma garrafa de Baby Chandon (Brasil) e luz incandescente na cara vindo de algum camera man que tem corpo e idade para ser o seu pedreiro. Ops, é flash! Amaury Junior chegando. O que fazer? Keep it Coming Love, babe. Escondo a cara, peço um copo d’água e ligo meu rastreador social.

Observo tudo, na minha, rindo para dentro e sorrindo da boca pra fora. Socialmente falando, me considero uma pessoa falsa. Igual a todo mundo que se espreme para aparecer na foto ou não desaparecer da lista, humm, vip de uma promoter que engravidou por engano mas que hoje ta ótima de vida. Ou você realmente acredita na sinceridade de alguém que começa a frase com ‘querida’ ou ‘fofa’? Isso sem falar nos comentários mentirosos do tipo “nossa, como você emagraceu!” ou “adorei seu look hoje”. E tem também aqueles pensamentos íntimos que deixam de ser individuais depois da terceira dose de qualquer coisa alcoólica que estejam servindo:

- Mas o marido dela não tava preso?
- Que cabelo é aquele?
- Aquela Gucci é falsificada.
- Ninguém vê que aquele cara é a maior bichona?
- Quanta gente cafona, meu Deus, causando trânsito na cidade para aparecer numa inauguração de loja de esfoliantes.

É por isso que eu corro. RSVP pra mim é caixa de entrada.
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03/05/2007
GATAS DE BOTAS

Não se fazem mais mulheres à frente de seu tempo como antigamente. Aliás, o termo caiu em desuso desde o sumiço da última feminista lésbica do planeta. E por onde anda Camille Paglia? Enfim, foi-se o tempo em que mulheres estavam à frente de seu tempo. Hoje, quando muito, estão sempre atrás de alguma coisa: conselho, homem e o pior: tendência.

Gostaria de saber quem foi a criatura que inventou esta insólita moda de enfiar a calça para dentro das botas. Não existe uma mulher em São Paulo que não tenha no armário essa dupla explosiva que promete bombardear as ruas da cidade neste inverno que, para desespero delas, ainda não veio. E bastou fazer um, eu disse um, dia de frio médio para que todas tirassem das caixas suas botas de cano alto e suas jeans de sete lavagens que valorizam os culotes proeminentes.

E ontem, na despedida da frente fria que estacionou nos Jardins por uma noite, voltamos aos tradicionais 31º C e nenhuma paquita se propôs a guardar o modelito. Tal tendência é forte, diria implacável, e por isso torço para que outra corrente de ar venha da Argentina para que madames e domésticas possam fazer bom uso de suas pièces-de-resistence da temporada. Até no mundo da moda a democracia é um horror.

Eu tenho esse look, mas é tudo vintage. Inclusive eu.
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02/05/2007
MIL E UMA INUTILIDADES

Tem coisas na vida que não servem para nada. Ginástica rítmica é uma delas. Não entendo a existência do esporte – aliás, não sei se devemos considerá-la como tal. Joga bastão, pega fitinha, passinho pra frente, perninha pra trás... E o que dizer do esperanto? A língua internacional falada por ninguém? Apesar de não ter a menor importância, ainda há cursos intensivos que prometem fluência em apenas 10 aulas usando um tal método alemão de ensino. Melhor não saber quais técnicas utilizadas nesta aprendizagem. Enfim, o que não falta no mundo é coisa inútil para se fazer. Algumas podem até divertir, mas os interessados sempre levam tudo tão a sério. Vai daí que a lista de produtos e pessoas perecíveis e dispensáveis nunca para de crescer. Ainda bem. SuperEgo faz, de bate pronto, uma listinha de coisas que não servem pra nada. A ver:

. Workshop
. Boccia
. AB Tronic
. Crítica de filme
. Abridor de CD
. Massagem espiritual
. Refrigerante pra cachorro
. Goiânia
. Atores de Malhação
. Feng Shui
. Passarinho na gaiola
. Máquina de secar mãos
. Personal stylist
. Artesanato
. Prêmio de consolação
. Mini-golfe
. MBA
. Romero Brito
. Teatro experimental
.Guianas
. Sutiã com alça de silicone
. Pager
. Espírito Santo
. Autógrafo
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27/04/2007
PSIQUÊ

Vivo uma estranha obsessão de querer saber quem eu gostaria de ser caso eu fosse eu mesmo. Será que sou aquilo que penso ser ou aquilo que pensam que sou? Eu sou eu ou eu estou eu? Não tenho a mais vaga idéia do que seria de mim se no mundo só houvesse apenas eu e mais ninguém. Ninguém e alguém são pessoas diferentes? Um outro alguém está mais próximo de mim do que ninguém? Quem é mais sozinho? E de repente fico tão a sós comigo mesmo que realizo intimamente a minha independência tamanha loucura que é ser e estar ao mesmo tempo.

Tenho alguns momentos de prazer individual e gosto de compartilhá-los. Sinto uma enorme preguiça de gente, tenho enjôo de aglomerações. Mas pessoas me fascinam tão rapidamente que volto atrás, mudo de idéia e passo a entendê-las melhor para poder amá-las novamente. E assim deixar com que cada um seja o que pensa que é ou o que eu penso ser elas. Dá quase no mesmo, fico satisfeito em acreditar na mesma coisa que pensam de mim e de outros. Não me fazer entender é a minha maneira de manter a privacidade intocada.

E quem descobrir o que penso ganha a chance de tirar-me da quietude e chegar cada vez mais perto de mim. Às vezes fico em silêncio, posso parecer distante. Mas é quando penso nas palavras que não precisam ser ditas. É quando observo tudo de um modo tão egoísta que só mesmo eu para decifrar os códigos estipulados por alguém que eu penso ser eu. Mas e se não for? Ei, o que você gostaria de ser caso você fosse você mesmo?
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26/04/2007
ORA PRO NOBIS

Que venha o Papa. As socialites católicas de São Paulo já estão devidamente credenciadas para a área vip que será montada no Campo de Marte para o ‘showmício’ de Bento XVI, o pontífice mais fashion que já passou Vaticano. A apresentação de Joseph Ratzinger, o Menghele II, será uma espécie de missa de Padre Marcelo Rossi, só que sem chuva de água benta nem Gugu Liberato pulando no palco maquiado de querubim.

Enfim, será um evento tão pop, mas tão pop, que vai precisar de um cercadinho para dividir os fiéis em duas partes distintas: ricos e pobres. Os pobres ficam láááá atrás mesmo, sentados em suas cadeiras de praia, e ouvindo a homilia pelos alto-falantes como se estivessem no show de Bruno e Marrone.

Não sei se os ecos de boas novas de Bento XVI chegarão até eles, os necessitados. Desconfio que o som não irá reverberar muito além da barreira de laquê das madames de sacristia que será erguida a poucos metros de sua batina brocada e rebordada com fios de ouro.

As peruas já estão a se preparar para a ocasião e prometem arrasar em seus looks e penteados barrocos. De suas mansões em estilo rococó, avisam que estão em fase de purificação espiritual para comungar em comum acordo no dia do grande encontro. Hóstia para a área vip. E para o pessoal dos fundos, biscoito de maizena.

Eu? Imagina! Vou super simplezinha.
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25/04/2007
LEITURA DE CABECEIRA

Mais que desinformados, os leitores brasileiros parecem atrasados mentais. Retardados literários, em português claro. Hoje, chegou em minhas mãos alguns trechos do primeiro livro de Mayra Dias Gomes – filha vocês sabem de quem.

Trata-se de uma autobiografia que fala da vida de uma adolescente regada a sexo e drogas. Tipo Christiane F. em versão reloaded, só que menos emocionante, sem heroína na veia e com um cenário mais pobrezinho, o Rio de Janeiro. Passagens de “Fugalaça” estão disponíveis na Internet e abertas a comentários dos navegantes.

E todos, passados mais de 30 anos das primeiras publicações populares sobre consumo de drogas, continuam chocados com a rotina de um usuário, tão careta quanto desinteressante. Não sei qual é a graça em ler sobre a vida de um drogado, mas desconfio que a rotina de um leitor brasileiro seja tão monótona que é preciso doses de realismo fantástico para, ao menos, excitá-lo da forma mais mórbida em passagens de masturbação mental como as memórias de uma garota desocupada de 19 anos.

Antes uma boa ficção a passagens de uma franca decadência que não deveria interessar a ninguém. Mayra Dias Gomes, Bruna Surfistinha, Lolita Pille, Françoise Segan... Se todas tivessem um namoradinho na época o curso da história seria diferente. E sua filha talvez se interessasse por outros gêneros literários. Talvez sim. Talvez não. Mas que Christiane F. é um ótimo livro, lá isso é.
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24/04/2007
PRINCESA

Passado meu inferno astral, voltou a hora de infernizar a vida alheia. E a escolhida de hoje é... Debby Lagranha, nossa já tradicional vítima que foi vista por 0.5 pontos de Ibope na última sexta-feira no programa de Luciana Gimenez falando sobre sua careira. Pena não ter assistido no dia, mas meus colegas do curso de leitura dinâmica gravaram em VHS e eis que ontem, na calada da noite, tive a oportunidade de rodar o VT no conforto de meu lar e assim ouvir tudo o que a ex-revelação mirim de Renato Aragão tinha a dizer.

Debby não tinha muito que falar, é verdade – mas quem tem algo a dizer não vai parar no programa da Luciana Gimenez, não é? –, mas apresentou um novo corte e penteado de cabelo, o que me agradou imensamente. O estilo do corte é mais conhecido por ‘pequenino cão’. Trata-se de um picumã fio reto (sabe Deus quantos litros de etanol foram usados para domar aquela estopa) com leve inclinação para a assimetria de franja e um discretíssimo picotado na parte de trás. Deu para visualizar? Não? Então lembrem de Simone no clipe ‘Então é Natal’. É mais ou menos por aí.

Depois de tirar o foco dos cabelos, passei a prestar a maior atenção na história de vida e obra de Debby, que tem 15 anos. E descobri que seu contrato com a Globo havia terminado. E que não rolou a renovação. Ou seja, Debby está sem trabalho. É o primeiro caso de desemprego infantil assistido da televisão brasileira e Debby, nas entrelinhas, foi ao ar pedir para não cair no esquecimento. Se depender de mim, Debby será sempre lembrada, dos áureos tempos dos cachinhos dourados aos crespos dias de hoje.

Por isso, e apenas por isso, acabo de me cadastrar no fã clube oficial de Debby, o “Debby É Nossa Luz”. Isto é para vocês, fanáticos pela pessoa de Debby, que vivem ameaçando de tapa este pobre colunista, saberem que também torço pelo seu futuro, só que do meu jeito. A propósito, por onde andam suas melhores amigas nesta hora tão difícil? Será que Sasha, que tem 8 anos, é do tipo que só fica perto de quem está ganhando?

Outra coisa: vasculhei todos os sites oficiais de Debby, ou seja, todos os dois, e vi que as imagens de divulgação não foram atualizadas. Será que Debby não quer crescer? Será que quer voltar no tempo? Será que Bruna Marquezine conseguiu, enfim, acabar com a amizade sincera entre as duas? Tô com você, Debby. Qualquer coisa liga a cobrar do seu pré-pago. Beijos.

- Papai, quem é a menina mais linda do Projac?
- É claro que é você, minha princesa.

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23/04/2007
ARMADURA

Sou devoto de São Jorge – digo, sou filho de Oxossi – e agradeço diariamente pela proteção do santo guerreiro e as armas que me foram dadas para lutar contra os dragões do dia-a-dia. Este fim de semana, armado até os dentes, fui em busca de mim mesmo no Rio de Janeiro, minha terra, minhas referências, enfim, eu. Coragem de enfrentar-se cara a cara, olhar para dentro e se descobrir pela milésima vez, reinventar-se e começar tudo de novo. E assim voltei, resolvido, redefinido, recuperado, refeito, revisto, resumido, reeditado. Pronto para os 32 anos. Limpo. Leve. Vivo. A luta é diária, porém não há guerra. Paz na Terra aos homens de bem. Salve Jorge, oquê arô.

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www.ego.com.br Todos os dias, em caráter excepcional, críticas construtivas e crônicas destrutivas do mundo moderno na visão de Hermés Galvão, um jornalista antiquado.
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