25/05/2007
CANÇÃO DA AMÉRICA

Carminha Oliveira fazia a linha amiga para todas as horas, mas disseram em São Carmoso que a dita nunca valeu para hora nenhuma. Anônima, sem passado a limpo, chegou a São Paulo lá pelo fim dos 80, gótica e atriz, quando ainda dedicava tempo de sobra para a faculdade de psicologia que a aceitara por menos de 5 pontos no gabarito. Não se formou, neurótica ela, mas àquela altura já estava bem informada para graduar-se em dupla jornada na função de free-lancer qualquer nota. Vivia de pequenos trocados, de míseros trabalhos. E médias mentiras auto-protetoras e de baixa criatividade.

Era dada a estranhas amizades, muito embora tivesse por perto pessoas de fino trato que por misericórdia social não se importavam com seus modos deveras antiquados. Não era exatamente uma mulher distinta, e por hora seus trajes dois tamanhos acima a distinguiam da entourage que andava por dentro da moda. Carminha enganava de relance, quem a via por acaso podia jurar se tratar de uma grande figura, mesmo com seus quase 1,56m distribuídos por um corpo esmirradinho e aparentemente sofrido em criança. “Sabe-se lá o que essa gente do interior comia na infância”, resmungava Helena, a quase bem nascida que por acidente emocional entrou na roda de Carminha como sua mais nova colega da vida inteira.

Pois Carminha era assim, dada a amizades-relâmpago, estas que se dissolviam com a mesma rapidez que começavam e, cá entre nós, sempre acabavam mal. Afinal, Helena sequer gostava de meninas e jurou de pés juntos, à meia-luz do bar da esquina, que mesmo se fosse gay jamais entregaria o sutiã em mãos tão modestas. Suas confissões tardaram a chegar, pois havia duas semanas ‘tout’ Jardins comentava sobre a suposta aventura amorosa entre as duas partes jamais envolvidas. E foi assim com Joana e Jack, Viviane e Bianca. Quem chegasse perto ou era namorada virtual ou alvo de boato real. Difícil era sobreviver à fúria contida de Carminha, amarga e cirúrgica, a boa amiga que Deus e o mundo jamais quiseram tê-la como inimiga – mesmo que oculta.

Um segredo em seus ouvidos chegava a ecoar, via fone, para outros países. Mas o tom da conversa, em constante tom de preocupação, a livrava de qualquer suspeita mal intencionada. E assim um simples trocar de olhares tornava-se, de repente, uma gravidez inesperada. Uma aventura noturna ganhava status de traição premeditada. Ou uma boa situação contada por terceiros, depois de escutada, era passada adiante tendo ela, Carminha, como o mais novo sujeito da oração. E o real dono da história passava a ser um predicado distante.

E como adorava dar más notícias, sempre em tom fúnebre, como se a voz vestisse preto. Falar de morte era como contemplar a vida. A mesma que lhe deu as costas quando percebeu que nada viria de frente. Carminha nasceu de lado e entrou à esquerda e pelos fundos. Subiu pelas escadas, atravessou a porta de serviço e hoje está na sala de jantar, a brindar o sucesso alheio. Mas olhem! Não há tinto em sua taça. Carminha bebe mesmo Coca-Cola. Morna.

- Ando muito preocupada com Marcelo.
- Por que Carminha?
- Não é nada, coisa minha. Sinto que tem algo de errado com ele.
- Lá vem você com suas intuições.
- Pois é, mas da última vez que fiquei assim foi quando Ana morreu naquele acidente, lembra?
- E como esquecer! Você ligou pra mim às quatro da manhã, sendo que eu nem conhecia ela direito.
- Nem me fala, foi muito difícil ter que dar a notícia para todo mundo.
- Então me diga, o que você pressente, mãe Dinah do Jardins?
- Ai, parece que ele anda saindo com uma mulher da periferia.
- Não me diga. E o que você acha que ela quer com ele?
- Dinheiro, né? Você tinha que ver o tipo. Vi os dois conversando no Bebe’s anteontem.
- Conversar não quer dizer ficar, pelo amor de Deus Carminha.
- Mas eu senti que tava rolando um clima. Até li os lábios dela.
- E o que você tava fazendo no Bebe’s?
- Ah, você sabe. Fui me encontrar com a Lucinha, aquela atriz que eu te falei.
- Namorada nova, é? Mas ela não tava saindo com o Rafael?
- Você sabe como são essas atrizes, né? Fazem um tipo hetero para ganhar papel.
- Tá, mas o que você viu de suspeito entre o Marcelo e a tal suburbana?
- Troca de olhares, amiga. E um vinho branco gelando no balde.
- E como você sabe que ela era da periferia?
- A gente reconhece pobre de longe, Monica.
- Tem razão, Carminha. Quando te vi pela primeira vez achei que você fosse de outro planeta.
- E por falar nisso, Monica, você tem R$ 100 pra me emprestar. É que eu...
- ...Tá, sem maiores detalhes, passa aqui amanhã que eu te dou.
- É emprestado.
- Sei.
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24/05/2007
GUERRA DOS MUNDOS

Estou comovido com a manifestação dos estudantes da Universidade de São Paulo. Desde a passeata pró personagem de Claudia Abreu em Anos Rebeldes que culminou no impeachment de Fernando Collor, não se via tantos jovens brigando por algo que não envolvesse futebol e cartela de consumação mínima.

É, o brasileiro nunca foi muito criativo em protestos. Quando a moda da reivindicação chegou por aqui, ouvia-se Geraldo Vandré e aplaudia-se teatro experimental com ator cabeludo pelado em cena aberta – mas a onda de protestos também teve seu lado bom, ou você não daria tudo para engrossar o coro que vaiou Caetano Veloso?

Pois bem, 40 anos depois da era das gritarias em praça pública, os universitários da USP revisitaram a tendência 60’s e resolveram preparar flores de papel crepom para receber a tropa de choque da Polícia Militar em caso de reintegração de posse. Como bem disse minha musa Cris Naumovs, “ocupe a reitoria que existe dentro de você”.

É isso aí pessoal! Abaixo a ditadura de José Serra. Façam amor, não façam guerra. Assistam Hair, acendam um incenso de patchouli, ouçam Mutantes, saiam por aí vestindo bata e pratiquem ioga às sextas. Ontem, num relance frente a TV, vi uma aluna de vinte e poucos fazendo sinal de paz e amor com a mão. Aí não, né?

Ah, Dinorah, Dinorah...
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23/05/2007
LEAD

Assessora de imprensa paulistana, das novas, perturba minha manhã com um telefonema-convite para participar do lançamento de um celular capaz de comandar as funções da casa com um simples apertar de #. Diz que é possível acender luzes, fechar portões, desligar fogões e até programar termostato de banheira. Assessora falou do produto com tanta empolgação, como se ganhasse comissão por cada ligação feita. E talvez ganhe mesmo, vai saber.

Assessoras de imprensa são assim: felizes demais. Não as suporto mais que cinco minutos por isso, na verdade desconfio delas por não acreditar que alguém possa estar contente o tempo todo e achar que nasceu para exercer uma função tão dispensável quanto bolso em calça jeans de recém-nascido.

Assessor de imprensa é como bancário, uma profissão desprovida de quaisquer pré-requisitos existenciais. Está à toa na vida? Assessoria de imprensa já! Não precisa pensar muito, é como tornar-se promoter: basta tomar uma ducha, passar um cajal e pronto. Nasce uma nova profissional da comunicação.

Mas vale, e muito, lembrar que uma assessora de imprensa é, antes de tudo, uma jornalista. Assim como um repórter ou editor, da mesma maneira que um apresentador de telejornal ou redator-chefe. A diferença é uma só: 90% dos assessores jamais passaram por uma redação, talvez por isso dediquem boa parte de seu tempo a amolar o lado de cá com sugestões de pauta que só têm uma função: entupir nossa caixa de entrada.

Assessora de imprensa insiste no celular multi-coisas, mal sabe ela que notícia pra mim é ter que tomar banho de chuveiro elétrico na São Paulo do século XXI e acordar com o caminhão de gás vendendo bujão a Pour Elise no alto-falante. A notícia é a seguinte: se a idéia for realmente boa o interessado vai atrás da fonte. A regra vale para tudo na vida, por isso não é necessária a presença de intermediários.
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22/05/2007
ERRATA

Sim, minha gente, Caetano compôs a música para Luana Piovani. A confirmação veio de um íntimo, fonte quente e segura. Confio nos meus amigos e não dou crédito a jornalistas, por isso publico aqui uma errata de mim mesmo e aviso que Luana, a atriz infantil de teatro adulto, é a grande vítima deste imbróglio causado pelo doce bárbaro de banana.

O senhor Veloso, que desde Araçá Azul não lança um disco audível, está ficando gagá e talvez tenha se esquecido de dedicar a canção depois que seus objetivos não foram alcançados junto à pessoa de Luana.

De qualquer modo, quem em sã consciência intelectual gostaria de ter uma música de Caetano em sua homenagem? Imagina só as rimas que ele poderia fazer com o nome de Zilda Arns, por exemplo? “Zil, zil, Brasil, varonil de encantos mil, é você Zil...” Caetano esgotou. É permitido proibir Caetano. Vamos comer Caetano, Calcanhotto? Bom apetite. Tô fora.

Ela me contou que era atriz...
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www.ego.com.br Todos os dias, em caráter excepcional, críticas construtivas e crônicas destrutivas do mundo moderno na visão de Hermés Galvão, um jornalista antiquado.
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