01/06/2007
UM BEIJO DO GORDO?

Dando continuidade a minha jornada rumo à TV aberta, tive a petulância de assistir, na terça-feira, ao ‘Programa do Jô’. Tudo porque soube, por meio de terceiros falantes, que a estrela da hora do Youtube, a comediante de Vai Tomar no Cu, seria uma das atrações. A outra seria Drauzio Varela, o médico amazônico que só acredita no poder da alopatia.

Pois bem, mantive a mão firme e não mudei de canal até a hora em que o gordo mais pernóstico do Brasil entrou em cena fazendo o tipo cool de classe média. Sabe, fazia tempo que não via Jô Soares na tela, e que preguiça. Aquele talk show só existe para saciar o ego do apresentador – e sei que não estou a falar nenhuma novidade.

Jô Soares, com o perdão da falta de elaboração, não passa de um chato de galocha que precisa, e muito, usar seus entrevistados como escada e meros coadjuvantes de seu repertório antiquado com frases feitas e piadas prontas. Ninguém pode ser mais engraçado que ele, nada pode ser melhor ou mais genial. Se a vítima tem algo a dizer, ele tem duas vezes mais a falar.

E assim foi com a pobre Cris Nicolotti, que saiu de casa vestida de gótica de coxia para explicar a caravana de São Bento do Passa Quatro as razões que a fizeram cantar o novo hino dos internautas desocupados das repartições e redações. Só que, hélas, a atriz mal teve a chance de se expressar, já que Jô Soares e seu sexteto obeso mórbido tinha uma tirada melhor.

E de repente, num cruzar de câmeras, lá estavam seus instrumentistas de churrascaria soletrando em melodia tosca uma canção de péssimo gosto e falta absoluta de graça que repetia, insistentemente, a palavra cu. Em tom de novidade, claro, afinal para ele ninguém nunca louvou o nome de cu em vão. Ai, Jô, gosto é que nem cu: cada um tem o seu.

E o salário, uó!
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31/05/2007
VALE TUDO

Consegui assistir a um capítulo de Paraíso Tropical, a novela que se passa no inferno de Copacabana. E vejam só, para alegria dos militantes e freqüentadores de passeata, tem um casal gay no horário nobre. Achei moderno, dizer o quê? Desde Dancing Days, Gilberto Braga tenta transpor sua rotina e sua entourage nos folhetins que escreve, digo, mostrar para o país que a fauna carioca tem lá a sua diversidade randômica: michês, socialites decadentes, enrustidos, promoters, alpinistas sociais, endividados e adúlteros – às vezes, em caráter hiperrealista, todas estas características se aplicam a uma só pessoa, digo, a um só personagem.

Mas voltemos para o presente e falemos dos enamorados vividos pelos ex-modelos Carlos Casagrande e Sergio... enfim, Sergio. O roteiro manda dizer que os dois são um casal como outro qualquer, os diáologos se aplicariam a qualquer par de apaixonados de qualquer opção sexual. Então tá, combinamos, de uma vez por todas, que gays são iguais a todo mundo. Partindo desse princípio, os gays de Gilberto Braga moram juntos num apartamento decorado com objetos pensados. Até aí, tudo bem.

Mas em qualquer cena que se passa eles estão sempre grudados e muito, muito felizes, fazendo o tipo amigos para todas as horas (eles são queridos por todos os núcleos e aparecem, invariavelmente, nas melhores situações e sempre têm uma opinião para dar), hospedando estranhos em casa, conversando muito, sempre à meia-voz, e com um otimismo invejável – mesmo sendo roubados dentro da própria casa eles esperam recuperar, trabalhando em hotel e morando de aluguel, os cinco mil dólares que lhes foram subtraídos. Gay economiza em dólar e guarda tudo no cofre do armário.

Ah, e jantam juntinhos todos os dias, mas enquanto a vizinhança toma sopa eles comem sushi e bebem saquê. O casal tem um barco japonês na própria cozinha com capacidade para 80 peças. Sim, eles têm dotes culinários. E são sofisticados, dialogam muito, fazem planos, estão sempre bem vestidos, parecem ser o casal que sua mãe pediu a Deus. São incapazes de olhar para o lado. Fazem o tipo que sua prima de Guarapari diria ‘ai, que desperdício’. Mas estão lá, na ficção, se bem que não acho nada difícil a arte estar a imitar a vida. Tirando o combinado de 80 peças, quase tudo pode ser verdade. Até que o último capítulo os separe.

Aê, Gilberto Braga, consegue um papel pra gente na sua novela? Não precisamos de cenário, só de um barzinho de música ao vivo pra tomar um vinho branco.
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30/05/2007
RUNAWAY BRIDE

Então o vestido de Uanessa Camargo era o mesmo usado por Christina Ricci, a Wandinha Adams Jacinto? Para você ver que dinheiro não compra exclusividade e nem manda buscar. Mesmo assim, a neta de Francisco foi a Nova York algumas vezes para experimentar aquele que era considerado por ela uma relíquia, algo para guardar em casa, como uma peça de arte. Hoje, no máximo, é uma réplica. Que não merece mais ser exposta, a não ser que ganhe uma nova roupagem.

Com os metros de tecido usados na confecção do vestido, Uanessa pode mandar sua modista de Goiânia transformá-los em uma linha completa de cama, mesa e banho. E se sobrar pano, capinhas para bujão de gás e liquidificador para a casa nova. E a tule vira cortina e mosquiteiro. Uanessa, customização é o futuro. Mas será que a mais velha da Zilu foi mesmo enganada, assim, friamente? Será que caiu no conto do minimalismo de Calvin Klein, onde menos é mais apenas para quem já tem de tudo?

SuperEgo, em sua constante luta pela verdade, levanta a bola e pergunta aos leitores (cada vez mais escassos): será que Uanessa sabia de tudo e mesmo assim resolveu entubar o tubão branco? Teria ela feito o famoso ‘segundo aluguel’, quando noivas recorrem ao sistema de locação de trajes? Respondam e concorram a uma viagem à Grécia para acompanhar a lua-de-mel do sr. e sra. Buaiz.

A propósito, o destino escolhido pelo casal é o mesmo que Christina Ricci costuma freqüentar nesta época do ano. Estranha obsessão ou afinidade dos Camargo com a Família Adams?

Ainda bem que o meu vestido ninguém teria a coragem de copiar.
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29/05/2007
AS QUATRO ESTAÇÕES

Para alegria dos fabricantes de bota e editoras de moda, o frio subtropical de altitude já dura uma semana em São Paulo – e eu achando que o inverno deste ano cairia num domingo. Foi aberta a temporada de 15º acima de zero senso estético na cidade mais fashion do submundo latino. De hoje até a chegada da próxima massa de ar condicionado teremos um fudevu de cachecóis, boinas, forro sintético de jaqueta jeans e, em alguns casos crônicos, estolas e sobreposições efeito cebola.

O paulistano nasceu com o termostato quebrado e passa a vida achando que por aqui não faz calor e que o inverno é mais rigoroso que o registrado nos termômetros (aqui se fala muito de sensação térmica, sempre baixíssima, claro, uma ótima justificativa para usar sobretudos e peles compradas na última viagem à Argentina). E com o frio virtual, vem a programação gastro-cultural: queijos e vinhos sob a resistência da lareira elétrica, festival de racletes, café da manhã colonial em Gramado (com direito a bater foto de geada e canteiro) e, ai, fondue. Qual o sentido do fondue? Alguém acorda com desejo de comer fondue? Fondue está para a culinária assim como o poodle está para o reino animal e as violetas para o reino vegetal. Fondue não é sólido, nem líquido, nem gasoso. Fondue é uma comida que está na metade do caminho, meio sem identidade, tipo Suíça e Espírito Santo.

Mas o maior incômodo do inverno é não entender os motivos que levam uma pessoa a falar tudo no diminutivo. Existe alguma relação sócio-etimológica-ambiental que faça com que todos passem a usar ‘inho’ em tudo? Friozinho, vinhozinho, gostosinho e quentinho aquecem relações e aproximam pessoas? É isso? Sigo feliz com meus abrigos modestos, dignamente agasalhado e rezando para Nossa Senhora de Reykjavik manter o verão bem longe de nós. Afastem de mim esse cálice de tinto barato que eu vou continuar na cerveja. Abaixo de zero. Comme il faut. À Riô.

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28/05/2007
E DIEU... CRÉA LA FEMME

Já já saberemos quem será a mulher mais bonita da galáxia. O concurso Miss Universo acontece hoje, diretamente do México – terra das pessoas mais medonhas do planeta –, ao vivo para todo sistema solar de assinantes de TV a cabo. São 77 candidatas de países que a gente só lembra que existe no mapa em época de desfile de traje de gala: tipo Albânia e Guiana. SuperEgo, o blog mais esteta da Via Láctea, partiu em busca das concorrentes para conferir as medidas, os pesos e a circunferência do crânio de cada uma delas, afinal de contas todas as manequins do mundo estão ficando com um senhor cabeção do tamanho do filho da Cher naquele filme da Sessão da Tarde.

Navegando pelo site oficial, encontrei as meninas em fase de testes. Antigamente, elas eram o estereótipo do país que representavam, ou melhor, a cara que os organizadores gostariam que elas tivessem para comprovar residência: as suecas eram necessariamente loiras, assim como as libanesas eram categoricamente árabes. Hoje há índias representando a Noruega, negras defendendo a República Tcheca e brancas quase albinas posando de FPS 45 com faixa de alguma ilha caribenha com nome de incorporadora – ex: Turks and Caicos. Só África do Sul e Portugal continuam firmes em suas respectivas posições: um só envia loiraças, suas musas do Apartheid camuflado, e o outro não manda ninguém por falta de quórum feminino.

Pelo menos as asiáticas continuam com os olhos puxados, também seria demais engolir uma mulata oxigenada se passando por chinesa. As latinas da América são as favoritas, sempre. E todas iguais: morenas e carnudas, como as acompanhantes de empresários em viagem de negócios. Nada difere as colombianas das chilenas, portanto o padrão de beleza vigente é de origem andina – com exceção das bolivianas e peruanas, claro, que parecem todas uma mistura de Mercedes Sosa com Tainá, a aventureira da Amazônia.

E tanto blá, blá, blá para quê mesmo? Ora, para fazer o tempo passar mais depressa até chegar a hora da apresentação dos trajes típicos. A brasileira deve aparecer de papagaio clonado, a americana de cowboy protestante, a francesa de escargot e a japonesa de gueixa violentada. Li no press release que Trinidad & Tobago, pela primeira vez na história do concurso, não mandou sua miss para passear. Falta grave, porém a organização do programa mais racista do universo tratou de manter o sistema de cotas com todas as raças devidamente representadas em número equilibrado. Todas na luta pela coroa temporária e por um marido permanente. Vai daí que eu vou daqui. Besitos a ti, Cecilia Bolocco. Tudo na vida passa, até título de lindona.

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www.ego.com.br Todos os dias, em caráter excepcional, críticas construtivas e crônicas destrutivas do mundo moderno na visão de Hermés Galvão, um jornalista antiquado.
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