31/05/2007
VALE TUDO
Consegui assistir a um capítulo de Paraíso Tropical, a novela que se passa no inferno de Copacabana. E vejam só, para alegria dos militantes e freqüentadores de passeata, tem um casal gay no horário nobre. Achei moderno, dizer o quê? Desde Dancing Days, Gilberto Braga tenta transpor sua rotina e sua entourage nos folhetins que escreve, digo, mostrar para o país que a fauna carioca tem lá a sua diversidade randômica: michês, socialites decadentes, enrustidos, promoters, alpinistas sociais, endividados e adúlteros – às vezes, em caráter hiperrealista, todas estas características se aplicam a uma só pessoa, digo, a um só personagem.
Mas voltemos para o presente e falemos dos enamorados vividos pelos ex-modelos Carlos Casagrande e Sergio... enfim, Sergio. O roteiro manda dizer que os dois são um casal como outro qualquer, os diáologos se aplicariam a qualquer par de apaixonados de qualquer opção sexual. Então tá, combinamos, de uma vez por todas, que gays são iguais a todo mundo. Partindo desse princípio, os gays de Gilberto Braga moram juntos num apartamento decorado com objetos pensados. Até aí, tudo bem.
Mas em qualquer cena que se passa eles estão sempre grudados e muito, muito felizes, fazendo o tipo amigos para todas as horas (eles são queridos por todos os núcleos e aparecem, invariavelmente, nas melhores situações e sempre têm uma opinião para dar), hospedando estranhos em casa, conversando muito, sempre à meia-voz, e com um otimismo invejável – mesmo sendo roubados dentro da própria casa eles esperam recuperar, trabalhando em hotel e morando de aluguel, os cinco mil dólares que lhes foram subtraídos. Gay economiza em dólar e guarda tudo no cofre do armário.
Ah, e jantam juntinhos todos os dias, mas enquanto a vizinhança toma sopa eles comem sushi e bebem saquê. O casal tem um barco japonês na própria cozinha com capacidade para 80 peças. Sim, eles têm dotes culinários. E são sofisticados, dialogam muito, fazem planos, estão sempre bem vestidos, parecem ser o casal que sua mãe pediu a Deus. São incapazes de olhar para o lado. Fazem o tipo que sua prima de Guarapari diria ‘ai, que desperdício’. Mas estão lá, na ficção, se bem que não acho nada difícil a arte estar a imitar a vida. Tirando o combinado de 80 peças, quase tudo pode ser verdade. Até que o último capítulo os separe.

Aê, Gilberto Braga, consegue um papel pra gente na sua novela? Não precisamos de cenário, só de um barzinho de música ao vivo pra tomar um vinho branco.