11/06/2007
DRINK NO INFERNO

Vou pedir minha aposentadoria por invalidez social. Não consigo mais andar pela multidão sem me sentir uma minoria esmagadora sem destino rumo a um remetente público limpo e seguro. Falta-me forças nos pés e meus braços só levantam para fazer sinal ao táxi mais aproximado. O domingo caiu juntamente com o pôr-do-sol e no alto da tarde já não se via seres humanos como se vestiam antigamente.

Prostrado frente a um cruzamento de avenidas, observei o vai-e-vem de transeuntes fantasiados de exorcistas de si mesmos a extravazarem (com zê mesmo, como extravasamento do vazio) sentimentos e desejos reprimidos desde a infância ao bairro de onde vieram – sim, pois lá nos confins da última estação de trem não se permite diabos de jeans cinturinha e maquiagem David Bowie de catálogo Avon.

Modernos e livres, estavam aos milhões e não se importariam se o número dobrasse para os lados e para cima. Havia gente, muita gente, e não existiu apenas um que lá se encontrasse em busca de direitos iguais que não fossem diferentes ao livre arbítrio de fazer seriamente aquilo que passasse pela cabeça – tudo em nome do desejo de ser, estar e viver o que apenas uma festa sem começo e com triste fim poderia proporcionar.

Beijos anônimos, sexo entre inseguros, segurança pública, lixo coletivo, urina grupal e agora, para quem olhava sob um ângulo depreciativo, análise individual com direito a sessão extra grátis. Analistas, analisando e analisante. Analisado, jamais. É assunto para divã purista, sem previsão de alta. Quero férias da Terra. Temporada em Marte é o futuro. Com ET’s não incluídos no pacote. Pois estão todos aqui. Sorte de quem não se deixou abduzir. Muito mais por educação que por opção. Sejam gays, queridos ‘manifestantes’, mas sejam gente antes de tudo. Antes de mais nada. Antes que seja tarde. Mas agora é noite. E já não se vê travestis e afins girando o cabelo ao redor do próprio eixo. Que bom.

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06/06/2007
FOGO NA ROUPA

E os jogos Pan Americanos sexuais, hein pessoal? Desvio de verbas, superfaturamento, obras atrasadas e a cidade-sede tão animada com a proximidade do evento quanto num velório de artista da Globo. Ontem, a pira técnica chegou em solo brasileiro, ou melhor, em território baiano – afinal a Bahia é um país a parte.

A festa de boas vindas foi pontuada por protestos e balbúrdia. Dirigentes e políticos ficaram estarrecidos com a recepção, mas pensando bem poderia ser pior: já imaginou receber a tocha ao som de Cid Guerreiro e Luiz Caldas?

Bem, uma multidão de desocupados baianos (redundância) se aglomerou no aeroporto de Porto Seguro para esperar o tal fogo do Pan. Mas o que faria uma pessoa em sã consciência e com carteira assinada ficar de pé assistindo uma labareda sendo levada de um lado para o outro?

Continuemos: a chama passou de mão em mão, primeiro na do presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nuzman. Em seguida na do prefeito do Rio, Cesar Maia. Depois para o governador da Bahia, Jacques Wagner e por fim, não me pergunte por que, na do cacique Aruã, chefe da tribo Coroa Vermelha, isto ocorrido horas depois na cidade de Santa Cruz Cabrália.

Voltando um pouco: no aeroporto de Porto Seguro, entre axés e cocada preta, índios pataxós se espremiam no saguão e faziam uma dança chamada ‘auê’ em saudação à chegada da tocha. E tanto em uma cidade quanto em outra foi decretado ponto facultativo. Margareth Menezes cantou o hino nacional e Acelino ‘Popó’ Freitas vestia trajes indígenas.

Tudo isso, vale lembrar, para comemorar a chegada da tocha do pan. Sobre o protesto: cidadãos reclamavam a não convocação do carateca baiano Bocorinha, que perdeu a vaga para outro atleta mais encorpado. E assim foi a terça-feira no sul da Bahia. Mais um dia de peso morto. É fogo. Brasil, sil, sil.

Aphe, tô morta...
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05/06/2007
PRÓXIMA PARADA

São Paulo já está em festa por conta da Parada Gay, o evento que transforma anualmente a Avenida Paulista na maior rodoviária a céu aberto do mundo. De todos os kitshnetes do Brasil, das pensões e quartos para solteiros de Pelotas a Serra do Navio, uma multidão de sobrancelha feita e jeans acinturado no melhor estilo ‘tomara-que-calça’ dançará a pleno vapor do alto de seus Nike Shock.

São mais de um milhão de pessoas, de sexos e transexos diferentes, a marchar da estação Paraíso rumo ao inferno do centro da cidade em ritmo de almôndega. Para você, que saiu hoje da sua terra natal, de Expresso Geraldo, e espera chegar a tempo na concentração da kombi número 3 da boate Nexus, aqui vai um manual prático de sobrevivência na selva e um código de ética para não passar por pintosa na maior micareta do mundo.

1. Evite conversar com pessoas que têm o nome iniciado pela letra W: Wesley, Wellington, Wanderley, Waldeci, Walcyr, Washington e Wallace. Geralmente, eles vêm acompanhados de sobrenomes impronunciáveis e amigas do tipo que se apaixonam pelo impossível. Repare que para cada gay há sempre uma colega gordinha que curte de montão um amor platônico e jamais, jamais correspondido;

2. Evite encostar em pessoas com trajes da etiqueta Foch. Se o elástico da cueca estiver para fora, saia correndo sem deixar rastros.

3. Não tire a camisa, até porque a maioria dos seres humanos tem uma visão distorcida de si mesmo. Se você achar que está com o corpo em cima, tenha certeza que é mentira;

3. Ao perguntar à vítima onde ela mora, saia correndo caso ela responda “na região da Frei Caneca”;

4. Não caia no conto do estrangeirismo ao ouvir da vítima sua ocupação profissional: make up artist é maquiador, hair dresser é cabeleireiro e ator é desempregado;

5. Não aceite balas de estranhos, não compartilhe bebidas e nem óculos de sol descartáveis;

6. Se encontrar o pessoal da academia, finja que não conhece. Até porque não se deve fazer amizade em academias;

7. Volte para casa sozinho. Se estiver na seca, resolva seu problema na rua. Até porque, aquela pessoa de São João do Nepomuceno que você conheceu deixou pernoitar no seu quarto e sala, pode resolver passar o mês no seu lar. Para ver se rola aquele emprego de vendedor da Zoomp;

8. Caso queira um momento mais íntimo, vá até aonde a vítima estiver. Desde que não seja no Hotel Fórmula 1. Hospedar-se lá diz muito de uma pessoa;

9. Não brinque com lésbicas. Elas não têm humor e a probabilidade de você levar um golpe de tchaco no pescoço é tão grande quanto dar de cara com uma gangue de garotas dispostas a agarrar sua namorada, ela, uma simpatizante da causa;

10. Por fim, leve apenas o necessário e coloque tudo no bolso da frente. Batom, R$ 10 para o dogão com batata palha e camisinha. Vai que você consegue sair do jejum de um ano e meio, não é mesmo?

Boa festa a todos. E não me contem como foi.

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04/06/2007
FOLK YOU

Recebi outro e-mail animado de assessoria de imprensa. Desta vez apresentando um novo grupo de axé music. Com o título “Bahia exporta mais um grande sucesso”, o comunicólogo tenta vender seu cliente, a então desconhecida banda Capitão Axé. Diz o correio eletrônico que os músicos “já angariaram fãs em todo Nordeste e que a Bahia está orgulhosa com seu novo produto, afinal lá é o berço de grandes nomes da MPB”.

Assessor de imprensa adora usar figuras de linguagem nos releases. Por que escrever “berço” para se referir a um lugar? (a outra opção é ‘celeiro’). E quando quer dizer que algum DJ vai tocar na boate da moda diz que fulano ‘assume as carrapetas’. No caso do e-mail recebido, outros chavões engrossam o texto, como “o cd acaba de sair do forno”. Dá para ser pior? Enfim, mais um disco de axé rodando no mercado e isso sim, é grave.

O axé music é um subproduto do folclore baiano, uma onomatopéia de indigestão com rimas tão irreparáveis quanto as coreografias de quem as canta. O axé é a nossa folk music, antes fosse pop. Entra ano, sai ano, tudo que os compositores especializados fazem é a manutenção de um clichê dançado em ritmo de jacaré perneta por aqueles que passam a vida atrás de alguma coisa, seja de um caminhão com pisca-pisca ou de uma pulseira para entrar na sala vip de festa frapê.

O axé era uma modinha passageira que ficou. E grudou. O axé não é popular, é popularesco. É o ritmo de embalo dos sábados à noite no submundo do terceiro mundo da era da globalização (termo em desuso), onde participam atrizes, cantores, socialites, pagodeiros, jogadores de futebol e outros cantores de hit só. Nesta esfera da sociedade, nada de novo se ouve e se consome.

Vive-se de restos de tendências, resquícios de moda, ecos de canções. Não é kitsh, nem vintage. É pobre. De espírito. Antes fosse cultura de massa, deixou de ser quando a massa optou por ser cinzenta. Sepultemos de vez todas as formações cantarolantes de Salvador e áridas adjacências. Vamos decretar o fim da folk music e entrar na modernidade do áudio. Adeus Ivete Sangalo, Daniela Mercury, Gilmelândia, Claudia Leite e quem mais chegar.

Procure na sua locadora!!! Cinderela Baiana, um clássico da retomada do nosso cinema WC. Com Carla Perez, Lazaro Medeiros e grande, grande elenco
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www.ego.com.br Todos os dias, em caráter excepcional, críticas construtivas e crônicas destrutivas do mundo moderno na visão de Hermés Galvão, um jornalista antiquado.
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