13/06/2007
A HORA DA ESTRELA
Gostaria de saber quem foi que disse que ser atrasado é chique. E em nome desta elegância insólita eventos e pessoas costumam demorar, por baixo, quinze minutos até dar início ao encontro marcado. E nesta ordem, não tão nova assim, chamam de tolerância o tempo entre a espera e a chegada de alguém ou alguma coisa. Desculpas são aceitas, vai daí que tornou-se praxe deixar o convidado sentado enquanto o outro não vem.
Valentina Simon tem sua coleção de relógios, dos de plástico às edições limitadas, passando por belíssimos exemplares de Rolex e Cartier. Mas ainda assim é famosa por não ser pontual. Diz que é bom fazer alguém tomar chá de cadeira – mesma teoria, pensa ela, friamente, defendida pelos estilistas que a partir de hoje vão mostrar suas modas no São Paulo Borges Fashion Show. Valentina, quando quer, chega na hora. Foi o caso de hoje.
Neste exato momento encontra-se, reluzente em seu modelo de ouro amarelo, espetada na primeira fila de um desfile que, segundo a organização, está atrasado por motivos de força maior. Mas que força é essa que tira uma centena de pessoas de casa e as fazem acreditar que vale a pena perder meia horinha do dia à espera de tudo menos de uma novidade?
Valentina perde a hora, mas não perde tempo. Já conseguiu seu convite para a festa que sucede ao lançamento de verão de sua marca preferida. Diz que quem espera sempre alcança. Seus filhos, talvez, não compartilhem da mesma opinião. Estão, agorinha, esperando a mamãe para jantar. E ela disse que chegaria. Usou de um bom gerúndio para despistar os meninos e desde o começo da tarde ‘está indo pra casa’. Cansados de esperar, foram dormir sem nada no estômago.
Porém, Valentina teve uma noite deslumbrante a bordo de uma mesa vip no pergolado da casa provençal do designer mais aclamado do momento. Comeu, bebeu, viu e foi vista. E depois da quinta dose do melhor whisky achou que já era hora de partir. Tarde demais. Não havia mais táxis no ponto. Indignada, perguntou ao segurança da rua se aquilo eram horas de os motoristas não estarem a trabalhar.
Seu Firmino, sem relógio e sem hora para largar o serviço, respondeu à perua que naquele ponto todos acordavam muito cedo para trabalhar. Valentina, invece, não tinha hora para acordar. Nunca teve. É uma mulher atrás de seu tempo. E a frente dela, todos passaram, de carro, sem oferecer carona. Era fim de festa. Fim da noite. Tempo esgotado. Tempo perdido. Valentina andou até o táxi mais próximo. No caminho levaram seu relógio. Era falso.