25/06/2007
GAROTA MATERIALISTA
Éramos apenas eu e mais seis gatos pingados a comparecer no show de Gizele Silveira – ou Madonninha, para os íntimos. Aos 11 anos, ela teve a coragem de gravar um disco com músicas de Madonna traduzidas para o português – o resultado, para dizer o mínimo, foi hilário. Desde então, e já se passaram dez anos, Gizele vem se apresentando de maneira bissexta por alguns inferninhos do eixo, como na boate Tirana, no centro de São Paulo. Tive o prazer de conhecê-la, ao vivo, e demorei um quarto de minuto para realizar que, aquela menina com pinta de caixa de danceteria, sentada no sofá conferindo suas mensagens de texto no celular, era, de fato, Gizele Madonninha. Morena, casada com um policial, moradora do subúrbio do Rio, gerente de uma locadora de vídeo e um look que lembrava sua deusa pop na fase Procura-se Susan Desesperadamente. Era meia-noite e a casa noturna continuava vazia.
– Que horas o show vai começar?, perguntei à Gizele.
– Estamos esperando encher mais.
Tive a sensação de que o espetáculo jamais começaria. Quis deixar claro que só estava ali por causa dela, que movi mundos e alguns fundos no Redeshop somente para vê-la em ação. E quanto mais eu esperava, quanto mais eu me aproximava, mais me distanciava da idéia que fazia do mito de Gizele Madonninha. Não, não deveria tê-la conhecido, sequer conversado. Antes deste sábado fatídico, ela habitava minha memória afetiva como uma pirralha loira que repetia refrões sobre virgindade e sexo grupal com a mesma candura que cantava cantigas de roda na hora do recreio. Mas Gizele cresceu, digo, envelheceu – pois mede menos de 1.60m e em suas mãos não cabem uma maçã.
E passados dez minutos das duas da manhã, Gizele entrou na pista, agarrou um microfone e começou a cantar. Para nós, dez pessoas. Ganhou R$ 350 pela performance + ajuda de custo para hospedagem e passagem. Veio de ônibus, dormiu num hotel a poucas quadras dali. Gritou quatro canções, antigas, pois disse que desde aquela época não traduz mais hits de Madonna, repetiu as coreografias e encerrou seu número musical debochando da própria condição de trash e sem deixar telefone de recado para possíveis shows. Foi uma apresentação digna. Para ser esquecida. A pedidos dela. Gizele não gosta muito de lembrar da época em que acreditava ser a encarnação protozoária de Madonna, diz que foi um surto infantil e um passatempo que a tirou do tédio da rotina capixaba. Gizele Prefere falar do presente. Pois sabe que o dia de amanhã é tão incerto quanto o público que a aplaudia na pista. No fim da quarta música, já não havia quorum. Viva o presente.
Feriado! Comemore!
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