11/07/2007
CONVERSA FIADA

Não temo a vida, tampouco tenho medo da morte. Mas entro em pânico só de pensar na possibilidade de morrer de tédio. Até porque, de todos os vícios que tenho, o culto ao marasmo é o único que luto para combater como quem briga contra uma doença passageira. A sensação da rotina é latente, recorrente e insiste em chegar quando mais espero.

Mesmo morando em São Paulo, onde, dizem, tudo acontece, caio na mesmice de mim mesmo e olho para a rua lotada de carros e pessoas como quem olha para uma viela mal calçada do interior de Goiás. Melancolia terminal. E, ao fechar das janelas anti-ruído, volto para dentro e respiro aliviado com a ajuda de aparelhos.

Penso que o dia-a-dia poderia ser pior caso morasse em alguma cidade pontuada pela missa de domingo ou por algum evento que promova seu produto de exportação, como o festival do tomate de Paty do Alferes ou a festa do crochê de Monte Sião. Lá, cidadãos inertes em sua própria existência, passam os dias a espera de uma novidade e quando ela chega, por menos importante que possa parecer, dá-se o milagre da felicidade.

Eis o mistério da fé no homem, na sua capacidade de rir do que não tem menor graça. Na vontade inerente de acreditar que o dia de hoje pode ser melhor que a noite de ontem. Pelo menos enquanto houver assunto. E na falta dele, penso no que vale a minha presença.

Acho que não muito. Nem a minha, nem a de ninguém. Mas tem coisa mais gostosa que papo furado? Tem. O silêncio absoluto. E sagrado. Shooooo...

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10/07/2007
CRIANÇA ESPERANÇA

Bom dia amiguinhos, já estou aqui. Tia Xuxa vai estrear um novo programa, desta vez voltado para o público adolescente, o mesmo que ela ajudou a criar com seu Xou de horrores coloridos. E acaba de lançar um novo disco, Xuxa para Baixinhos volume 137.

A loira, assim como Renato Aragão, é da terceira idade do showbusiness brasileiro. E ainda está no ar – para quem quiser assistir, embora a audiência seja tão animadora quanto a figura de uma paquita empurrando a moleca de escola municipal escorrega abaixo.

Enquanto isso, Xaxa, sua filha fertilizada em tubo televisivo, ensaia os primeiros passos como apresentadora infantil. É a perpetuação de uma espécie que já deveria estar extinta dos estúdios, uma fórmula que arruinou a infância de uma geração coreografada por ritmos e ritos tão pobres quanto a idéia de animar uma legião de crianças acompanhadas de pais sem formação e informação.

A partir de Xuxa e de seu programa vieram as danças da garrafa, do quibe frito, do popozão e uma moda que trouxe para o guarda-roupa de dois a sete anos o trio bota, minissaia e blusinha. Pois a nave espacial de Xuxa está pronta para partir outra vez. Mas será que o programa decola?

Sou feliz, por isso estou aqui...
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06/07/2007
ZZZZZZZZZZZZZZZZZZZ

Morro de preguiça de gente preguiçosa. E não há força que as tire da inércia, não há maneira de esforçá-las à vida. Fracos, oprimidos em sua própria opção.

O brasileiro ganha pouco porque pensa pouco, e não me venha falar de diaristas ou bóias-frias porque estou a lamentar a má vontade de quem nasceu para brilhar.

Corpo mole, iniciativa de privada, fisiologismo público e horário comercial fechado para balanço. Crise existencial de repartição, atitude de bancário e produtividade estéril.

Adotou-se o termo ‘timing’ para justificar um atraso, um não querer. Um minuto de silêncio, pois a Inês é morta. Deixa estar, cada um tem o seu tempo.

E o mundo conta as horas para lucrar, o brasileiro perde a hora de acordar. Indisciplina, displicência, descaso, auto-sabotagem. Ledo engano.

Não marque encontros, espere na fila, a sua vez nunca chegará. Sorria, você está sendo ultrapassado. O tempo todo.

Vai trabalhar, vagabundo. A ópera do malandro desafinou, o jogo virou. Agora é tarde demais para mudar. Com licença, eu vou à luta. Quem vem?
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05/07/2007
HERESIA, FOGUEIRA. VIVA SÃO JOÃO
Dando continuidade à cruzada na Idade Média brasileira, duas notícias saídas do alto clero que sacudiram a plebe nesta quarta-feira. Em Araraquara, interior de São Paulo, um desempregado e uma garota de programa foram presos acusados de roubar o cabelo de uma evangélica. O assalto renderia R$ 200, dinheiro que seria usado para comprar maconha. Segundo a polícia, o cabelo foi queimado antes de os acusados acenderem um baseado.

E no Rio de Janeiro, cidade que vive sua efervescência cenozóica, o ator de Malhação Rômulo Arantes Neto foi enjaulado por suspeita de agressão a dois travestis, além de roubar a bolsa de uma prostituta e fugir do motel sem pagar a conta. Reza a página policial que o rapaz só se deu conta que a traveca não era mulher depois de passar 40 minutos em sua companhia. Que homem neste mundo precisa de mais de dois segundos para se tocar (ou se deixar tocar) de uma coisa dessas?

Será que este colunista está deveras amargo ou foi o ser humano que azedou de vez? Não está sendo fácil, já cantarolava Kátia, a cega. Eu queria mesmo era dançar a quadrilha de Gilberto Gil, pintar o dente de preto e acender fogueira de São João. Xangô menino. Ou da inquisição. Ser herege, amigo de Preta, primo de Bebel, afilhado de Chico, sobrinho de Gal, assistente de Ivete, personal trainer de Flora, contador de Paulinha, mentor de Nizan. Prenda minha, Caetano, vou para a pescaria. Quem sabe eu não fisgo um prêmio de consolação?

Vem, vambora, que o casamento é de arraial. E de fachada. Amanhã todo mundo pensando na programação do fim de semana. E opa! É feriado em São Paulo na segunda-feira. Vamo que vamo na Marginal, trânsito de 100 quilômetros. Todo mundo desaguando na Baía de Santos. É cocô encanado e cerveja gelada. Brasil, acabou-se o que era doce. De abóbora. Canjica e quentão, quermesse social. Caipira existencial. Me leva que eu vou para a barraquinha do beijo.

Free... Willy.
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04/07/2007
MEDIEVAL TIMES

Enquanto o mundo anda para frente a gente anda para trás – e os baianos, em eterna coreografia, correm para os lados numa espécie de dança do siri louco.

Regressão, retrocesso, movimento retardado. Um menino de onze anos é acorrentado pelos pais em Porto Alegre. Outro, em Feira de Santana, passa o dia preso por um cadeado nos pés.

Lançamentos imobiliários promovem quatro suítes e um quartinho de empregada sem janela e com vista para a coifa. Cantores da nova MPB guilhotinam clássicos e a geração 90 começa a sair de casa para dançar em boates estilo masmorra.

Fiéis histéricos, travestidos de fãs, perseguem mitos e fazem adoração à imagens estampadas em poster de revista de novela. Refrão de axé é mantra, político nordestino é o diabo.

O país do futuro está na Idade Média. Deus.
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03/07/2007
JARDIM AMÉRICA, JARDIM EUROPA. JARDIM ÂNGELA, JARDIM PAULISTA

São Paulo ainda me choca. Não os flatos arquitetônicos de Ruy Ohtake, tampouco a falta de um espaço público minimamente aprazível ou a coluna de Joyce Pascowitch estampando as mesmas cinco pessoas de sempre. A cidade cresceu, de burgo a megalópole, e o cidadão não acompanhou a escala. Isto sim me choca imenso. Tornou-se médio, medíocre, e virou-se de costas para a rua, ignorando, até mesmo, o mau estado da calçada em frente a própria casa.

Entre quatro paredes, isolados nas mesmas referências dos tempos do café com Matarazzo, os adictos do hype se reúnem, trocam impressões repetidas e comentam, em tom de glória em guerra, suas aventuras econômicas e sociais usando três sobrenomes como posição hierárquica e cartões de crédito gold como medalhas no uniforme.

Os paulistanos não aprenderam em tempo hábil o verdadeiro sentido da palavra cosmopolita e ainda hoje acreditam que dinheiro não só cobre, mas também justifica a falta de cultura. Festas, vernissages, desfiles, brunchs, soft openings... convidados, assassinos de assunto. Nas rodas de conversa, fala-se de pouco um tudo: viagens (compras), cifras e conquistas – profissionais, antes fossem as amorosas.

Ama-se quase nada entre a fina estampa regional. Mas, de ódios contidos a rancores explícitos, todos sorriem em nome da elegância distinta. De longe, mas bem de longe, com música muito alta e champagne gelado, somos enganados (ou nos deixamos enganar) e por um golpe de ótica e aúdio temos a sensação de que aquela noite, com aquela gente, poderia estar a acontecer em Nova York – pelo menos assim reza a crença da lista vip.

Cidadão do mundo, em ipsis literis, convive em sociedade aberta, usufrui do serviço público e, quando este está longe de um nível satisfatório, é ele quem vai às ruas protestar por melhorias. E mais: deve-se ultrapassar o muro imaginário que a elite local criou entre quatro bairros que, por mais nobres que sejam, para nós, cariocas, esteticamente falando, mais parecem quebradas do distante subúrbio da Leopoldina.

Um quadrilátero cercado de mau gosto por todos os lados: casarões replicantes, ora neoclássicos, ora chalés alpinos, habitados por colunáveis repetidos e sorridentes de qualquer evento. A maior cidade da América do Sul é a prova morta-viva de que tamanho não é documento. Em níveis civilizatórios, bem comparando, Montevideo (e seus quase 1,5 milhão de pessoas) é uma Amsterdam perto disso aqui. No microcosmo que compreende o Jardins e, em casos de festas, o Morumbi, nada me faz lembrar o mito da cidade grande, maior mesmo que a própria vida.
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02/07/2007
GORDURA LOCALIZADA

Quando o mundo era um lugar mais simples para se viver costumávamos dividi-lo em duas partes desiguais: de um lado, os gordos. E de outro, os magros. Mas o tempo passou, a outra metade engordou, outros reduziram seus estômagos a escalas infantis e o índice de massa corporal passou a ser tão relativo quanto o padrão de boa forma vigente. Chamar alguém de gordo, assim, categoricamente, passou a ser uma ofensa simplista, mal elaborada. Ninguém é apenas gordo. Um gordo sempre vem acompanhado de um outro adjetivo: gordo preguiçoso, gordo simpático, gordo guloso e por aí vai.

Mas há gordos que são puramente gordos, de nascença e desprovidos de quaisquer estereótipos. São os gordos acidentais, que escondem uma longilínea personalidade por trás do tecido adiposo. Diz a psicologia primária que é auto-sabotagem. E há magros que, apesar de serem carne e osso, possuem em seu interior uma alma gorda – obesos mórbidos, espiritualmente falando. E a psicologia moderna, até onde sei, não reconhece isto como doença do ego. Este mal ignora pesos e medidas, ataca da mais rechonchuda a mais esquálida das criaturas.

E como identificar um ser de alma gorda? SuperEgo, pioneiro nas doenças da segunda metade da primeira década do vigésimo primeiro século no terceiro milênio, elabora, em tom de esboço, o primeiro prontuário médico do obeso espiritual. Se você se encaixar em metade das características, parabéns! Você é a mais nova alma gorda do pedaço. Pedaço, aqui, é figura de linguagem. Não vem tascar o meu.

. Comer pizza olhando para o prato do amigo ao lado;
. Deixar apenas um dedo de refrigerante sobrando na garrafa para não assumir que bebeu tudo;
. Começar a dieta na segunda-feira de manhã e abrir exceções no jantar;
. Usar acessórios incríveis por não caber em nenhuma roupa de marca. E se achar chic por isso;
. Aceitar balinha de hortelã como troco de supermercados e postos de conveniência;
. Pedir um pedaço de qualquer coisa que outra pessoa esteja comendo; O negócio é pedir;
. Nunca oferecer um pedaço de qualquer coisa que estiver comendo; O negócio é individual;
. Creme de leite, leite condensado, catupiry e Nescau na cesta básica;
. Perguntar ao garçom se o prato é 'bem servido';
. Comer tudo o que aparecer pela frente e depois tomar café com adoçante;
. Supervalorizar uma única parte do corpo como se o resto não importasse. Ex: meus lábios são lindos.
. Depois de perder um quilo começar a falar do passado usando o próprio nome na terceira pessoa. Ex: Aquela Myrthis que você conheceu já morreu.
. Prometer e nunca cumprir com a palavra. A pessoa de alma gorda engana, leva no gogó mesmo.
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www.ego.com.br Todos os dias, em caráter excepcional, críticas construtivas e crônicas destrutivas do mundo moderno na visão de Hermés Galvão, um jornalista antiquado.
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