03/07/2007
JARDIM AMÉRICA, JARDIM EUROPA. JARDIM ÂNGELA, JARDIM PAULISTA
São Paulo ainda me choca. Não os flatos arquitetônicos de Ruy Ohtake, tampouco a falta de um espaço público minimamente aprazível ou a coluna de Joyce Pascowitch estampando as mesmas cinco pessoas de sempre. A cidade cresceu, de burgo a megalópole, e o cidadão não acompanhou a escala. Isto sim me choca imenso. Tornou-se médio, medíocre, e virou-se de costas para a rua, ignorando, até mesmo, o mau estado da calçada em frente a própria casa.
Entre quatro paredes, isolados nas mesmas referências dos tempos do café com Matarazzo, os adictos do hype se reúnem, trocam impressões repetidas e comentam, em tom de glória em guerra, suas aventuras econômicas e sociais usando três sobrenomes como posição hierárquica e cartões de crédito gold como medalhas no uniforme.
Os paulistanos não aprenderam em tempo hábil o verdadeiro sentido da palavra cosmopolita e ainda hoje acreditam que dinheiro não só cobre, mas também justifica a falta de cultura. Festas, vernissages, desfiles, brunchs, soft openings... convidados, assassinos de assunto. Nas rodas de conversa, fala-se de pouco um tudo: viagens (compras), cifras e conquistas – profissionais, antes fossem as amorosas.
Ama-se quase nada entre a fina estampa regional. Mas, de ódios contidos a rancores explícitos, todos sorriem em nome da elegância distinta. De longe, mas bem de longe, com música muito alta e champagne gelado, somos enganados (ou nos deixamos enganar) e por um golpe de ótica e aúdio temos a sensação de que aquela noite, com aquela gente, poderia estar a acontecer em Nova York – pelo menos assim reza a crença da lista vip.
Cidadão do mundo, em ipsis literis, convive em sociedade aberta, usufrui do serviço público e, quando este está longe de um nível satisfatório, é ele quem vai às ruas protestar por melhorias. E mais: deve-se ultrapassar o muro imaginário que a elite local criou entre quatro bairros que, por mais nobres que sejam, para nós, cariocas, esteticamente falando, mais parecem quebradas do distante subúrbio da Leopoldina.
Um quadrilátero cercado de mau gosto por todos os lados: casarões replicantes, ora neoclássicos, ora chalés alpinos, habitados por colunáveis repetidos e sorridentes de qualquer evento. A maior cidade da América do Sul é a prova morta-viva de que tamanho não é documento. Em níveis civilizatórios, bem comparando, Montevideo (e seus quase 1,5 milhão de pessoas) é uma Amsterdam perto disso aqui. No microcosmo que compreende o Jardins e, em casos de festas, o Morumbi, nada me faz lembrar o mito da cidade grande, maior mesmo que a própria vida.