20/07/2007
AMOR É POESIA, SEXO É CARNAVAL

Irislene Stefanelli exigiu da Playboy um castelo francês como cenário de seu ensaio de nu artístico. Ganhou da produção um puxadinho num palacete no insólito bairro do Ipiranga, em São Paulo, com o pé direito do tamanho da sua canhota. Cada um tem o que merece, não é mesmo? Mas tudo bem, o que vale é a intenção – no caso, a perereca de Iris.

E deitada de bruços sobre o sinteco da fórmica da casa (endereço não divulgado), a caipira posou de Maria Antonieta sem ao menos saber as cores da bandeira francesa. Enquanto isso, no outro lado da cidade, a nossa querida Thammy Gretchen se prepara mais uma vez para fazer a alegria das caminhoneiras deste Brasil tão pouco viril. Diz que a filha da bunda mais manjada do Show de Calouros vai protagonizar um filme pornô ao lado da ex-namorada.

O longa será lançado em dezembro e deve engrossar a lista dos DVD's homos vendidos em banca de jornal, sempre com nomes sugestivos como “O Pinto dos Infernos”, “Homem? Tô Fora” ou “Senhor dos Anais”. Gostaria de conhecer o autor destes títulos, juro que sim. No auge das minhas variações de humor, na cadência do meu ritmo ciclotímico, passo em frente a um jornaleiro e me refaço apenas lendo as capas e chamadas destas atrações.

Não me sinto atraído, tampouco excitado, com o que vejo. Realizo a convicção de que o sexo comercial tornou-se uma comédia no Brasil, antes fosse vulgar. Mais que banalizado, ele foi popularizado. Sexo cafona, feito por gente feia e nada gostosa. Anti-estético, anti-clímax. Brochei.

Relaxa e goza.
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19/07/2007
MASSA FALIDA

Não gosto de cobranças, das bancárias às pessoais. Não cobro, pois não devo nada a ninguém – intimamente falando. E nada consegue ser mais cristão que este eterno acerto de contas entre pessoas físicas e instituições falidas, jurídicas em sua mediocridade. Vivo meu saldo positivo e tem quem insista em me colocar no vermelho, além do meu limite. Acredito que nasci com cheque especial, e faço empréstimos a perder de vista quando vejo lá na frente a possibilidade de ser feliz custe o que custar.

Vou honrar minhas dívidas, mas não sei se mereço assinar suas promissórias. E não me sinto culpado por isso. Tenho crédito. Mais importante que ter dinheiro, é preciso ter credibilidade na praça – nem que seja na Benedito Calixto. Nome limpo, confiança. Dou minha palavra e ela há de valer muito mais que seus míseros trocados.

Não lido bem com o sentimento de culpa, prefiro ignorá-lo e seguir adiante, solitário em minha convicção pagã. Mas Deus está nas pequenas coisas, até no dia-a-dia de quem pensa grande. E você insiste em me fazer prestar contas daquilo que não comprei. Não me vendo, o máximo que faço é me colocar em consignação. E alguém há de retirar-me, pois sou peça-piloto.

O que queres que eu diga? Que o acidente aéreo foi uma fatalidade? Que vivo de vergonha do país que fui designado a sobreviver? Acredito no livre arbítrio até certo ponto, pois se houvesse de fato me deixaria escolher, ao menos, meu comprovante de residência. Tenho asco agora, lamento pelos que perderam seus filhos e amigos num acidente muito mais previsível do que trágico. Passei a vida tentando domar meus ódios, mas fui vencido pelos fatos. Mais dinâmicos que eu, mais velozes que minha capacidade de absorvê-los.

Tudo que posso fazer é fazer meu silêncio profundo calar-se ainda mais. Sempre tive medo da morte, ultimamente tenho medo de viver. Porque viver tem sido de um incômodo muscular. Meu remédio é minha dor, menor que a de quem acorda hoje sem sua companhia. Quero falar da vida, por mais difícil que ela seja. Mas ainda respiro. Estou no ar.

Tudo é uma questão de ponto de vista. Ou ângulo.
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18/07/2007
RAINHA DE PAUS, REI DE ESPADAS

U-hu! Para quem tem mais de 30, ou espírito suíno latente desde o berçário, esta notícia é das boas: o menino que atuou com Xuxa no clássico erótico “Amor Estranho Amor” vai lançar um livro contando suas experiências infanto-bolinadoras com a Rainha dos Baixinhos de Sodoma. No filme, para quem não sabe (duvido que exista no mundo alguém tão desinformado a este ponto), Xuxa se deita nua sobre o garoto e solta a pérola “eu sou uma ursinha macia, olha como eu sou macia”. Marcelo Ribeiro, que na época tinha 12 anos, promete contar tudo o que rolou nos bastidores do longa-metragem que deu origem a séria relação de Maria da Graça Meneghel com o universo infantil.

Mas é claro que o candidato a best-seller de jornaleiro não será publicado, afinal Xuxa sempre dá um jeito de abafar o caso quando o assunto em questão é a sua xana. Mas por que Xuxa nega tanto seu passado de modelo de borracharia? E por que as celebridades brasileiras perdem tanto tempo perseguindo e processando aqueles que ameaçam arranhar suas reputações? Para quê serve a reputação neste país sem vergonha?

Assim como a rainha, outro nobre pop cultiva o hábito de frear tudo e todos que ameaçam vasculhar seu misterioso passado. O rei Roberto Carlos sempre dá um jeito de mudar de assunto e fazer sua história em Cachoeiro do Itapemirim se diluir – e existe coisa pior que ser capixaba? É, nossos nobres não têm sangue azul, mas um passado negro que fazem questão de riscar com uma caneta vermelha.

Duas medalhas de ouro depois, o Brasil grita: Diego é bi.
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17/07/2007
WELCOME TO CONGO

Por pouco o Brasil não ganha uma medalha de ouro na ginástica olímpica. Por pouco a nadadora brasileira não termina a prova em primeiro lugar. Estamos sempre passando de raspão, sempre por um triz de se dar bem. E ainda há quem comemore o vice. O problema é esse, sabe. Seja no esporte, seja na vida sedentária, o brasileiro se satisfaz com qualquer coisa, com uma medalha de prata nos jogos onde participam delegações caribenhas e atletas subnutridos ou com um cargo de vice-secretário adjunto de repartição.

Queria saber quem foi o conformista que inventou a máxima de que o importante é competir. O importante é ser competitivo. E ganhar, ser o melhor. Não se contentar com a derrota e tampouco lamentar por ela. Aqui, fazemos as duas coisas. Por essas e outras, passados quatro dias de competições, estamos atrás da República Dominicana no quadro de medalhas. E não adianta derramar lágrimas por perder. Deixem elas para quando subir no pódio. Engolir o choro e seguir adiante. É difícil, mas quem disse que a vida é fácil?

Não falo dos outros, falo por mim. Tenho forças para acordar acreditando ser o melhor. Tenho forças para dormir sem pensar no pior. Força. Minha fraqueza é não respeitar a quem fraqueja. E sinto pena. Não gosto de senti-la, tenho raiva de mim quando sinto pena de alguém. É que não se nasce para ganhar compaixão de quem luta. Então siga, mas não peça ajuda se não souber ajudar. Cada um por si, mas conte comigo quando quiser me desafiar.

Ai, que rico!
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16/07/2007
PAN DEMÔNIO

América, América! Deu-se a abertura dos jogos pan sexuais do continente mais vigarista do mundo. Quem leu a notícia da faxineira da Vila Olímpica que foi dispensada depois de ter sido pega transando com um atleta cubano? Viva a vida! E o que era Arnaldo Antunes pulando no palco como se tivesse tomado um banho de pó de mico sobre o blazer cru? Adriana Calcanhotta cantando cantigas de ninar? Festa para boi dormir...

Tive uma pontada de vergonha alheia ao assistir a cerimônia de abertura, mas fui vencido por um estranho e sazonal orgulho de ser brasileiro ao ouvir, pelo estéreo da minha TV parcelada em 12 vezes, o eco das vaias do público que quase lotou o Maracanã na tarde-noite da última sexta-feira. Pois hei de confessar que tenho imenso prazer de fazer parte de um povo que não tem vergonha – nem critério – para vaiar. Gritar, em ritmo coletivo, pelo que não gosta. Engrosso o coro dos infelizes que, num grito sincero, libertário e catártico, levantam um ‘sonoplástico’ uuuhhhhhhhh para quem não merece, sequer, um minuto de aplauso.

Então vaiemos, simbolicamente, a delegação dos Estados Unidos, da Venezuela, da Bolívia e, por que não?, da Argentina, um país que há séculos se fantasia de bairro inglês sem ao menos fabricar uma cerveja decente para seus alcoólatras peronistas. Uma vaia saída do fundo do peito para Lula, líder da nação e símbolo da cafajestice nordestina em Brasília. Prestem atenção no que escrevo, pois quem me lê entende o que sinto. A única manifestação popular que apóio é a vaia. E que o mundo, ou pelo menos parte ínfima dele, nos ouça.

Fez-se a luz no Rio de Janeiro, acesa a chama voltei para dentro de mim e revisitei minha infância, minha vida, minha história. Pois o Rio tem história para contar. O enredo é triste, mas existe. Queira você, plantonista mal assalariado da Folha de S. Paulo, quer não. Como diria meu pai, entre a dor e o nada eu fico com a dor. Dor de ser carioca. Ferida aberta, sangue latino.

Já era.
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13/07/2007
TGI FRIDAY'S

Estamos tão longe de tudo que nos voltamos para dentro e passamos a construir, baseados em referências de revistas amenas e programas de auditório, uma identidade própria e nem por isso peculiar. Seguimos os piores exemplos, imitamos os melhores momentos quando o mundo inteiro já está a seguir cenas do próximo capítulo.

O Brasil vive um delay de 20 minutos em relação a uma boa idéia, nosso fuso é tão fracionário que até a mais pontual das criaturas chega atrasada quando o assunto é simplesmente tê-lo. Não há edição de influências. No grande estômago cultural que se deformou no país, digere-se de tudo, come-se todos, expele-se dejetos intelectuais e releituras de propostas inteligíveis, vomitivas.

E na inutilidade absorvente da inteligência nacional, criou-se o mau caráter multimídia de desocupados e esvaziados dublados de artistas experimentais. E o que faz exatamente um multimídia? Um multimídia é todo aquele que faz de tudo um pouco, e tudo que faz, faz mal. Mal feito e mal para a saúde de quem vê.

Tenho um mórbido hábito de visitar blogs e sites alheios, sempre à procura de algo que me choque, que me sorria, que me faça virar o rosto e olhar para o lado em busca de alguém que entenda o tamanho da porcaria na qual fomos metidos. Contos diários do vigário, truques de informação, jogo de palavras sem sentido que confundem o leitor comum, um semi-analfabeto de entrelinhas.

Ignorância assistida esta, a minha. Por pouco, quando muito, não caio no absurdo de procurar entender o que se passa por aqui. Passa nada, a loucura é esta. E já que é assim, sigo a me divertir, bastante, destacando as barbaridades que delinqüentes do factual apresentam para o irrespeitável público. Ando confuso, como a cabeça de quem lê.

Como diz a fraude, em recente texto de latrina, uma mistura de clown, Commedia del'Arte, butô, candomblé, vogue, samba, genderbending, clubbing, crossdressing e dança-teatro. Isso que dá sobreviver à distância dos bons olhos. Somos distantes, isolados, esquecidos. Deixaram-nos para trás e ficamos à frente de nós mesmos por falta de opção – cara a cara com uma miserável existência.

Frango ou carne?
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12/07/2007
ESPÍRITO OLÍMPICO

Contrariando todas as previsões, surpreendendo os agourentos, vencendo ebós e levantando suspeitas, o Rio de Janeiro abre hoje a sei lá que edição dos jogos Pan Americanos, a Olimpíada do submundo com a participação dos atletas nível C dos Estados Unidos e de países que nem deveriam existir, como a nação e dupla sertaneja São Vicente & Granadinas e o improvável Suriname. Afinal, alguém me diz para quê serve o Suriname?

Com a presença de 659 esportistas, o Brasil joga na berlinda a maior delegação do torneio. Mas até domingo, metade destes atletas deverão estar fora do páreo, eliminados na primeira rodada de jogos que você, assim como eu, jamais imaginou ser praticado por aqui – como badminton, por exemplo. Mas a maioria dos atletas já se sente vitoriosa só pelo fato de estar neste exato momento mordendo um bife no refeitório da Vila Olímpica ou dividindo um quarto de alojamento com apenas duas pessoas estranhas – e não oito, como acontece na casa do corredor de Cuiabá.

Na euforia dos jogos, na eterna mania de se sentir maioral em tudo, principalmente quando a comparação é nivelada por baixo (de quê adianta ser, por exemplo, a nação mais rica da América do Sul?), o Brasil inscreveu todo mundo que passou pela porta dos fundos do COB . Pergunte a seu vizinho nadador, que há 5 anos treina na banheira do seu prédio, se ele não foi acidentalmente credenciado para as provas de 100 metros rasos em Deodoro?

E tem promessa (ahahahah) brasileira no softbol, hóquei sobre grama e boliche. Mas ouvi dizer, láááá no Engenhão, que vai ter medalha mesmo é no tiro ao alvo. Do turista acidental. Cuidado que lá vem bala. Mas uma coisa é certa: jamais duvide da capacidade do Rio de Janeiro de surpreender. Assim como o Rock in Rio, Live Earth, o Papai Noel no Maracanã, o Papa no Aterro e outros mega acontecimentos que só a cidade consegue suportar, o Pan 2007 corre o sério risco de dar certo. Vai duvidar?

A pira do vovô não sobe mais (bis).
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www.ego.com.br Todos os dias, em caráter excepcional, críticas construtivas e crônicas destrutivas do mundo moderno na visão de Hermés Galvão, um jornalista antiquado.
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