31/07/2007
HA DE HAVER, SER DE EXISTIR

Soube que Marina Lima disse em recente entrevista que o mundo era gay. Como o ser humano e individualista, nao? E soube que Irislene Stefanelli decepcionou em sua estreia na TV. Como o ser humano e previsivel, nao?

E sigo minha viagem rumo ao centro da Terra, na cadencia do ultimo metro, sem acentuacao e com pequenos erros de portugues escrito e ingles falado. Soube que a TAM continua operando, que passageiros ainda procuram a companhia – terceira colocada mundial em desastres aereos, so perdendo para a Zambia Airlines e Lineas Aereas de Guatemala – e que Congonhas funciona como se fosse o aeroporto de Chicago. Como tem me faltado assunto, nao?

Vai dai que eu vou daqui. Meu verao ta que ta. Calor em cinco minutos, chuvas ocasionais e uma vontade louca de afastar as nuvens com um sopro de vida. E o friozinho no Rio e em Sao Paulo? Todo mundo tirando aquele trench coat comprador em Buenos Aires, casais tomando vinhozinho Salton e afundando pao dormido no fondue?

Ja confirmou sua reserva no chale alpino do Gramado German Palace com direito a café da manha colonial? Vamos la, pe na estrada, todo mundo a caminho de Campos de Jordao, a Gstaad da haute crasse media paulistana. Vejo voces na volta. Me vou. Me leva. Me deixa. Me lembra, nao me esqueca. Ate.
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30/07/2007
SWINGING LONDON

Desde 1 de julho, esta proibido fumar em lugares fechados na Inglaterra. Novos ares, novos cheiros. Antes, pubs fediam a mofo e tabaco, agora tem odor de agua sanitaria e suor. Londres vem perdendo sua verve libertaria, apesar de cada vez mais estrangeiros cairem por aqui em busca de uma liberdade de expressao controversa e fora de proposito.

Cada vez pode-se menos, cada vez vigia-se mais. A ultima sodoma do mundo aderiu ao movimento pela reforma moral. E velhos transgressores, hoje, parecem palhacos de um circo onde a ultima atracao se apresentou no fim dos anos 90.

Pois fazia oito anos que nao colocava os pes em Londres, sem nunca entender exatamente porque demorei tanto para voltar a terra onde vivi parte da minha juventude em espirito transviado. Tinha medo de que a magia se quebrasse, que o mito que havia criado em torno da cidade se desfizesse.

E foi assim que aconteceu: ao ouvir a voz da locutora do metro anunciando a estacao onde entrei e sai por tantas manhas de frio lembrei do ruim, do cinza, do obscuro, do decadente. Da Londres que ninguem ve a olho nu, do vai-e-vem de perdidos que sempre procuraram inventar novas modas, novos caminhos e novos desafios para vencer o tedio inevitavel da vida comum inglesa. Assim era, assim sempre foi. Agora nao e mais. Londres continua a mesma. Nada mudou para melhor.
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27/07/2007
ALAGADOS, FAVELA DA MARE

Eu tardo, mas falho. Continuo a solta, preso apenas por um fio que vez ou outra me faco puxar para que nao saia voando por aqui. Agora estou seco, mas chove la fora e aqui faz tanto calor.

Os londrinos esperavam por um verao mais seco, menos monconico. Fora os indianos e os paquistaneses, todos estranham o fluxo pluvial que desce de um ceu cinza jeans.

E continuo a procura de mim, as vezes me encontro. Mas e so dar de cara comigo mesmo que ja abro fuga e me viro de costas para fugirdo inevitavel. Mas ainda consigo adiar o encontro, enquanto puder continuarei fantasiado de bon vivant ate que meu cartao de credito deixe de passar.

Ate la, um viva em caixa alta para o melhor da vida. Estou feliz agora e sem um pingo de preocupacao. Mas tudo pode mudar, com a mesma velocidade que as nuvens passam sobre a Inglaterra.

Ate segunda. Desculpem o atraso.
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26/07/2007
PENSO, LOGO DESISTO

Serei rápido e rasteiro. Continuo de férias, solto na sujeira do Sébastopol em busca de um cyber onde pudesse sentar e escrever mais um capítulo do nosso blog. E como estão as coisas por aí? Antônio Carlos Magalhães já ressuscitou em forma de Licia Fabio? A Bahia vai emendar o luto oficioso com o Carnaval de 2008? Descobriram o motivo que levou o avião da TAM bater a 200 por hora ao lado do posto de gasolina localizado a 200m da pista de Congonhas? E a pira Pan? Continua apagada?

Parece que foi ontem, mas foi anteontem. Cheguei com vontade de ficar mais um pouco, talvez estender minha temporada por tempo determinado pelo meu timing emocional. Ainda falta, mas é que sofro por antecipação. E hei de esquecer as horas para que elas passem tão depressa a ponto de eu esquecê-las, ou, se nao for pedir demais, que elas esqueçam de mim.

Agora estou tão livre que vou me perder outra vez, sair deste cyber fétido de odores magrebinos e sentir o calor de um verão parisiense, vazio de intelectuais de Café de Flore ou viajantes do tipo cool que se prometem passar por locais na intenção de não serem confundidos com turistas comuns. Experimentar o comum da vida é minha tarefa de agora, mais que a busca pela simplicidade procuro ser o mais comum possível. Meu exercício, minha meta, minhas férias.
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25/07/2007
JOGO DA VIDA
Mais por falta de interesse que de tempo deixei de lado meu lado noveleiro. E com o passar dos anos perdi o hábito de assistir TV. E o andar da carruagem. Porém, ao contrário da vida real, não me desliguei por completo do mundo ficcional e, no sobreaviso do meu stand by imaginário, fico ligado a espera de um bom motivo que me faça jantar de frente para o horário nobre.

Atendendo a pedidos, na escuta dos comentários de boteco e fila de padaria, acompanhei um par de capítulos de Paraíso Tropical – a idéia era ver a atuação de Camila Pitanga que, dizem, roubou a cena da protagonista Alessandra Negrini – que, dizem, não deu cor à vilã imaginada por Gilberto Braga. Pelo que me lembro, as megeras do autor são um presente tanto para quem atua quanto para quem assiste. Bem, não nos atemos à esta questão. O roteiro de hoje é outro.

Nestes dois dias rocambolescos, enquanto observava o desenrolar da trama, percebi que muita coisa mudou no dia-a-dia dos personagens. O mundo moderno tirou do ar elementos cruciais para a formação de intrigas, conspirações e vinganças. Por exemplo: não há mais cartas anônimas, afinal não faz sentido trocar cartas em tempos de e-mail? E também deram fim aos trotes, pois seria inverossímil demais fazer um telefonema anônimo quando todos os aparelhos têm bina.

Agora, atuar como mau caráter requer crueldades mais atuais, como sequestro e assassinato, ou muito elaboradas, que demoram imenso tempo para ter um desfecho trágico. Só as donas-de-casa têm paciência para esperar o final feliz. Acredito, até, que suas vidas sejam pontudas de acordo com os capítulos. Tipo: hoje, dia que Mirtis Moreno vai casar com Belisário, vou preparar a 'janta' mais cedo para não ter aporrinhação na hora da minha novela.

As novelas se atualizaram, estão de acordo com os tempos de hoje, com exceção das novelas das seis, sempre de época e sempre de matar de tédio – a propósito, vi Malu Mader de relance, em cena. Fiquei meio chocado com seu corpinho, tá tipo a Matilde Mastrangi. Bem, mas isso é um detalhe. As novelas estão realistas demais. Talvez por isso eu tenha me cansado delas. Sou um bocado antiquado. Tenho saudades do que um dia assisti. E do que não vivi. Minha história é colorida e minha memória, em sépia.

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24/07/2007
QUESTIONÁRIO PROUST

Sempre quis saber mais de mim, mas não consegui me aprofundar no amor próprio tampouco na auto-estima. Ainda assim gosto de mim e, se eu não fosse eu, gostaria de me conhecer melhor qualquer dia desses. Quem sabe um chopp sem compromisso depois do expediente ou, por que não?, um cineminha seguido de amassos no carro em frente ao prédio? Pensando bem, vou arriscar e rabiscar aqui, neste espaço dedicado por mim – mas não a mim – um raio-X da minha tão estranha personalidade.

A partir de hoje, sem os honorários suspensos da minha analista (saudades de você, Mônica: assim que tiver um dinheirinho, volto correndo para seu divã), vou mergulhar no rasinho profundo da minha existência e compartilhar com vocês meus segredos e desejos. Comecemos, então, pelo dicionário Proust – um clássico do jornalismo de poucos resultados, mas que salva a vida de entrevistadores desprovidos de perguntas pertinentes. Lá vai.

1. Qual é sua maior qualidade? Sinceridade.
2. E seu maior defeito? Sinceridade.
3. A coisa mais importante em um homem? Sinceridade.
4. E em uma mulher? Falsidade.
5. O que você mais aprecia nos seus amigos? Paciência.
6. Sua atividade favorita é... Comprar roupa.
7. Qual é sua idéia de felicidade? American Express Centurion.
8. E o que seria a maior das tragédias? Engordar.
9. Quem você gostaria de ser, se não fosse você mesmo? Eu não sou eu mesmo.
10.E onde gostaria de viver? Londres.
11.Qual sua cor favorita? Azul marinho.
12.Sua flor? Não sei o nome de nenhuma delas, mas detesto rosas.
13.Um pássaro? Pavão.
14.Seus autores preferidos? Truman Capote e Gay Talese.
15.E os poetas de que mais gosta? Lord Byron.
16.Quem são seus heróis de ficção? Todos os anti-heróis.
17.E as heroínas? Não sei.
18.Seu compositor favorito é... George Gershwin.
19.E os artistas que você mais curte? Charlotte Gainsbourg, Radiohead e Carpenters.
20.Quem são suas heroínas na vida real? Não tenho.
21.E quem são seus heróis? Meus irmãos.
22.Qual é sua palavra favorita? Terra.
23.O que você mais detesta? Atraso.
24.Quais são os personagens históricos que você mais despreza? Raul Seixas, Padre Marcelo Rossi e Anthony Garotinho.
25.Quais os dons da Natureza que você gostaria de possuir? Fotossíntese.
26.Como você gostaria de morrer? Sedado.
27.Agora, já, como você está se sentindo? Pressionado.
28.Que defeito é mais fácil perdoar? Todos.
29.Qual é o lema da sua vida? Amanhã é tarde.
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23/07/2007
MORTE E VIDA, SEVERINA

ACM morreu, antes ele do que eu. Depois da tragédia com o avião da TAM, Deus olhou para nós, pobres de nós, e compensou o desfalque levando embora um homem que valia por 200. Já vai tarde, Antonio Carlos. O homem mais corrupto do planeta se foi do jeito que mereceu: sofrendo.

Não tenho pêsames para dar a seus familiares, sinto verdadeiro desprezo de seu legado e tudo que envolve seu nome e sobrenome. ACM foi sujo, mentiroso, mafioso e viveu impune, se livrou de acusações e reinou soberano sob aprovação de seu eleitorado baiano, igualmente salafrário.

Seu enterro foi digno, digno de pena. Duas mil pessoas acompanharam o velório, entre elas políticos que roubam nosso dinheiro diariamente, celebridades do Recôncavo e representantes da Associação das Baianas de Acarajé e Mingau.

As quituteiras sindicalizadas vestiram branco, cantaram, rodopiaram, fritaram uns bolinhos e evocaram uns santos enquanto ACM cantava para subir. A Bahia está de luto. Eu estou de férias. Até seis de agosto estarei fora de mim e completamente no ar.

Por onde estiver, e enquanto houver um cyber café fedorento em algum ponto eqüidistante entre St. Denis e Vauxhall, mandarei sinais de vida – caso o vôo da TAM cumpra sua rota sem avarias. Axé.
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www.ego.com.br Todos os dias, em caráter excepcional, críticas construtivas e crônicas destrutivas do mundo moderno na visão de Hermés Galvão, um jornalista antiquado.
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