09/08/2007
OVERDOSE

Nada é mais careta que a anorexia. Sem profilaxia, sem glamour, sem graça. O anoréxico é, antes de tudo, um cafona - por ser limitado e reprimido voluntário. Não existe razão para privar-se de um prazer, seja ele qual for. Gosto de quem peca pelo excesso, já que o equilíbrio é uma utopia positivista inventada por algum budista novaiorquino que morreu de velhice. Por isso, meus votos sinceros de felicidade à todas as loucas varridas, viciadas e alcoólatras do mundo.

Pena que por aqui tudo é tão letárgico. Antes fosse lisérgico. Morro de tédio das celebridades brasileiras. Será possível que nenhum famoso por aqui é competente o suficiente para fazer um escândalo? Ou dar uma boa festa? Sempre pensei que a baixaria rolasse longe dos olhos da imprensa e que, na intimidade do lar, noitadas de loucura acontecessem entre globais e convidados satélite que entram nas listas vips como +1. Mas não, nada. Tudo flat, frapê, plain.

Do primeiro ao último convidado ilustre a mesma cara, de nada, no máximo uma idazinha ao banheiro para driblar o efeito do álcool. Mas até aí eles são caretas. É um tal de eu isso, eu aquilo, Paris isso, Londres aquilo. Se foram as bichas-loucas, as porras-loucas, as marias-loucas. Acabou a festa.

Qual o traje?
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08/08/2007
ALSO SPRACH ZARATHUSTRA

Disseram por aqui que andei me aproveitando de Nietzsche para engrossar o caldo deste blog. Uma tentativa de insulto que se transformou no maior elogio que já recebi na vida. Pois trato-me de maneira frívola e por vezes mergulho tão fundo na minha superficialidade que me afogo em pensamentos interrompidos por falta de vocabulário.

Acho sempre que poderia ser mais, ter feito mais. Sou tão egoísta que me uso como parâmetro e acredito muito na possibilidade de ver grande parte do mundo do alto de minha prepotência. Sou simples, simplesmente desinteressado pelo homem. Um projeto divino que não deu certo: o ser humano é um fracasso de crítica, um sucesso de público.

Desinteressado que sou, juro de pés juntos e com naturalidade assumida que jamais, em tempo algum, li pelo menos um parágrafo de alguma obra de Friedrich. E passarei a vida sem abrir uma página de sua obra. Sempre detestei filosofia, pois me chateia imensamente pensar no que os outros possam estar pensando sobre os outros. Penso em mim, penso no que sou, penso se estou.

Estaria eu filosofando ou apenas me dando ao trabalho de pensar? Pensar é um ato de filosofar ou apenas uma condição humana de quem vive além da própria capacidade? A minha de entender o que Kant, Schopenhauer, Hannah Arendt, Engels ou Rosa Luxemburgo é tão pequena quanto a própria existência do homem contemporâneo. Menor, até, que minha importância.
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07/08/2007
CITIZEN

Ouvi falar da campanha Cansei, um movimento que, dizem os jornalistas de esquerda do jornal de direita, foi criado pelos ricos para protestar contra o governo, o caos aéreo e agir em prol da cidadania. Soube, inclusive, que o ex-Lulista Zezé di Camargo e o retocado João Doria Jr aderiram ao grupo. Mas do quê exatamente eles estão cansados?

Os simpatizantes do Cansei já fizeram o primeiro levante. E contam com a ajuda de colunistas sociais para emplacar a causa a curto prazo. Houve, até, uma passeata em São Paulo, há pouco mais de uma semana, que reuniu algo em torno de 6 mil pessoas – ou seja, todos os ricos da cidade. O encontro aconteceu no parque do Ibirapuera, coisa de duas quadras da casa dos manifestantes. O local escolhido foi providencial, numa otimização de compromissos eles marcharam 2 quilômetros gritando 'respeito, respeito' e correram outros dois com seus personal trainers.

Não fui, pois, além de pobre, rejeito manifestações de qualquer natureza. De ato cívico a Carnaval, corro no sentido contrário e exerço minha cidadania de apenas uma maneira: não incomodando os outros. Não faço barulho, não olho para vizinhos, não sorrio para estranhos e não falo com desconhecidos em fila de banco, supermercado e afins. Sinto-me civilizado por isso, não exijo nada da sociedade além de respeito ao espaço alheio e um pouco de educação no lugar de uma simpatia mentirosa.

Fico exausto só de pensar na possibilidade de conversar sobre cidadania com algum integrante do Cansei. Ontem à noite, a caminho do Ibirapuera, onde suo a camiseta para manter a pose de rico, quase fui atropelado ao atravessar a rua que dava acesso ao parque. A tipa pilotava um carro, destes grandes e assustadores, e sequer abaixou o vidro para me pedir desculpas. Tenho a mais absoluta certeza de que ela é do Cansei.

Eu fui.
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06/08/2007
MAU, MAL

Desconfio de pessoas boazinhas e tenho problemas de relacionamento com elas. E sinto calafrios quando ouço palavras de conforto saídas de suas bocas otimistas. O bom moço, a boa menina, são, para mim, dissimulados e perigosos. E acredito que são assim pois se Deus existe os fez deste modo já que o mundo não nasceu preparado para escutar o que eles realmente pensam sobre todas as coisas.

Talvez sejam impressões horríveis, medievais, votos de desprezo. A bondade é virtual, não virtuosa. A verdade é cruel, a maldade é sincera. Não falo em fazer o mal, tampouco falar o mal, mas exercitar o lado bom da maldade. Tirar o sentido cristão do termo, dissociar o diabo do sombrio. Pois é preciso exercitar o obscuro, apagar a luz própria e se enxergar no pior dos lados. Para em seguida ver o bom e exercê-lo por opção, não por obrigação.

O bonzinho mente para todos, para si mesmo. Não por maldade, por falta de identidade. Só se vê assim, é incapaz de apontar o mal. Mas o mal existe e tem a mesma força. O mal também é necessário. O bom é capaz de julgar, pois o mal é passível de julgamento. E que boa idéia é esta de dividir o mundo entre pessoas do bem e pessoas do mal? Quem é mau? Quem é bom?

O bom é capaz de coisas que até mesmo a mais perversa das criaturas imagina. O bom só faz o bem em benefício próprio. E quem faz o bem para os outros está acima do bem e do mal. Paz na Terra aos homens de bem.
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03/08/2007
SINDROME DA CHINA

Ok, todo mundo sabe que os chineses invadiram o ocidente. E que nao e de hoje que eles estao por toda parte, da lojinha de R$ 1.99 do seu bairro ao restaurante mais gorduroso da cidade, onde tudo e qualquer coisa de quatro patas vira prato principal - ate mesa.

Agora e outra China que aparece no mapa. Saem de cena os imigrantes dim sum, as quinquilharias e as ervas de uma medicina que so funciona em Pequim e entram no jogo o requinte da culinaria mandarim, o poder de damas e cavalheiros de Xangai.

Dinheiro gera fascinio, e vice-versa. Vai dai que Londres esta encantada com o novo mundo trazido pela China capitalista, muito diferente daquele cenario agridoce e mafioso de Chinatown (ou Liberdade). Alta gastronomia, baixo teor calorico, iguarias sem traducao para o portugues e que eles, aqui, nunca ouviram falar nem mesmo em ingles. Peixe manteiga?

Dois dos restaurantes mais caros e disputados do Soho sao chineses. E pertencem a mesma pessoa, um cidadao Kane de Tianjin, que faz questao de manter em seu staff apenas garcons de origem japonesa. Vinganca! No cardapio, ha pratos que precisam ser pedidos com 24 horas de antecedencia – para sair do forno na hora de sua reserva.

Na lista de chas, os ingleses sao cortesia. E uma infusao chinesa chega a custar £ 80 o bule. Agora Earl Grey e gafe, e o afternoon tea vem acompanhado de biscoitinhos da sorte. E os britanicos sorriem com a mesma cara sonsa de sempre, pois vendidos como sempre foram, vivem felizes com a injecao de dinheiro intra-venosa na economia caduca de um ex-imperio aberto a todo tipo de investimento pesado. Os chineses chegaram la, digo, chegaram aqui. Merito deles. By Appointment to Her Majesty The Queen.
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02/08/2007
NA RODA GIGANTE

Aparentemente ja nao somos tao diferentes de todo mundo. Estamos iguais, gostamos das mesmas coisas, ouvimos as mesmas musicas, vestimos as mesmas roupas e morremos do mesmo medo: o de ser confundido com algo que nao gostariamos de ser. Passamos por brasileiros desclassificados ou por eslavos desqualificados num piscar de olhos da primeira impressao.

Entre milhoes de passageiros imigrantes e turistas itinerantes, na agonia de um metro claustrofobico, tento desviar a atencao de quem nao espera sua estacao chegar a bordo de um tabloide gratuito. Pois, nao vou chamar para mim nada alem de uma rapida observacao. E o leitor precisa entender que na uniformizacao dos sentidos tudo que desejo e passar batido na correria do dia-a-dia. Nao somente sumir.

Ser invisivel aos olhos de quem nao ve, transparente para aqueles que nao se enxergam. Ser apenas mais um, entre tantos, trocando de estacao como quem troca de opiniao. Mudando de ideia como quem muda de roupa. Agora falta pouco, segunda-feira ja sera hora de Brasilia. Hora de trabalho e de novos movimentos. Para frente, para tras. Para os lados e para cima.

Sinto falta de certas coisas, nao necessariamente saudades. Pois nao gosto da palavra saudade, nem de senti-la. Porque para mim a saudade da e passa, a matamos antes mesmo de sentir a dor da falta, da perda. Gosto mesmo e de sentir falta, para que eu me sinta ate o limite do insuportavel. Agora chega.
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01/08/2007
POP BOUTIQUE

Antipatizo a media distancia qualquer movimento popular. Todas as frentes pop poluem a visao, ensurdecem os ouvidos e alteram o paladar. Tenho pouco tato para lidar com o pop. Pois nao tem como gostar sendo parte do povo, fora sociologos e pintores quem mais levanta a bandeira da cultura de massa corrida que rebaixou toda e qualquer arte do teto ao piso?

Enfim, estou na matriz do pop de carater renovador, muito embora e por hora nao se veja nada de inventivo nos arredores. Mas agora a moda nas ruas vem de dois referenciais fortissimos de um movimento de cintura tamanho 34 que sempre fascinou os ingleses. Depois, muito depois de Twiggy e, de leve, passado o reinado de Kate Moss, crescem na swinging as figuras de Victoria Beckham e Pete Doherty.

Meninos vestem-se e andam como ele, o ultimo remanescente do punk suburbia que terminou quando ainda usava terninho e calca curta na escola anglicana de Hackney Central. Garotos de agora, dos 15 aos 17 anos, que cresceram ouvindo Robbin Williams, hoje desfilam suas esgoeladas calcas skinny, acendem cigarros sem ao menos saberem tragar (eu comecei assim e agora tremo por nao poder fumar) e dispensam a companhia de meninas para editar seus filmes de i-Phone na loja da Apple.

Do outro lado da rua, garotas seguem os passos de Victoria, ex-Spice que no fim dos anos 90 tentou convencer o mundo de que a mulher inglesa tem sex appeal. E o grupo vai voltar, alias, ja voltou. Em bares e pubs especializados ouve-se Spice Girls e… New Kids On The Block. Forcando a barra, mas uma hora pega - como o estilo de Victoria. Nos tabloides, editoras de moda ensinam teens a se vestirem como ela gastando menos de £ 50 nas lojas genericas. Facil, caso metade das garotas nao fossem obesas. Sim, o pop engorda.
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www.ego.com.br Todos os dias, em caráter excepcional, críticas construtivas e crônicas destrutivas do mundo moderno na visão de Hermés Galvão, um jornalista antiquado.
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