17/08/2007
HER NAME IS LOLA
O Rio de Janeiro continua sendo. E eu estou aqui. Do décimo andar, vejo a praia e o vai-e-vem de turistas com suas acompanhantes que operam no mercado pago. Fazia anos que não circulava pela Atlântica, quando carioca residente evitei andar por esta orla impregnada de pobres pedintes, carentes de dinheiro e amor. Transeuntes de um bairro povoado por órfãos, foragidos, forasteiros. Nordestinos, Virgulinos, Severinos...
Ainda há algo de excitante no ar, algo, talvez, que venha do odor do submundo, dos inferninhos em vermelho neon e do perfume rosa mosqueta de uma Judite qualquer rebatizada de Stephanie quando mudara de vida - e talvez de sexo. Copacabana de uma infância, a minha, avistada por uma janela com vista para outra janela. Dos dois quarteirões que separavam o mar da casa de minha avó, do primeiro Mc Donald´s do Brasil e das filas que se formavam em sua porta para experimentar o mitológico sundae de caramelo.
Costumava tomá-lo devagar, uma colheirada por suspiro. E no caminho de volta, já lambendo as beiradas do copo, seguia as curvas do calçadão andando apenas pela parte branca das ondas desenhadas com pedras portuguesas. E assim corriam os dias, Copacabana não mudava a olho nu. As transformações aconteciam sem ao menos tomarmos conhecimento. Um dia, a sorveteria Alex se foi. No outro, a Confeitaria Colombo. Na semana seguinte, duas lojas fecharam as portas, as que restaram foram adaptadas para os tempos modernos. Não há mais coiffeur, boutique ou traitteur.
Travestis ainda passeiam de dia, quase cocotas, mas já atravessam a rua quando se percebem observadas. Fim da naturalidade de uma natureza complexa, mas ao mesmo tempo simples e tão conivente com Copacabana. Agora vou dormir. De janela aberta. Para ouvir o que Copacabana tem a me dizer. Ainda ouço barulhos de 20 anos atrás, como se minha avó estivesse no quarto ao lado. Talvez esteja. Tudo por aqui é estado de espírito. Por menos elevado que seja, por mais superior que possa estar. Aqui do décimo andar ou lá no nivel do mar, uma única sensação. A de que Copacabana pulsa. É bom olhar para a Avenida Atlântica. Sinto-me vivo.
16/08/2007
VIDA DE ARTISTA
Ando sensível. Soube, por terceiros, que Debby Lagranha tentou assumir publicamente que sofreu de depressão infantil. Mas alguém interessado em se expor para o país inteiro falaria uma coisa dessas logo no programa de Astrid Fontenelle? Ok, quem mais neste mundo se interessaria pelo caso de Debby?
Segundo ela, a atriz (e não a entrevistadora), sua doença foi causada por excesso de trabalho. Até onde sei, pessoas ficam deprimidas por falta de ocupação. Mas não vamos nos ater a pequenos detalhes. Falemos de Debby e de sua psiquê conturbada.
Todos sabem que SuperEgo nutre uma obsessão íntima pela pessoa de Debby, símbolo-maior do universo dos astros mirins – ex-astros, neste caso. Um mundo paralelo onde crianças sustentam os pais com o salário pago pela TV – mães adoram dizer que abriram uma caderneta de poupança para os filhos atores, uma desculpa vintage – e são criados para acreditar que o fato de serem precoces (o termo aqui é usado para denominar pessoas que ganham dinheiro antes de ganhar o primeiro sutiã) os tornam melhores que seus amiguinhos da mesma idade.
Pois Debby sempre foi muito a frente de seu tempo. Imagina só alisar os cabelos pela primeira vez aos dois anos? Aos quatro, a primeira progressiva, aos seis a primeira definitiva, aos 12 uma regressiva para domesticar o encrespado e recentemente, aos 15 ou 16, uma escova compulsiva aliada a um corte que transformou seus cabelos num capacete a prova de choque, de balas e, claro, a prova d’água. Passada uma década de carreira, Debby diz, confiante, que é uma veterana. Uma verdadeira iniciada. Falou a voz da experiência. Deprimi.
Assista, com semi-exclusividade (duvido que alguém tenha visto o programa de Astrid), a revelação dèmi-bombástica de Miss Lagranha, a Drew Barrymore de Jacarepaguá.
CLIQUE AQUI, VAI, CLICA.Tem uma ponta pra mim?
15/08/2007
O DONO DA HISTÓRIA
Não tenho o hábito de ler entrevistas com celebridades brasileiras, até porque todas elas têm o mesmo discurso pontuado por frases prontas que fazem o leitor acreditar que são heróis fora da ficção. Enquanto esperava, sentado, meu embarque para o Rio de Janeiro, tirei do fundo da mala um magazine no qual estava destacada uma entrevista com Reynaldo Gianecchini. Para matar o tempo e a curiosidade – e não a aeromoça – dediquei alguns minutos da tarde à reportagem que não prometia nada além de um retrato engessado do galã mais cobiçado do país.
E lá estava ele, Reynaldo, com a cara de quem não daria a menor satisfação para satisfazer curiosos. E lá estava o repórter, em sua tentativa frustrada de arrancar do entrevistado alguma informação que mudasse os rumos da história. Houve um dia que acreditei que fazia parte do ofício do ator deixar a sua intimidade ser vasculhada a ponto de torná-lo não só uma pessoa pública, mas também um banheiro público onde pudéssemos lavar a alma e limpar as mãos ao saber que ele, o famoso, tinha uma vida tão normal e banal quanto a nossa. Me enganei.
Celebridades brasileiras têm uma rotina entediante. Pensei que havia algo para esconder. Mas descobri que não existe nada para falar. Então ficamos combinados que o melhor enredo é aquele no qual somos protagonistas. E, por mais lindo e talentoso que seja o ator, nada supera a nossa trama pessoal. Vai dizer que a sua vida não renderia um ótimo livro, uma boa novela ou um grande filme? Não?
14/08/2007
TOPA TUDO POR DINHEIRO
Dinheiro traz felicidade, mas em alguns casos faz perder a dignidade. Acabo de ver o comercial onde a atriz Adriana Esteves vende, com cara de limpinha, um sabonete para a assepsia das partes íntimas. E para convencer o telespectador de que ela usa mesmo o tal sabão de perereca, seu marido Vladimir Brichta faz uma ponta dizendo: “Ela faz isso por mim”. Que elegante, não?
Se havia alguma magia em torno do casal, bonito, acabou. Não dá para admirar alguém que assuma publicamente sua intimidade a custo de cachê. Ou faz de graça, para divertir o povo, ou fica quieto. Pois privacidade não tem preço, sendo assim quem quiser se expor que faça por diletantismo. Por prazer. Ou vontade de aparecer. Mas nunca por dinheiro.
E já que era para colocar a vagina na berlinda, que pelo menos posasse nua. Assim teríamos um caráter artístico na causa e, certamente, mais rentável para a garota-propaganda de detergente de xana.
Nem uma coisa, nem outra. A curiosidade em torno da vagina de Adriana Esteves se foi pelo ralo, junto com a espuma de Dermacid. O que antes era objeto de desejo agora tem fins farmacêuticos. Medicinais. Puramente anatômicos. Adriana Esteves aqui, mas já não está mais.
Eu uso Vagisil.
13/08/2007
PALAVRAS APENAS, PALAVRAS
Era tão insignificante que esqueci de cumprimentá-lo ao surgir naquela mesa para quatro. Lá estava ele, mas era tão coisa nenhuma que não gravei seu rosto e também não posso precisar seu nome. Chamemos de Caio. Peguei sua conversa pela metade, mas para bom entendedor aquele fim de papo bastava para compreender seu raciocínio. Caio estava a falar mal de um desconhecido, em tom de fúria e com ar de desdém. Parecia praxe entre os amigos daquela roda louvar o nome de estranhos em vão. Fofoca mesmo.
E Caio enchia o peito toda vez que o desejo de tripudiar a vida alheia tornava-se incontrolável a ponto de deixá-lo sem fôlego para terminar uma frase completa de verbos, ações, sujeitos e predicados. Em suas orações, o termo ‘uó’ era vírgula e todos seus transitivos mereciam palavras de baixo calão como acompanhamento. Caio era direto, mas não sabia exatamente o que estava a dizer. Mas era preciso falar, contar as impressões da noite anterior e mostrar sobre a mesa que suas opiniões eram tão importantes quanto a sua presença no aniversário de Preta, Nêga e Morena.
Branco como ele só, deixou o Rio de Janeiro sem ao menos tomar um bronze. Pareceu-me cinzento, uma aura sombria. Diz que tripudia pessoas más, acredita que o mal está naqueles que não gostam de seus amigos e que o bem mora no coração de quem concorda com suas palavras. Assim sendo, Caio é do bem. E todos aqueles que não gostam dele são do mal. Caio é de uma crueldade simplista, ataca quando não se pode defender. O conforto foi saber que naquele momento, por pura coincidência social, alguém em alguma mesa, em algum restaurante de meia tigela, também acabava com a sua pequena reputação.
Não que tivesse escutado, mas é tudo tão óbvio, tão comum, tão previsível. Como Caio. Dividiu-se o mundo entre bem e mal, como nos tempos medievais, e por acreditar cada vez mais no poder da minha palavra fico com a dúvida cruel de não saber exatamente aonde devo me encaixar. Só sei que na mesa de Caio não poderá haver lugar para mim.
10/08/2007
FORA DO AR
A atendente Waldeci, da NET, atende a meu chamado. Era a quinta vez que ligava para a central de relacionamento, a fim de entender as razões pelas quais passei as últimas 48 horas fora do ar – sem TV e sem Internet. Já se passaram três dias e estou completamente isolado, abandonado e carente. A última vez que me senti assim foi na quarta série, quando minha mãe perdeu a hora e me deixou plantado por quatro horas em frente ao portão da escola.
Sou dependente, adicto, viciado, sei lá, obcecado e compulsivo por quaisquer meios de comunicação. E estou incomunicável, sentado em frente à tela tentando imaginar o que acontece no mundo enquanto estou por fora dele. Acredito que os islandeses ou os 300 habitantes das Ilhas Malvinas estejam online neste momento, conversando com seus amigos do Butão ou de Omã. E eu, aaaaaiiiiii, restrito a um Microsoft Word tentando puxar assunto comigo mesmo.
Meu celular está a um pino do fim, perdi o carregador e todos os meus telefones de contato estão gravados nele. Esta sexta-feira que se aproxima é a minha 13. Nada pessoal, mas eu odeio a Waldeci com todas as minhas forças neste momento, tenho ojeriza a seus gerúndios que não me esclarecem, que me deixam ainda mais perdidos no tempo e no espaço.
Esta manhã voltei a ligar. E fiquei dez minutos ouvindo Kenny G enquanto esperava o diagnóstico de hoje. Pois continuo órfão. Que a sexta-feira de Waldeci seja tão insuportável quanto a minha. Nada pessoal.