29/08/2007
EMBLEMAS

De pé, ainda de pé, e forte rumo à cruzada pela desmoralização de São Paulo. Dia desses encontrei um amigo, desses de obas e olás que não se deve guardar mágoas e nem o número de telefone. Estava com o pai enfermo, internado por alguma razão que felizmente não lhe faria mal algum depois de dois dias sob média observação.

- Tudo bem?
- Mais ou menos, meu pai está no Einstein.

Meus votos de melhora ao ancião. Despedi-me e tomei o rumo. Queria acordar com um latte sem espuma à creme de barbear, coisa rara na cidade famosa por servir o pior café do Brasil. No caminho, desviando dos buracos da calçada e contornando os carros mal estacionados no meio-fio, veio à cabeça esta estranha mania do paulistano de pontuar sua prosa com grifes a fim de afinar seu status e confirmar sua presença numa classe social formada por indivíduos de dinheiro novo. Na falta de um brasão, no excesso do quinhão, uma marca de luxo salva vidas. E confere uma certa nobreza aparente.

Não que o pai deste amigo estivesse num hospital, ele estava No Einstein. Assim, sua doença torna-se, aparentemente, mais branda, quase um repouso. E com essa informação, desnecessária em primeira instância, todo e qualquer ouvinte pode imaginar que tipo de vida a família de alguém internado no Einstein deve levar. Que seus netos estudam no Colégio Britânico (pois eles não vão à escola, eles vão para o Saint Paul) e que suas filhas, quando apressadas, pedem para as copeiras pegarem suas Gucci em cima da poltrona, aquela do Jorge Elias. É claro que as serviçais conhecem as marcas de cor. Eu me divirto, confesso que sim. Acho saudável, até.
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28/08/2007
FIO MARAVILHA

E ontem os paulistanos elegeram as suas Sete Maravilhas, numa enquete realizada por um site paulista e por uma rádio paulista. Bárbara Gancia, a jornalista paulista que faz piadas que só têm graça para os paulistas, anunciou o resultado durante uma festa realizada às cinco da tarde no meio do Ibirapuera – a propósito o campeão de votos. Como levar a sério uma cidade onde um parque sujo e mal freqüentado é considerado uma maravilha?

A votação, aberta ao público, também elegeu a Avenida Paulista, a Rua 25 de Março, o Mercado Municipal, os shopping centers, o Museu do Ipiranga e a pizza. Você teria orgulho de viver numa terra onde centro comercial é motivo de orgulho? Paulistas são competitivos. Não, são competidores. E nas piores modalidades.

O Rio, por exemplo, que se orgulha de umas coisas bizarras, como o Cristo Redentor – uma imagem de pedra sabão espetada no alto de um morro –, entrou nessa bobagem de Novas Sete Maravilhas. Agora São Paulo vem com essa. Uma vez por ano, o Rio monta uma árvore de Natal horrenda na Lagoa Rodrigo de Freitas, cheia de pisca-pisca cafona e um monte de povo em frente a ela, vendo sei lá o quê. No ano seguinte, São Paulo montou a sua árvore natalina, tosca, meio torta, que ninguém vê. Agora mais essa.

Isso por que paulistas no verão tentam se vestir como cariocas, no inverno tentam se vestir como noviaorquinos e na primavera espetam uma roseira na janela para achar que estão em Londres. Ainda estou em busca da identidade paulistana. Procurei pelas sete maravilhas e não achei. A maravilha de São Paulo talvez seja justamente esta: a de não ter identidade alguma. Como Rita Lee, eleita a oitava maravilha pelo voto popular. Mas isso é outra história. Meu voto vai pra você, Gabi.
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27/08/2007
SINAL FECHADO

Ontem eu estive nos Jardins, a passeio. Caí no conto hype e dei-me ao desfrute de ser visto caminhando pelas calçadas tortuosas e esburacadas do bairro mais, humm, chique do Brasil. Havia um evento, Promenade era o nome.

A idéia: fechar um quadrilátero para usufruto de pedestres e deixar as lojas abertas para que todos pudessem conferir as novidades enquanto bebericavam espumante nacional. Os organizadores trataram de forrar o aslfato com uma espécie de grama artificial para tornar a tal promenade ainda mais verossímil.

Idas e vindas, see and be seen. Todos tiraram do armário seus melhores modelos, e não que estes fossem bonitos. Não há gente mais mal vestida que o paulistano de classe média para alta. E sabe por quê? Porque todos tentam parecer o que não são achando que uma roupa cara vá livrá-los da carga pesada de um passado regado a óleo de soja e vale refeição.

Nada contra. Eles é que têm, eles negam, eles relutam. É roupa de rico em cara de pobre. De espírito. Atitude zero. Um fudevu de grifes aparentes nas estampas de camisetas, bolsas monogramadas e óculos tão grandes quanto o diâmetro do nariz. O mercado de luxo em São Paulo se abastece das mulheres de pecuaristas e comerciárias de médio porte.

Era o que havia, além de um exército de Kelly Samara Carvalho dos Santos brindando o golpe bem sucedido em seus maridos 30 anos mais velhos e oitenta quilos mais gordos. Só por amor, amor ao próximo, que atravessava a rua piscando os olhos para a jovem loira que esperava seu marido mórbido descer as escadas de um suburbano Empório Armani.

Como uma cidade de 10 milhões de habitantes consegue ser tão provinciana? Às vezes tenho a impressão que São Paulo não passa de uma Ribeirão Preto que inflou além da conta e que a mentalidade de sua gente não acompanhou o crescimento demográfico.

Conheço boa parte das capitais brasileiras, convivo com muitos gaúchos, catarinenses, paranaenses, cariocas, mineiros, baianos, pernambucanos, paraibanos e até, vejam bem, goianos. Sinto em todos um querer de civilidade que não vejo aqui. Uma vontade de melhorar as relações, um senso social, uma benevolência que não existe por aqui. Sabe, cansei.
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24/08/2007
PPY

É hoje! SuperEgo volta com a sua versão falada do que geralmente você vê escrito. O Podcast está o ar, com suas variações de humor e de assunto, cheio de história que você poderia morrer sem saber. E para provar que existe um nerd espinhento e virgem dentro de mim, venho por meio deste informá-los que a partir de agora nosso Radinho SuperEgo está mais moderno, com duas opções para ser ouvido.

Você pode baixar o programa e ouvi-lo no seu computador ou no seu mp3 player: é só clicar AQUI com o botão direito do mouse e escolher "salvar destino como" (ou "Save Target As" em inglês).



Você também pode ouvir direto no computador sem salvar o arquivo, clicando AQUI com o botão direito do mouse, escolhendo "copiar atalho" (ou "copy shortcut") e colando a URL no seu media player, ou simplesmente escolhendo "abrir" ou "open".



Também é possível assinar o RSS do podcast, neste link. O 'sirvissu' vai informar automaticamente cada vez que um novo podcast entrar no ar. Isto pode variar de uma semana a um mês, dependendo do Virtua e das minhas faculdades mentais.

O que é a maravilha da tecnologia, não é mesmo minha gente? E não deixem de mandar suas perguntas para o e-mail SuperEgo. Dúvidas, sugestões, reclamações, despachos online, votos de saúde e paz para a família Gil, denúncias, receitas, enfim. Sua resposta virá em seguida, pelo podcast. Vai, participa.
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23/08/2007
MÚSICA PARA OS OLHOS

Somos um país musical, certo? E nossa música é, digo, foi nosso único e somente único produto de exportação com algum valor agregado – até que porque banana não agrega nada além de um cacho de bóias-frias correndo para ganhar 10 centavos por quilo colhido.

Enfim, estávamos falando de música e do nosso incrível e reconhecido talento de gerar novos nomes na MPB. Não concordo mais. Antigamente, tínhamos nas rádios uma constelação de cantores e cantoras de voz afinada e repertório sofisticado.

Até um sambinha-canção, por mais dor-de-cotovelo que fosse, tinha, e muito, o seu valor. Elizete Cardoso, Cartola, Emilinha Borba e por aí vai. E hoje? Acabo de ler num site destes, destes entupidos de notícias frias e fotos quentes, que Ivete Sangalo é a top 1 das paradas musicais.

E o que Ivete canta? Gritos e sussurros, onomatopéias. O que seria da música de Ivete se não fossem as vogais? A Bahia tem dessas coisas mesmo, do nada alçam ao topo figuras sem o menor timbre, sem a menor elegância. Raul Seixas que o diga.

As músicas de trabalho de Ivete Sangalo não dão, sequer, ao trabalho de serem escutadas. E executadas. Arerê, um lobby, um hobby, um love com você. Deixe-me ir, preciso andar.

Marrom, não deixe o samba morrer!
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22/08/2007
LOUCURINHAS

Ontem tive um medo louco de viver. Nada por mim, mas naquele restaurante de clima boêmio, metade decadente, um quarto atraente, onde vi e revi mesmas cenas tantas vezes, me veio aos olhos a imagem de um personagem de si mesmo, mal tratado pela própria história, alguém que perdeu o viço pela falta de luz.

Chegou com pouco movimento, a entourage improvável logo sairia do campo de visão. Impressionante como fantasmas urbanos assombram, e desaparecem em sua sombra. E ela, assustada com a velocidade dos reveses, parecia já não brilhar mais, de dentro para fora estava apagada como a cor de seu cabelo loiro desmaiado, como a companheira de mesa, morena, existente ali apenas para mostrar aos outros que sua convidada não estava a sós.

Mas estava. A solidão é das dores mais expressivas: pessoas sozinhas têm cara de pessoas sozinhas. Ontem tive medo. De não ter mais sentido, de deixar de fazer sentido. Como ela, um processo arquivado pelo hype. Tive pena. E penso, hoje, acordado de vida: será que estamos todos fadados ao fosco do mundo? Queria uma garantia, uma apólice, um plano de previdência, algo que me amparasse de um risco de terminar antes mesmo de morrer. Qual deve ser a sensação de ser enterrado vivo?
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21/08/2007
CANSEI

Já diria a estampa: “Ô Povinho Bunda”. Quando adolescente, usava uma camiseta com tais dizeres, comprada com minha mesada através do catálogo da revista Planeta Diário. Não sabia ao certo, àquela altura, o motivo exato para concordar com a máxima, penso eu, inventada por Bussunda. Hoje, se pudesse voltar atrás, teria mais cuidado com minha malha de algodão para não ter que tirá-la do corpo nunca mais. Seria uma espécie de segunda pele, quase uma tatuagem definitiva.

Pois sim, não há povo mais bundão que o nosso. E morro de vergonha dele, por me incluir nele dadas horas do dia, por me fazer excluir na maior parte do tempo. Reações primárias, raciocínio primata, mentalidade de um país secundário e periférico. Que horror, que tristeza. Dê-me um motivo para me orgulhar que prometo-te, agora, mudar de opinião e, quem sabe, até de assunto. Aliás, é o que mais falta por aqui.

Fala-se de nada, responde-se por coisa nenhuma. E você aí, sentado em frente ao computador do escritório, contando as horas para se jogar no restaurante a quilo defronte ao prédio onde trabalha há mais de dez anos e sem previsão de aumento salarial. A culpa é sua, a culpa é minha. Não há inocentes: existem, sim, indivíduos ingênuos, quase burros, ufanistas de uma categoria última.

Um país jovem, deficiente mental, retardado. Se for para sentir pena, que me deixem sentir. Só não posso cultivar a mesma raiva plantada por aqueles que esperam o pior da vida. Derrotados disfarçados de otimistas, falsos sorrisos, mentiras fantasiadas de simpatia. Acordem, mudem o disco, cortem o cabelo – pintem, se for o caso –, troquem de pele.

Mas não venham com insultos, pois o maior deles é dormir com a certeza de que o amanhã será exatamente igual ao dia de hoje. Rotina, idéia cretina, desafios abafados. Comodismo, como não? Quero que sua história aconteça. Vá à luta, mas não brigue. Dialogue. Leia, releia, preste atenção no que vos digo. E entendam o que quero dizer, de uma vez por todas. Sua vez há de chegar. Felicidades.
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20/08/2007
VOCÊ DECIDE

Bom dia amiguinhos, já estou aqui. Depois de um longo e tenebroso inverno, eis que ressurge nosso já conhecido Radinho SuperEgo, o Podcast mais inaudível da rede. Todas as sextas-feiras, a contar desta, uma conversa direta com você, leitor amigo, dona-de-casa frustrada, clubber de subúrbio, funcionário público de acesso discado.

Para animar nosso programa, faremos o seguinte: caso queiram mandar um recado para alguém, fazer perguntas soltas para este frívolo colunista que vos escreve, cobrar dinheiro da amiga fashion, atenção da amiga obsessiva, pedir favores, xingar o chefe, é só mandar um e-mail para nossa redação, composta por mim mesmo. Envie suas perguntas para blog_superego@globo.com e sua resposta será dada durante o encontro. Dado o recado?
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Entrar no 

www.ego.com.br Todos os dias, em caráter excepcional, críticas construtivas e crônicas destrutivas do mundo moderno na visão de Hermés Galvão, um jornalista antiquado.
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