30/08/2007
LINHA CRUZADA
Acordo atrasado, duas horas depois do permitido. Desperto com um telefonema insistente. Nuno, meu cãozinho, está enfermo. Abre apenas um olho, continua deitado na cama (na minha) e ignora o ruído. Ele volta a dormir. Eu atendo à chamada. Na linha, uma amiga de longa data, longa mesmo, de tanto tempo que eu nem me lembrava mais se éramos mesmo amigos ou se o tempo se encarregou de diluir nossa história para que outros amigos viessem futuramente a ocupar algumas páginas em branco do meu livro de ouro. E de reclamações, claro.
- Olá, adivinha quem é?
- Isso não é pergunta que se faça para alguém às 9 da manhã...
- Não acredito que você já não reconhece a minha voz.
- Nem a sua voz e nem o seu número.
- Então por que atendeu?
- Porque não é do meu feitio deixar pessoas esperando por mim.
- Ah, foi por educação. Pensei que você quisesse falar comigo.
- Mas eu nem sei quem é você, aliás já não te reconheço mais.
- E aposto que não quer fazer o mínimo de esforço para tentar lembrar.
- Olha, “amiga”, são nove da manhã. Qualquer esforço a esta hora será em vão.
- Posso dar dicas?
- Ai não, please.
- Só uma, vai.
- Olha, já estamos conversando a uns 5 minutos e não falamos sobre nada. Vamos combinar de desligar?
- Peraí amigo, depois de anos afastados você quer sumir de novo?
- Ok, me dá uma dica, uma só, para eu tentar me lembrar de você.
- Fomos juntos ao show do Lô Borges no SESC.
- O quê? (nessa hora eu acordei de fato, saí debaixo dos cobertores, até Nuno se levantou).
- Isso mesmo. Eu, você e o pessoal do curso.
- Que curso? Que show? Não me lembro de Lô Borges nenhum. Eu odeio Lô Borges. Sempre odiei Lô Borges e SESCs da vida. Detesto espaço cultural com lona e cantina onde só se vende pão de queijo e iced tea.
- A gente até se pegou num showzinho desses...
- Chega. Quem ta falando?
- Isabela, amigo, sua ex-companheira de cigarro a varejo. Lembra que a gente fumava escondido atrás da escola?
(Pensativo) Fiquei confuso. Será mesmo que Isabela é minha amiga e que eu realmente tive a cara de pau de me enfiar num show do Lô Borges com ela? Do cigarro eu me lembro, e muito bem, pois fumávamos Viceroy – e aquele gosto de papel queimado com tabaco de quinta categoria é impossível de esquecer. Mas de Isabela eu não me lembro. Nem de Lô Borges.
Voltei.
- Você tem certeza que está falando com a pessoa certa?
- Sim.
- Então me descreva?
- Ah, amigo, que bobagem.
- Vai, fala pelo menos uma coisa sobre mim.
- Você é engraçado.
- Ah, jura?
- Ok, você era magricelo e tinha um cabelo meio desgrenhado. Ainda está assim?
- Não.
- E você era péssimo em matemática. Ainda é?
- Sim, mas matemática não tem a menor utilidade na minha vida.
- Então, agora acredita que eu liguei mesmo para falar com você?
- Não. No campo das probabilidades, 50% dos habitantes do mundo são magros e péssimos em matemática. Digamos que você tenha arriscado e por coincidência acertado.
- Nossa, como você é desconfiado.
- Amigo meu JAMAIS me ligaria às nove da manhã.
- Já são quase dez.
- Ótimo. Hora de desligar.
- Nem quer saber quem me deu seu telefone?
- Não. Amigo meu, de verdade, liga para o fixo.
- Então não somos amigos?
- Não.
- Você acha que foi um erro eu te ligar?
- Não, só acho que foi engano.
- Adeus.
- Tchau.