18/09/2007
DOR DE COLUNA SOCIAL
Madame, que casou-se por amor ao dinheiro do marido, diz que é fina mas gosta mesmo de grosserias. Desce do salto e calça a velha chinela para conversar de igual para igual com seus semelhantes de português arcaico. De manequim contido e pose coquete, cabelo armado para trás, engana-se quem acredita em sua aparência distinta. Mas madame se faz de chiquê e circula pelos salões com taça na mão e vinganças prontas na cabeça. Reparando bem, vê-se que aqueles trajes não foram feitos para as suas medidas modestas herdadas do bisavô indigente.
Anda pelo mundo a falar o que não sabe, para os desinformados é antena de notícias e formadora de opinião. Madame está cinco minutos atrasada para um grande furo e chega na hora quando o assunto já mudou. Disfarça, destorce, desclassifica. Desqualifica, mas desenvolve. Madame do society, high profile e low fare. Custa caro, mas se vende por pouco. Barata, um troco Chanel. Desce o nível, levanta a saia, equilíbrio distante na perifa de São Paulo. Veio de longe, vive por perto, está onde menos se espera. E surge para causar, vestida para matar, despedida de solteira ou bela da tarde, talvez uma dama do lotação.
É mulher moderna, quase realista fantástica, maquiagem medieval. Corpo presente, espírito ausente, pessoa de conseqüência inconsciente. Madame não sabe o dia de amanhã, pois ainda dorme a noite mal sucedida de ontem. Não ama, apenas odeia. Coração grande, sem pulso, sangue pisado. Bomba relógio, Cartier tamanho P, jóias de department store, coleção de gosto árabe. Comidinha japonesa, inglês razoável e francês de cursinho relâmpago. Falante, retumbante, estonteante no modelito parcelado e brilhante no colar emprestado. Bem relacionada, mal cercada, está nas colunas de hoje.