19/09/2007
MULHER BRASILEIRA EM PRIMEIRO LUGAR

Não é de hoje que travestis e mulheres andam de mãos dadas rumo à uniformização estética. Cada vez mais mulheres se parecem travestis e travestis se parecem mulheres. Os peitos têm o mesmo tamanho, a boca a mesma cor e os cabelos o mesmo tom. Em comum, uma atração patológica pelos tecidos que esticam e pelas cores que gritam.

Salto de acrílico, calça de cós púbico e sutiã com alça de silicone para aquelas que vieram ao mundo com próteses divinas em tamanho família. E ultimamente até o mesmo nome elas têm: Sheylla, Karlenne, Kattylaine, Chrystianny, Stephannie e todas as terminações em ‘elle’ – Danielle, Raphaelle, Michelle, Suzelle, Gracielle... Ontem, dois momentos de pura beleza da brasileira estiveram em destaque nas colunas eletrônicas: os concursos Miss Brasil Mundo e o Miss Brasil Transexual.

Para você, leitora amiga de Barueri que hidrata a franja no Yamasterol, aqui vai a prova viva da minha teoria. SuperEgo desafia os leitores a adivinhar quem da galeria abaixo pertence ao sexo feminino. Uma dica: de todas as fichadas, duas são travestis. Respondam e concorram a uma viagem para Juiz de Fora, a terra das bichas mais feias do Brasil.

Cristini
Danielle
Janete
Kamila
Laura Micaela
Leila, Layla e Luyla (momento vintage)
Pamela
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18/09/2007
DOR DE COLUNA SOCIAL

Madame, que casou-se por amor ao dinheiro do marido, diz que é fina mas gosta mesmo de grosserias. Desce do salto e calça a velha chinela para conversar de igual para igual com seus semelhantes de português arcaico. De manequim contido e pose coquete, cabelo armado para trás, engana-se quem acredita em sua aparência distinta. Mas madame se faz de chiquê e circula pelos salões com taça na mão e vinganças prontas na cabeça. Reparando bem, vê-se que aqueles trajes não foram feitos para as suas medidas modestas herdadas do bisavô indigente.

Anda pelo mundo a falar o que não sabe, para os desinformados é antena de notícias e formadora de opinião. Madame está cinco minutos atrasada para um grande furo e chega na hora quando o assunto já mudou. Disfarça, destorce, desclassifica. Desqualifica, mas desenvolve. Madame do society, high profile e low fare. Custa caro, mas se vende por pouco. Barata, um troco Chanel. Desce o nível, levanta a saia, equilíbrio distante na perifa de São Paulo. Veio de longe, vive por perto, está onde menos se espera. E surge para causar, vestida para matar, despedida de solteira ou bela da tarde, talvez uma dama do lotação.

É mulher moderna, quase realista fantástica, maquiagem medieval. Corpo presente, espírito ausente, pessoa de conseqüência inconsciente. Madame não sabe o dia de amanhã, pois ainda dorme a noite mal sucedida de ontem. Não ama, apenas odeia. Coração grande, sem pulso, sangue pisado. Bomba relógio, Cartier tamanho P, jóias de department store, coleção de gosto árabe. Comidinha japonesa, inglês razoável e francês de cursinho relâmpago. Falante, retumbante, estonteante no modelito parcelado e brilhante no colar emprestado. Bem relacionada, mal cercada, está nas colunas de hoje.
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17/09/2007
IRMÃOS CORAGEM

Falar é fácil. E todo mundo fala de todo mundo. Por trás, por telefone, por intermédio de terceiros, por acaso, por não ter o que fazer. Mas pela frente não tem um para contar história, nem mesmo a sua. Ninguém se coloca, nada acontece. Povo covarde, gente medrosa. Bando de bananas.

O senado (com ‘s’ minúsculo) absolveu Renan Calheiros numa votação secreta onde a maioria declarou inocente mais um bandido oriundo das Alagoas. Na sexta-feira, recebi um telefonema de tal advogado dizendo representar uma cliente lesada por matéria escrita recentemente por mim. O profissional não se identificou e seu número de telefone também não aparecia na bina. No sábado, um socialite de educação duvidosa me liga para dizer que eu fui visto em más companhias – sendo que as dele são as piores que se têm notícia.

Pois estou aqui e vou dar cara à tapa para quem for gente o suficiente a ponto de assumir a palavra. Vítimas da própria existência, réus primários de uma sociedade primitiva que por falta de argumento prefere a ignorância a discutir o que é que há. Vai encarar?

Então liga, fala na cara, mostre-se. Se apresente. E um passo a frente, por favor. Porque assim, meu caro amigo, vai continuar aí atrás, como figurante da vida, sem direito de fala. Da luz, fizeram-se as trevas. Pois fique na sombra porque yo, ah, eu vou tomar sol.

Estou livre. E falo o que quero, para quem quiser ouvir. E não vou me calar, não porque não quero. Porque não devo. É tudo verdade. Sou real.
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14/09/2007
SHOW DE CALOUROS

Pedro de Lara lá laiá laiá laiá laiá laiá laiáá...
Dercy Gonçalves lá laiá laiá laiá laiá laiá laiáá...
Lady Francisco lá laiá laiá laiá laiá laiá laiáá...
Ítalo Rossi lá laiá laiá laiá laiá laiá laiáá...
Hebe Camargo lá laiá laiá laiá laiá laiá laiáá...
Paulo Maluf lá laiá laiá laiá laiá laiá laiáá...
Vera Gimenez lá laiá laiá laiá laiá laiá laiáá...
Dona Marisa lá laiá laiá laiá laiá laiá laiáá...
Ronaldo Esper lá laiá laiá laiá laiá laiá laiáá...
E o Miéle lá laiá laiá laiá laiá laiá laiáá...
Ronie Von lá laiá laiá laiá laiá laiá laiáá...
Lima Duarte lá laiá laiá laiá laiá laiá laiáá...
Regina Duarte lá laiá laiá laiá laiá laiá laiáá...
Amaury Junior lá laiá laiá laiá laiá laiá laiáá...
Padre Marcelo lá laiá laiá laiá laiá laiá laiáá...
Otavio Mesquita lá laiá laiá laiá laiá laiá laiáá...
Nelson Rubens lá laiá laiá laiá laiá laiá laiáá...
Joyce Pascowitch lá laiá laiá laiá laiá laiá laiáá...
Sonia Abraão lá laiá laiá laiá laiá laiá laiáá...
A Hildegard lá laiá laiá laiá laiá laiá laiáá...
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13/09/2007
TRÉGUA

Soube agora, passados dez minutos da meia-noite desta quinta-feira 13, que Preta Gil reestreou sua coluna no Ego. Não sabia que ela havia saído e decidi ler o seu post da retomada para entender os motivos que teve para deixar de colaborar conosco.

Diz no subtítulo que o sucesso a fez ficar com medo de escrever. E que superada a crise, a coluna está de volta. Foi a primeira vez que li o que Preta tem a dizer. Achei singelo, quase naïf.

Tive medo de gostar, mas me reprimi e voltei ao normal já na segunda metade do texto onde ela diz que até mesmo aqueles que esculhambam geral têm um lugarzinho no seu coração. Pois Preta, você também tem um espaço no meu.

Como você, acho que todo mundo pode e deve expressar o que pensa. Mas se a gente não pensa em nada não dá para querer ser tudo, não é? Fico feliz com a sua volta, mesmo sem saber que você foi algum dia. Não se vá. Boas idéias e um ótimo segundo lugar de audiência. Um beijo, Hermés.

Se joga pintosa.
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12/09/2007
IN MEMORIAN

Tenho horror a tributos, até porque eles só existem para evocar os mortos. E eu não acredito neles – nem nos tributos e muito menos em mortos. Por mim, a vida é maior que a própria morte em si e defuntos são fantasmas que criamos para tornar nossa existência algo temeroso e com prazo de validade.

Por isso, enterro todos os vivos que acreditam na morte como ponto final de uma história que não tem fim e uma sucessão infinita de recomeços. E dou bom dia a todos os vivos, físicos e espirituais. À vida. Sou eterno porque duro, e não vou me despedir de mim nem mesmo quando partir desta para uma melhor.

Ontem, americanos fizeram um minuto de silêncio em memória aos mortos pelo ataque terrorista às Torres Gêmeas. Em agosto, os japoneses relembraram as vítimas da bomba atômica lançada sobre Hiroshima e Nagasaki. Na semana retrasada, ingleses acenderam uma vela em homenagem a Diana Spencer e desde 1945 judeus lamentam, diariamente, os entes assassinados no Holocausto.

Por aqui, o máximo que fazemos é recordar Raul Seixas em shows-tributo por diretórios acadêmicos das faculdades de comunicação. Tenho a impressão de que não temos motivos para lembrar de ninguém. O máximo que fazemos é procurar um centro espírita na esperança de bater um papo mediúnico com o nosso tio avô falecido por causas naturais.

Será que não temos memória? Ou sofremos de amnésia voluntária? Quero ser lembrado em vida, e que me esqueçam quando for fazer o rito de passagem. Sim, estou aqui de passagem. E se vim ao mundo a passeio tudo me faz crer que o próximo destino deve ser o maior barato. Preciso existir sempre, para sempre. Não vou morrer, ouviu? Quero a qualidade de vida.
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11/09/2007
SELVA DE PEDRA

O acidente com o avião da TAM foi causado por uma falha humana. O choque de trens no Rio também foi causado pelo homem. O fato de São Paulo ter registrado ontem 35 graus em pleno inverno teve influência indireta do ser humano, já que ele é responsável direto pelo aquecimento global. Enfim, descobriram que o homem é incompetente. E que o ser humano é um projeto divino que não deu certo. Mais do que nunca, a pergunta que tanto respondi na infância tem agora uma ótima resposta.

Afinal, o que eu gostaria de ser se não fosse homem? Queria ser elefante. Sempre quis ser um elefante. Dos grandes e dentuços (sim, porque elefantes não têm chifres), daqueles que quase passam por cima de jipes lotados de suecos em safári. Dos que desfilam em Calcutá levando na corcunda um mané de turbante pronto para entrar em nirvana experimental. Para pisar na Terra com força, fazer barulho com a tromba e espantar hienas e outros animais feios e fracos, para tomar banho com meu próprio chuveiro embutido, tomar sol na savana, flertar com uma elefoa bem gorda e de repente, por uma fatalidade, ser a maior atração de um circo bem xumbrega – prefiro a morte, que levem os meus marfins para fazer pé de mesa, mas Beto Carrero jamais.

Mas nasci gente, ora, embora acredite que meus semelhantes, assim como eu, já começam a desenvolver, ou melhor, a retroceder não para a Idade da Pedra Lascada (numa análise bem primitiva), mas para a convivência na selva. Já sou capaz de me sentir mais protegido nas florestas intocadas de Papua Nova Guiné do que na Nova Faria Lima; confio mais na palavra não dita de um tigre de Bengala do que na voz ativa de um bicho-homem que se veste de chefe só para exercer sua superioridade conquistada a custo de muita hora extra e pouca presença familiar.

O homem é dos mais nocivos animais que já vi à solta. Mandaria enjaular cada um daqueles que tornam o meu dia uma rotina selvagem. Para que eu, finalmente, possa me sentir um pouco mais livre. Como um elefante.
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10/09/2007
A GENTE NÃO QUER SÓ COMIDA

Não me lembro do mundo antes do advento dos restaurantes a quilo. Desde que me conheço por gente vejo filas enormes se formando sobre o buffet de frios e farináceos. E o Brasil, antes um país de mortos de fome, passou a ser a nação dos glutões que pesam seus pratos recheados de toda a sorte de opções à milanesa ou gratinadas. Diga o que comes que te direi quem és. E sois obesos, senão de corpo presente são de espírito. Deus livrai-nos do mal e de todos os gordos de alma. Que o pão nosso de cada dia seja integral. E que a rúcula do Kilograma seja, ao menos, lavada. Amém.

Neste fim de semana, a funcionária de um supermercado em São Paulo desencarnou devido a uma intoxicação causada por um PF estragado. No menu, arroz, purê de batata, salsicha e carne de porco. Um sacrilégio de mistura. Vanessa Marchesoni tinha apenas 24 anos e morreu pela boca. Antes não tivesse traçado a salsicha. Sim, a culpa é da salsicha. Onde já se viu comer salsicha? Comida processada, acidulante, corante, essência. Credo.

Sobre a mesa do homem, um lixo radioativo e convidativo: pacotes de biscoito recheado, batatinhas, refrigerantes, salgadinhos sabor bacon, camarão, provolone e tomate seco. Estou tão orgânico que tudo que sai de mim pode virar adubo. Até meu feijão preto tem origem controlada. Já não confio no tempero da baiana, dispenso todo e qualquer agradinho vindo da cozinha de minha adorada e saturada vovó, famosa em suas Minas Gerais por fritar os melhores torresmos sobre banha fresca. Sim, vou morrer um dia. Mas de outra coisa. Essa conversa me tirou a fome. Que bom, menos um problema na vida.
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www.ego.com.br Todos os dias, em caráter excepcional, críticas construtivas e crônicas destrutivas do mundo moderno na visão de Hermés Galvão, um jornalista antiquado.
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