27/09/2007
I SAY A LITTLE PRAYER

Senhor, livrai-me dos exus do dia-a-dia que lamentam a falta de graça recebida antes de virem ao mundo. Perdoai-me de todo mal que sinto ao vê-los vestidos como se uma roupa cara fosse amenizar suas caras infelizes. Dai-me força para encarar os diabos sociais que passam as horas a tentar aliviar a dor de terem nascido feios com olhares invejosos sobre aqueles que nasceram agraciados por sua luz. Tirai da reta o assessor de imprensa com mau hálito e seu pupilo da periferia, levai os pobres coitados para o caminho da luz e da academia de ginástica. Desejai aos desocupados e às bichas futriqueiras apenas o bem, para que elas possam seguir em frente sem precisar pensar com a parte de trás. Amém.
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26/09/2007
PROCURA-SE

Madeleine, a menina inglesa desaparecida há quatro meses, foi vista no Marrocos. Pelo menos é o que suspeita um casal de turistas de passagem por Marrakesh, que jura ter encontrado a pobrecita andando na carcova de uma aldeã magrebina.

Já vi tudo. O caso de Madeleine vai tomar o mesmo rumo de Carlinhos, aquele loirinho que nos anos 70 sumiu de casa, no Rio de Janeiro, e que até hoje é visto por aí. A família procura por ele até hoje. Afinal, que diferença faz se Carlinhos está vivo? E se ele aparecer, que graça vai ter se o barato da história é passar os dias imaginando como e onde Carlinhos está?

Voltemos ao caso da menina inglesa, por ser mais recente:. Até ontem, meio mundo acreditava que “Maddie” estava morta e que seus pais eram os culpados. Hoje a opinião pública já mudou de idéia. De réus, Gerry e Kate McCann voltam a ser vítimas. Tenho horror a opinião pública, aliás tudo que é público não merece ser ouvido, nem falado.

O povo só abre a boca para falar besteira, se mete aonde não é chamado e acaba distorcendo tudo. O público é passivo para questões mais sérias da vida e só se junta para apedrejar quem não sabe se defender. Foi assim com os donos da Escola Base, que em 1994 foram apontados como pedófilos pela opinião pública, Foi assim com os Friedmans, nos Estados Unidos, que viram sua família se deteriorar depois que o chefe da casa e seu filho mais velho foram acusados de estupro e sodomia.

E será sempre assim, enquanto derem ouvidos para quem não tem opinião formada sobre nada. Porque a opinião pública não tem, por isso mesmo se junta acreditando que quando vários não têm o que dizer muitos podem se fazer ouvir. Calem a boca.
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25/09/2007
Dois dias sem computador, minha empregada liga dizendo que teve recaída – está deprimida de novo. Chic, não? Minha doméstica toma os mesmos remédios que eu, e com uma diferença: ela não melhora. Existencialista de cozinha, ai, ai. Minha flatmate acha que mora sozinha, meu cachorro late para o ralo, estou sentado no computador de outra pessoa cá no trabalho e preciso reconfigurar minha cabeça para conseguir escrever em sua máquina. O mouse fica no lado esquerdo, as tela é tão clara que me cega. Há tantos decalques fofinhos em volta da máquina que não consigo prestar atenção no que vos digo. Desde ontem estou sem assunto, os problemas dos outros chegam tão depressa que já não consigo resolver os meus. Estou tenso, não sei onde posso salvar este texto e a qualquer momento ele pode desaparecer num esbarrão de tomada. Que dantesco, quão grotesco. Pelo menos o inverno chegou.
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24/09/2007
PORQUE HOJE É SÁBADO

Calhou de cair no sábado o Dia Mundial Sem Carro, quando, em teoria, todos deveriam deixar seus automóveis na garagem e ganhar às ruas utilizando, na pior das hipóteses, o próprio pé. Mas logo no sábado, quando os paulistanos saem de casa a mil por hora para desfilar o carrão polido e blindado a fim de mostrar para o vizinho e o passante o que o dinheiro pode comprar? Logo no dia mais paulistano da semana, quando todos sobem e descem as ruas do Jardins com suas pick ups com tração nas quatro rodas? Mas logo no sábado, o dia de passear na rua e tomar sorvete a meio metro do asfalto? Logo no sábado, quando todos vestem seus melhores trajes para ver e ser visto na esquina? Ah, se fosse em outro dia talvez o paulistano aderisse à causa.
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21/09/2007
CIÊNCIAS ECONÔMICAS E PATOLÓGICAS

Vou enlouquecer. Tenho certeza disso. Só não sei quando, mas desconfio que não vai demorar muito para começar a variar como já faz minha adorada avó. Ontem tive um dia de fúria, e você há de entender. Todo dia 20 de cada mês, sou bombardeado de guias de pagamento e faturas que vão desde a minha pessoa física a jurídica.

Siglas, taxas, emolumentos, diferenças, transferências, DOC, TED, ISS, PIS, COFINS, IRPJ, CSLL, DARF, DARM, aaaaaahhhhhh. De manhã o dinheiro entra na conta e por algumas horas, até a última do expediente bancário, tenho a sensação de estar bem de vida. Do pouco que entra, tudo sai. Pago tudo em dia, recebo tudo com atraso. E ainda tenho que agradecer.

E já estou pobre de novo, sabendo, na fila do banco, que todo meu dinheiro vai para o bolso de algum gordo nojento que você votou nas últimas eleições. E tem a NET, que há dois meses me faz de palhaço e até agora não resolveu um simples problema: PRECISO DE UM PONTO EXTRA NO QUARTO, SÓ ISSO, POR FAVOR. Mas eles, os operadores, me deixam louco. “No caso, senhor, estaremos verificando o problema e em breve estaremos entrando em contato para averiguar o que está acontecendo com a sua conta”.

Agora acendo mais um cigarro, o vigésimo do dia. Fumei um maço inteiro e ninguém me ajudou em nada. Continuo sem NET, sem dinheiro, estou morrendo de calor, São Paulo é imunda, poluída, feia, abafada, empoeirada, as pessoas se vestem mal, todo mundo cospe no chão, ninguém limpa o cocô de seus cachorros, motoristas de táxi fazem xixi no meio fio, os táxis não têm ar-condicionado, há filas em qualquer restaurante de quinta, o trânsito é pior que de Calcutá, já passa da meia-noite e os termômetros marcam 31º.

Infernooooooooooooooooooooooooooooo. O mundo acabou. Acabou. Daqui, nada se leva. E ainda tem o cartão de crédito para pagar, com vencimento em 21/09. Hoje. Vou entrar no especial. De novo. Limite, para mim, é saldo. A que ponto chega o ser humano. Ei, você, estudante de universidade: aproveite a vida, cada dia, mate aulas, namore todo mundo, transe o tempo todo, fuja de casa, fume, beba, cole, reprove, xingue, ame, reclame, ouça música, vá a praia, durma de dia e acorde de noite, vire a noite, vare a madrugada, fale, viaje sem um tostão. Viva hoje porque amanhã é duro.
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20/09/2007
SEI LÁ, MIL COISAS

Sofro diversos tipos de preconceito – e entendo cada um deles, pois também sou capaz de julgar o comportamento alheio com minhas opiniões formadas sabe Deus aonde. Tem gente que não gosta de gente burra, por exemplo. Há outras que não gostam de outras que não fazem nada. Tem até gente que não gosta de gente.

Sou um poço de preconceitos, acho que tenho todos estes em mim, e este é meu conceito de vida. Assumo cada um deles, como sinal de uma maturidade defensiva. O que penso dos outros talvez seja exatamente o que eles pensam de mim, vai daí que o preconceito é um sentimento recíproco, talvez, até, construtivo.

Porque ao conhecer um burro ou um à toa posso mudar de idéia rapidamente e passar a aceitar as pessoas abrindo minhas concessões diárias. Sim, pois passo meus dias a abrir exceções a ponto de deixar algo, alguém e alguma coisa fazer parte da minha rotina em pé de igualdade. Estou cercado de tanta gente que precisei me corromper e livrar-me dos meus preconceitos íntimos para poder entender o sentido de uma existência medíocre onde todos possam conviver em plena e irrestrita harmonia.

Não posso ir longe demais, pois desta forma chegarei sozinho. É preciso andar de devagar, quase recuar, para entrar no compasso coletivo. Logo eu que sempre corri atrás de mim, agora descubro que lá na frente sou eu e apenas eu. E que não há companhia. Retroceder como forma de reviver. Parece que já sei como será mais adiante. E que não quero mais andar a passos tão largos.

Às vezes a vida passa tão devagar que sinto vontade de sentar no banco para vê-la passar diante de mim. E olho para quem me atravessa, me viro para dentro e sinto que sou todos os passantes que por alguma razão tenho imensa repulsa e dó. Tenho auto-piedade também, pois sei que todos eles, de alguma forma, sentem pena de mim. Porque sinto deles. A recíproca é sempre verdadeira. Sempre.
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www.ego.com.br Todos os dias, em caráter excepcional, críticas construtivas e crônicas destrutivas do mundo moderno na visão de Hermés Galvão, um jornalista antiquado.
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