09/10/2007
BERLÂNDIA, BERABA E BEZONTE

Aécio Neves tem uma lista de afazeres pregada em sua parede. E todos os dias tenho a impressão de que ele pega sua hidrocor para riscar mais uma missão cumprida. Cada item corresponde à formação de um candidato à presidência perfeito, um caso Kennedy, um tipo popular e bem populista como só Minas Gerais sabe fazer. E na construção de seu personagem, nem um fio de cabelo e nem uma viga de obra pública podem ficar fora do lugar, tudo é lindo e maravilhoso – inclusive ele.

Dois mandatos bem sucedidos, família tão tradicional e influente em MG como os Collor de Mello são nas AL, imprensa conivente e devidamente comprada e agora, para finalizar, uma namorada tão perfeitinha que caberia perfeitamente na imagem de primeira dama. Miss Brasil, romântica, menina direita, família boa, português correto (apesar do sotaque), pouca idade, carisma, noção de moda e etiqueta. Aécio sabe disso tudo e Natália Guimarães estava em sua lista de, digamos, afazeres.

É o casal perfeito para ocupar o palácio que hoje foi transformado em tapera pelo casal gabiru Lula e Dona Bacalhau. Parece que o futuro já começou. Natália tem Aparecida no sobrenome, é devota da santa padroeira do Brasil e aparentemente é de boa índole. Aécio sabia disso. Ufa, menos um problema para resolver. Tudo certo para chegar em Brasília. Isso se Cicarelli não abrir o bocão.

Vem pra Juiz de Fora, meu bem.
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08/10/2007
CONTRATO DE RISCO

Enfim, Gisele Itié recebeu alta. E o que ela fez no primeiro dia de “folga”? Foi no Faustão dizer que não vê a hora de voltar a patinar. Tá ou não tá merecendo levar outro tombo solto?

Imagino o diretor de núcleo ligando para o flat de Gisele, na Barra da Tijuca, apartamento 1724 do Ocean Spring Daily Special Moments, dizendo: “você quase estragou tudo e agora está na hora de trabalhar. Vai no Faustão e fale que o ocorrido não passou de um susto e que a patinação é sua nova mania”.

Eu nem sabia quem era Gisele Itié, da mesma forma que ainda me pergunto quem são Bruna di Túlio e Marjorie Estiano. Só sei que, assim como Gisele, elas são contratadas da Globo e que não existe cláusula alguma que as livre de pagar um mico só para alegrar o domingo da sua vizinha gorda. Ganham salário mensal e nem sempre estão no ar. Daí vem o perigo.

Se recebem no quinto dia útil precisam justificar cada centavo ganho. Portanto, é para o rinque que elas são mandadas. E a pista de gelo do Fausto Silva é a arena de um povo tão sanguinário como os romanos de 2007 anos atrás. Pão e circo para todos. E quero ver até que ponto chega o desespero de um artista para aparecer de qualquer maneira. Bater com a cabeça, sim. Quebrar a cara jamais.

Antes uma queda na pista do que ver o nome descer ladeira abaixo. Vale tudo para não cair no esquecimento. Perseguir a carreira tem sido arriscado demais. Até para quem não tem nada a perder – como Gisele Itié.
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05/10/2007
ASCENSORIA DE IMPRENSA

Recebo diariamente uma penca de e-mails vindos das mais longínquas assessorias de imprensa do Brasil – inclusive Minas. São releases que sugerem desde festa de debutante de filha de empresário do interior do Paraná até lançamento de livro de auto-ajuda com uma lista de convidados vips anexada de modo a tentar atrair o jornalista para o evento. Nada disso funciona. E todas as noites, ao chegar em casa, faço o famoso control shift e apago sem misericórdia cada mensagem enviada sem ao menos tomar conhecimento e saber do que se trata.

Mas ontem, enquanto me deliciava com a fúria e a falta de esportiva do povo mineiro (não disse que eles eram chatos?), resolvi pegar algumas cartinhas eletrônicas para ler. Depois de me interar, me informar e abrir a sexta garrafa de cerveja, me perguntei: como pude passar tanto tempo sem saber que, por exemplo, o chef francês Olivier Cozan já está preparadíssimo para correr os 10km do Circuito Fila, no Rio? No segundo parágrafo veio a explicação: “Adoro esportes”, disse o chef. Que bom que ele gosta, não é mesmo? Imagina ter que correr tudo aquilo à força?

Ah, e soube também que a herdeira do Grupo Cantu debutou no Clube Pinheiros de Pato Branco, no Paraná. A noite foi de muito glamour, dizia o texto. Maria Luiza dançou valsa com seu pai e recebeu os convidados em grande estilo, com direito a (sobe aspas) “muita champanha e até canapê de salmón. Os comes e bebes fizeram da festa um momento inesquecível para todos”. Imagino o que esse povo não tem passado de fome nessa vida.

E fui adiante: a TAM, considerada a terceira pior companhia aérea do mundo, vai promover festival de risotos a bordo. “Serão receitas muito tradicionais da cozinha italiana”. No cardápio, risoto de palmito, brócolis com bacon e peito de peru com leite de coco – este sim, veramente italiano. A lista de misturas não para aí e num crescente indigesto o texto vai apresentando as variedades oferecidas até chegar no último prato: “... e por fim, tomate seco, mussarela de búfala e rúcula”. Ufa, aonde já se viu fazer festival de risoto sem o trio preferido dos buffets de Minas e Espírito Santo? Repare que todo mineiro adora tomate seco. E catupiry. Na pizza, então, opa!

E para terminar, a bomba: assessora de São Paulo manda sugestão de presente para o Dia das Crianças: uma boneca que imita os batimentos cardíacos e o movimento respiratório. Basta dar um soquinho no peitinho da bonequinha que ela sai de seu estado vegetativo e passa a pulsar. E olha, que luxo: os cabelos da boneca são verdadeiros e podem ser os seus: basta levar um tufo que eles implantam um a um. Não é o máximo? Vai ter filho pra quê? Por hoje basta. Alô Minas Gerais!

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04/10/2007
TRIÂNGULO MINEIRO

O povo mineiro tem um jeito estranho. Particularmente, eu acho chato. Sei lá, um sotaque irritante, uma simpatia solta. Uns costumes meio sem propósito. Umas comidas pesadas e com gosto de enfarte. Umas músicas que parecem ter sido compostas para cantar em acampamento. O mineiro tem uma felicidade entediante. Contenta-se com ele mesmo.

Me veio isso em mente agora, passados 40 minutos desta quinta-feira. Assisto agora, por tabela, um programa na Globo News gravado em Belo Horizonte que está falando há meia hora sobre as maravilhas da peteca que, ora ora, nasceu às margens do lago da Pampulha. Pois é, Minas tem dessas coisas. Inúteis. Tipo peteca. E barzinho de música ao vivo (ninguém me contou, mas tenho certeza que cartela de consumação foi invenção de algum mineiro), pão de queijo, Pato Fu, Roupa Nova, Flavio Venturini, Lô Borges, Leila Pinheiro, Ronaldo Fraga, pedra sabão... e Milton Nascimento – a propósito, alguém me diz por que ele cantou no último capítulo de Paraíso Tropical?

Tem Juiz de Fora, festival do tricô de Monte Sião, estâncias hidrominerais, termas em Araxá, cachacinha, pão de queijo e tutu. E a Globonews continua a falar da peteca. Neste momento, uma repórter com cara de Tetê Espíndola conversa com um aposentado (me parece agora que todos os funcionários descansados da Caixa Econômica sejam mineiros) sobre os benefícios do esporte. Ele está de testeira e tênis de corrida, plantado numa quadra de peteca dizendo que “sempre praticou o esporte e que deve a ele sua boa forma física”. A prosa continua, com jeito de papo furado que mineiro adora ter. Mineiro não me dá preguiça, me dá sono. Vou dormir, então.
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03/10/2007
TALKING TO MYSELF

Quanto menos importante é a pessoa mais exigências ela faz. Quanto menos comentada ela é mais dos outros ela tem a falar. A importância que ela dá a alguém ou a alguma coisa é variavelmente proporcional ao nível de atenção que ela recebe. Assim sendo, quem não é ninguém tende a se incomodar com alguém, os menos importantes certamente vão fazer de tudo para aparecer. É preciso se fazer notar de alguma maneira, nem que seja de maneira nenhuma.

Porque o pouco caso é das mais cruéis das respostas dadas a quem pretende chamar a atenção de alguma forma. “Você sabe com quem está falando?” Geralmente, quem faz essa pergunta é porque não tem uma resposta pronta para dizer quem ela é. Pois ela não é nada. Não disse a que veio. Se a sua estrela não brilha, não há como apagar a luz de quem nasceu com um holofote preso à cabeça. Assim sendo, procure a sua lanterna e desvie da escuridão que o cerca.

Não se vanglorie de uma conseqüência que você não causou, não perca seu tempo destilando em vocabulário primário todo seu recalque em relação ao sucesso alheio, vá atrás do seu. Faça as suas escolhas, tenha opções e planos alternativos. Levante todos os dias sabendo que você pode cair a qualquer esquina, em todos os momentos. O ápice de hoje pode ser o declínio de amanhã. Ontem pode ter sido melhor que hoje, e vice-versa. Amanhã pode ser cruel. Viva e deixe morrer. Siga a sua intuição, ou melhor, siga as instruções. As suas.

Acredite nos valores, honre a sua palavra. Seja sincero e não volte atrás. Nem faça de suas conversas um papo furado. Fale mal, sim, claro, mas vá até o fim. E nada de mudar de idéia na mesa seguinte, quando você encontrar aquele que há menos de meia hora era enredo de sua prosa agourenta. Não seja obrigado a gostar de algo ou de alguém. Prefira a educação à simpatia – pode soar menos falso. Honestidade é isso.

Não se sinta obrigado a fazer média, muito menos a poupar de sua indiferença aqueles que não merecem o seu respeito. Se achar que não o merece, simplesmente ignore-o. Não é necessário desprezo. Faça dele um homem invisível. Pois o é. No mundo há uma bilionésima parte de indivíduos deploráveis. Olhe ao seu redor. E veja como estamos cercados de ninguém. Não sofra por isso, seja você mesmo. Vai doer, mas vai passar. Alguém vai te entender. Nem que seja seu analista.

O mais importante é ser verdadeiro, a ponto de ser cruel. Pois a realidade é de uma maldade infantil. Mas é o que é. Assim, claro e evidente. Não há mistérios. Ou se gosta, ou se não gosta. Simples. Não gosto, não falo, não olho, não ouço, não cumprimento. Sou educado comigo mesmo. Pois me respeito antes de tudo. Amor próprio, auto-conhecimento. Cuidado.
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02/10/2007
SORRISO DO BEM

Ontem participei de uma noite beneficente. Uma vez por ano me dou a esse direito, pois aquela é a única causa na qual realmente é verdadeira e dou fé. Pois era uma festa de premiação aos melhores voluntários daquela ONG que insiste na idéia de que o país pode mudar, a começar pelo sorriso de crianças e adolescentes carentes. Eles acreditam, eu apóio. Eles comemoram, eu aplaudo. Enfim, fui. E era um dos homenageados, vejam só.

Ganhei um tijolo estilizado de prêmio, como símbolo da construção de uma sociedade menos boçal. Há gravada uma frase que diz “imprensa do bem”. Não sei ao certo se merecia tal prêmio, uma vez que fazer o que gosta não é necessariamente fazer o bem, mas fiz. E faço. Faço porque quero. Fi-lo porque qui-lo. E farei porque hei de querer. Ainda assim prefiro dedicar meu tijolinho aquele que me deu de mão beijada a chance de me involuntariar em sua boa vontade, quando vi já estava sentado em sua sala, palpitando por ter me sido pedida a opinião.

Sentado em sua platéia, dei-me ao descanso de repensar a vida quase toda, a partir de uma data específica. Desde o dia em que nos conhecemos. Eu acordando em sua casa, sem ao menos saber seu sobrenome. Ele de pé, me olhando com duas interrogações e uma xícara de café preto. Deus, como mudei.

Já não me reconhecia ali, parado, observando o não-ficcional, tentando me lembrar de tudo como se meu pensamento conseguisse ser mais ágil que o tempo em si, em sua ação instantânea e feroz, capaz de atropelar aqueles que não pensam em nada. Pois é, ontem eu me vi de novo. E percebi que apesar de ter mudado ainda sou a mesma pessoa. Porque continuo acreditando em tudo que vem de boa fé. Em tudo que vem sem propósito. O melhor da vida é saber que, sim, há coisas que caem do céu.
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01/10/2007
ÚLTIMA CHAMADA

Enfim, resolveram o problema de Congonhas: tiraram da lista de pousos e decolagens todos os vôos para Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Isto quer dizer que, além do aeroporto operar de acordo com a sua capacidade, saguão e corredores não terão mais aquele clima de rodoviária no ar. E que também que não teremos mais caixotes amarrados com barbante na esteira e nem grupos de axé na fila do check in – ufa, que alívio.

Vai ser melhor para todo mundo, você vai ver. Os ônibus voadores da Gol e da TAM agora levantam de Guarulhos e Viracopos, ou seja, o tempo que um baiano levará para chegar até eles, contando com o trânsito na Marginal e os atrasos já previstos, talvez seja o mesmo que tomaria para desembarcar em Salvador. Mas eu bem que gostei dessa novidade, afinal sou separatista e, para mim, integração nacional é Ibope de novela ou parada musical.

O raio de mil quilômetros estipulado pela Anac só põe na roda embarques e desembarques para o Sul e Sudeste... e Brasília. Por mim, deixaria a capital de fora. Sem meio de transporte e bem isolada do resto do país. Também cortaria o serviço de distribuição de energia elétrica, esgoto e comunicações. Brasília foi a pior invenção do século passado, uma cidade que já nasceu superfaturada e com problemas de acabamento.

Gozei.
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www.ego.com.br Todos os dias, em caráter excepcional, críticas construtivas e crônicas destrutivas do mundo moderno na visão de Hermés Galvão, um jornalista antiquado.
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