19/10/2007
23 COISAS QUE SUPEREGO NÃO ENTENDE

. Tomate decorativo para saladas e maioneses
. Rodinhas de violão
. Fãs de Legião Urbana
. Kenny G
. Coral de igreja
. Artesanato
. Vernissage
. Estréia teatral para a classe artística
. Filme que se passa no Nordeste
. Pedra sabão
. Nike Shock
. Micareta
. Café da manhã colonial
. Dança contemporânea
. Arnaldo Antunes
. Espírito Santo
. Amídala
. Workshop
. Ervilha
. Coleção de miniaturas
. Esmalte no dedo mindinho do pé
. Suflê
. Guianas
comentários [ ]

18/10/2007
O LIVRO DO APOCALIPSE

A Caras é a minha bíblia sagrada. Nela eu reforço a fé na capacidade do artista de se superar na arte de pagar mico. Vibro toda semana ao folhar a revista e ver os famosos vestidos de colchonete amarrado sorrindo em algum destino invernal e participando de corridas de trenó em Bariloche ou tomando chocolate quente em Gramado. Amo, amo, amo.

Enquanto aguardo minha consulta – sou hipocondríaco: visito médicos com mais freqüência que amigos –, fico imaginando o que passou na cabeça de Isadora Ribeiro, por exemplo, na hora descer o morro nevado carregada por dois pares de husky siberiano. Ou o que levou Marcos Paulo a cantar no karaokê do chalé de Campos de Jordão ao lado de David Brazil e sua cara de copeira de orfanato.

Sempre marco as quartas-feiras na agenda para cortar o cabelo, pois sei que neste dia, sobre a mesa do salão, repousa uma Caras quentinha e ainda sem o cheiro de alisante deixado pelos dedos da cliente regular que jura ter nascido loira e lisa. E ontem, enquanto fazia meu mis-en-plis, vibrei ao ver a última capa com Humberto Martins fantasiado de smoking alugado presenteando o príncipe Edward com uma (glup) obra de arte assinada pelo mestre de obras Romero Britto. O ator foi premiado com uma viagem à Escócia depois de participar de um daqueles campeonatos onde as celebridades fazem o papel de pessoas refinadas ao praticar esportes que jamais fizeram na vida.

Bem, o quadro retrata o rosto do príncipe de forma, como dizer?, contemporânea, e foi encomendado pela própria Caras. Imagino que o editor de Caras passe as horas a arquitetar situações onde o grotesco beira o ingênuo, onde o cafona beira o excêntrico e onde Elaine Mickely beira o fracasso. Penso nele como um ser diabólico capaz de criar momentos de absurdo divino. Não, ele não é o capeta. O editor de Caras é semi-Deus. Amém.
comentários [ ]

17/10/2007
FRONTEIRAS

Fotos de Flavia Alessandra em pose tipo fácil acesso foram parar num site inglês de prostituição. O jornal inglês The Gardian informa que traços de cocaína foram encontrados na urina do brasileiro Jean Charles de Menezes. A imigração inglesa deportou na noite de ontem dois brasileiros procedentes de Betim levando na carteira 200 libras e um cartão de débito da Caixa Econômica ‘valid only in Brazil’. Boa parte dos garçons e garotos de programa residentes e operantes em Londres são brasileiros ilegais. Uma minoria já conseguiu fixar residência, mesmo tendo comprado um passaporte português pelas mãos da máfia angolana. Não somos bem-vindos e nem bem vistos no Reino Unido. Nunca fomos.

Metade dos turistas ingleses que visita o Brasil procura as cidades nordestinas para exercer em paz suas taras com meninas de, no máximo, 15 anos. Boa parte dos britânicos que aqui desembarca pensa que cada um de nós nasceu para servi-los como fazem nossos conterrâneos nos restaurantes e pizzarias do West End. Enfim.

Não demora a Jean Charles passar de vítima a bandido. Não demora outra atriz aparecer por acaso sendo vendida a preço de chá cingalês. Falta pouco para outro casal mineiro bater e voltar em Heathrow. Neste momento uma leva de londrinos sai pelas ruas de Fortaleza à procura de raparigas famintas. Acontece que tá tudo bem assim. Prendemos-nos às exceções de uma regra imposta pelo tempo e pelos atos alheios. Falhos e cheios de falhas. Aumenta a fronteira.
comentários [ ]

16/10/2007
VENDE-SE

Moramos muito longe, eu sei. E uma viagem internacional para nós tem um caráter mais heróico que turístico. Conseguir sair do país é uma bênção divina, poucos são aqueles que vão e vêm com certa e importante periodicidade. Muitos de nós sequer conhecemos outro estado, nossa maioria passa férias – quando as têm – em casa ou pior: visitando lugares sem a menor graça – como as cidades históricas de Minas. Quem vai além acaba comprometendo parte do salário de um ano inteiro só para passar seis, sete dias longe da realidade, ou como diria sua prima de Goiânia “adquirindo bagagem cultural no estrangeiro”. E ao retornar, passa dez vezes mais tempo falando para os amigos o que fez ou deixou de fazer, que está no fuso e que ainda não conseguiu voltar ao normal.

Essa minoria esmagadora que luta contra o próprio bolso e vai à busca do sonho de ver ao vivo aquele cenário onde foi gravado o primeiro capítulo da nova novela das sete. A maioria, não. E a falta de dinheiro tira do chão quem não tem um tostão para comprar um par de sandálias. Sem um real na carteira vai para o ralo a dignidade, a auto-estima, o poder de ir e vir, a personalidade. E dizem que dinheiro tem energia neutra. Mas e os milhões de mercenários frustrados que passam e repassam as notas com uma rapidez decepcionante?

Acredito que em cada cédula vive presa a vibração aterrorizante de um povo sedento por capital, por poder de compra, por algo que os tire de uma pobreza ampla e irrestrita patrocinada pela falta de grana. Passamos de mortos de fome a pessoas baratas num tilintar de registradora de supermercado, nos vendemos por um trocado que mal paga a conta do dia-a-dia. Pois a vida é um acerto de contas e estamos sempre a dever a ela pelo empréstimo concedido. Promissória de fé, extrato de alma. Vivo no meu limite e espero por um saldo positivo mesmo sabendo que o homem opera no vermelho desde a invenção do cartão de crédito. Dinheiro compra felicidade, mas a que eu vi à venda custa tão caro que ninguém consegue levar para casa. Espero pela promoção. Para ser feliz por inteiro pagando a metade do preço. Às vezes sou tão barato.

comentários [ ]

15/10/2007
SUBO NESSE PALCO?

Fui ao teatro no mesmo dia em que morreu Paulo Autran. Convencido por uma amiga atriz, me dei ao desfrute de assistir a uma peça de cunho, glup, experimental e, de acordo com aquela que me convidou, um espetáculo que discute os dramas contemporâneos sob um ponto de vista jovem e atual. Enfim, baboseiras de um exercício artístico ultrapassado e leviano – este, o teatro. E fui assim mesmo, mesmo sabendo se tratar de um grupo mineiro de nome Espanca, mesmo sabendo que tudo indicava ser um programa não de índio, mas de burro.

Não gosto de teatro, nunca gostei. Jamais gostarei. Tenho horror àquela voz impostada (e impostora), aquele timbre tipo Camila Morgado subindo os plurais para níveis inaudíveis e principalmente as metáforas procuradas pelos autores para falar de coisas simples da vida. Tudo isso só para tornar o roteiro, o argumento, sei lá o quê em algo menos perceptível, inatingível e inexplicável para que, enfim, torne-se uma peça cabeça. Pois tenho horror à gente cabeça.

Escorria da cadeira à medida que transcorria o espetáculo, a cada diálogo subia em mim um incontrolável sentimento de vergonha alheia e uma vontade impulsiva de gargalhar só para ver a reação da platéia, formada basicamente por estudantes de comunicação, artes cênicas e cinema e também por assinantes daqueles famigerados carnês que oferecem todo tipo de peça teatral – como esta.

Luz no proscênio. Entra o ator número 3. Ruim. Seu sotaque me tirou a atenção, já não conseguia prestar nem mesmo em mim. Ali, me senti raptado, violentado e mergulhado num processo de auto-traição sem perdão. O que eu fiz para estar lá? Não, não pode ser tão ruim assim. Vai passar, falta pouco. Respira, pensa num cigarrinho, lembra da noite de ontem, feche os olhos. Respira. Arf, arf, sete, oito, e foi. Respira.

Meu Deus entra a atriz número 1, protagonista. Ela começa a gritar, tipo Camila Morgado. Não bastava falar? O teatro é pequeno o suficiente para ouvir, inclusive, o barulho de sua respiração ofegando dentro do método Stanislavski. Medo, pavor, pânico. Ao subir a entonação, no crescer da iluminação, ela começa suas elucubrações sobre o nada. Veio em mim aquela terrível sensação de que a peça jamais irá acabar. Desisti de lutar ali mesmo, a 40 minutos do começo. Ou seria do fim?

Já com muito pouco para perder além de alguns minutos de meu tempo precioso e apreciado, passei a lembrar de Paulo Autran e de outros senhores atores que já morreram ou que estão com o pé na cova (afinal, Ítalo Rossi está vivo?). Concomitantemente tentei fazer uma lista de jovens atores, bons atores, para ver se a lei da reposição estava em andamento, se daqui a alguns 20 anos teremos bons atores nos palcos. Não, não teremos. Hoje não existem cinco jovens atores decentes em atividade. Exceções de uma regra banguela, eles acabam fazendo sempre todos os filmes, todas as peças, todas as novelas.

Já não agüento mais olhar para Wagner Moura, Lazaro Ramos e Selton Mello. E o que vem atrás é tão fraco que tenho medo só de pensar no dia em que eles resolvam montar Tchecov, Brecht e outros mais que jamais, em tempo algum, fiz questão de entender. Hoje o teatro é uma arte menor porque é feita por gente pequena. Interpretações que fariam Paulo Autran levantar do túmulo. Em homenagem a ele e por amor próprio prometo nunca mais colocar meus pés num teatro.

Passa lá em casa que a gente conversa.
comentários [ ]

11/10/2007
LÍNGUA

Eu adoro meus leitores sazonais. São todos uns dissimulados. Aparecem diariamente e quando não gostam do que escrevo dizem que “foi a primeira e última vez que entrei neste blog”.

E lá estão eles, reclamando e buscando em seu tímido vocabulário palavras que possam responder às minhas criticas de forma clara. Meus leitores sazonais quando não gostam (ou melhor, quando não entendem) dizem que sou preconceituoso e racista.

Assim sendo, se eu não gosto dos mineiros é porque sou racista. Se não gosto de carnaval é porque sou preconceituoso. E a vida segue, assim, tão sem palavras. O brasileiro tem lá seus sentimentos, mas não sabe expressá-los e nem nomeá-los.

Em sua rala sabedoria, batizou com nomes chulos tudo aquilo que o cerca, de objetos a pessoas. E fez das gírias e dos sotaques carregados nas vogais e desprovidos de plurais sua nova língua, miserável em sua insignificância.

Da falta de educação e de informação nasceu um dialeto primitivo, tribal, desses falados por pequenos grupos isolados do resto do mundo. Passados seis anos do terceiro milênio, leio um povo que morreu pela boca.
comentários [ ]

10/10/2007
TRAPO DE ELITE

Eu vi Tropa de Elite. Pirata. Chegou à minha casa sabe Deus como, e a Ele agradeci pela graça oferecida. Teve até cervejinha com amendoim, para se ter uma idéia da alegria de assistir ao filme mais esperado do ano daquela semana fria, há coisa de três semanas.

Gostei, mas não ameeeei. Já vi coisa parecida em dois ou três longas, sei lá, e ao ver Wagner Moura atuando tive uma desconfortável sensação de já ter visto ele fazendo aquela mesma cara em alguma outra cena.

Aquele mesmo tipo em algum mesmo filme. Wagner Moura tornou-se um ator randômico que invariavelmente aparece na TV quase sem ao menos precisarmos ligá-la. É como uma placa do drive-thru do Mc Donald’s na Via Dutra: quando menos se espera, lá estão os enormes “emes” em amarelo chamando a atenção nos dois sentidos da estrada.

Mas enfim, Wagner é bacana. Bem bacana. E o post de hoje não é sobre ele, tampouco sobre sua sobrecarga profissional ou sua superexposição. Neste fim de semana, um amigo ligou convidando para assistir à Tropa de Elite, no cinema.

- Mas como você viu a versão pirata? Ta maluco?
- Ahã. (acendo um cigarro, aliás, o último. Estou sem fumar há três dias)
- Cara, que péssimo exemplo. Logo você, jornalista. Cadê sua ética?
- Então, que horas é a sessão?
- Você vai assistir de novo?
- Ahã.
- Tá. Desce em meia hora, antes preciso passar na casa da Rafa para pegar um baseado.
- Ahã.

A gente queria fazer uns papéis diferentes, sei lá...
comentários [ ]

Entrar no 

www.ego.com.br Todos os dias, em caráter excepcional, críticas construtivas e crônicas destrutivas do mundo moderno na visão de Hermés Galvão, um jornalista antiquado.
06/04/2008 - 16/04/2008 27/03/2008 - 06/04/2008 17/03/2008 - 27/03/2008 07/03/2008 - 17/03/2008 26/02/2008 - 07/03/2008 16/02/2008 - 26/02/2008 06/02/2008 - 16/02/2008 27/01/2008 - 06/02/2008 17/01/2008 - 27/01/2008 07/01/2008 - 17/01/2008 28/12/2007 - 07/01/2008 18/12/2007 - 28/12/2007 08/12/2007 - 18/12/2007 28/11/2007 - 08/12/2007 18/11/2007 - 28/11/2007 08/11/2007 - 18/11/2007 29/10/2007 - 08/11/2007 19/10/2007 - 29/10/2007 09/10/2007 - 19/10/2007 29/09/2007 - 09/10/2007 19/09/2007 - 29/09/2007 09/09/2007 - 19/09/2007 30/08/2007 - 09/09/2007 20/08/2007 - 30/08/2007 10/08/2007 - 20/08/2007 31/07/2007 - 10/08/2007 21/07/2007 - 31/07/2007 11/07/2007 - 21/07/2007 01/07/2007 - 11/07/2007 21/06/2007 - 01/07/2007 11/06/2007 - 21/06/2007 01/06/2007 - 11/06/2007 27/05/2007 - 01/06/2007 22/05/2007 - 27/05/2007 07/05/2007 - 22/05/2007 22/04/2007 - 07/05/2007 07/04/2007 - 22/04/2007 23/03/2007 - 07/04/2007 08/03/2007 - 23/03/2007 21/02/2007 - 08/03/2007 06/02/2007 - 21/02/2007 22/01/2007 - 06/02/2007 07/01/2007 - 22/01/2007 23/12/2006 - 07/01/2007 08/12/2006 - 23/12/2006 23/11/2006 - 08/12/2006 08/11/2006 - 23/11/2006 24/10/2006 - 08/11/2006 09/10/2006 - 24/10/2006 24/09/2006 - 09/10/2006 09/09/2006 - 24/09/2006 25/08/2006 - 09/09/2006 10/08/2006 - 25/08/2006 03/08/2006 - 10/08/2006 27/07/2006 - 03/08/2006 20/07/2006 - 27/07/2006 13/07/2006 - 20/07/2006 06/07/2006 - 13/07/2006 29/06/2006 - 06/07/2006 22/06/2006 - 29/06/2006 15/06/2006 - 22/06/2006 08/06/2006 - 15/06/2006 01/06/2006 - 08/06/2006 25/05/2006 - 01/06/2006 18/05/2006 - 25/05/2006 11/05/2006 - 18/05/2006 04/05/2006 - 11/05/2006 27/04/2006 - 04/05/2006 20/04/2006 - 27/04/2006 13/04/2006 - 20/04/2006 06/04/2006 - 13/04/2006 30/03/2006 - 06/04/2006 23/03/2006 - 30/03/2006 16/03/2006 - 23/03/2006 09/03/2006 - 16/03/2006 02/03/2006 - 09/03/2006 23/02/2006 - 02/03/2006 16/02/2006 - 23/02/2006 09/02/2006 - 16/02/2006 06/02/2006 - 09/02/2006 30/01/2006 - 03/02/2006 16/01/2006 - 27/01/2006

2000-2007 Globo.com. Todos os direitos reservados.