15/10/2007
SUBO NESSE PALCO?
Fui ao teatro no mesmo dia em que morreu Paulo Autran. Convencido por uma amiga atriz, me dei ao desfrute de assistir a uma peça de cunho, glup, experimental e, de acordo com aquela que me convidou, um espetáculo que discute os dramas contemporâneos sob um ponto de vista jovem e atual. Enfim, baboseiras de um exercício artístico ultrapassado e leviano – este, o teatro. E fui assim mesmo, mesmo sabendo se tratar de um grupo mineiro de nome Espanca, mesmo sabendo que tudo indicava ser um programa não de índio, mas de burro.
Não gosto de teatro, nunca gostei. Jamais gostarei. Tenho horror àquela voz impostada (e impostora), aquele timbre tipo Camila Morgado subindo os plurais para níveis inaudíveis e principalmente as metáforas procuradas pelos autores para falar de coisas simples da vida. Tudo isso só para tornar o roteiro, o argumento, sei lá o quê em algo menos perceptível, inatingível e inexplicável para que, enfim, torne-se uma peça cabeça. Pois tenho horror à gente cabeça.
Escorria da cadeira à medida que transcorria o espetáculo, a cada diálogo subia em mim um incontrolável sentimento de vergonha alheia e uma vontade impulsiva de gargalhar só para ver a reação da platéia, formada basicamente por estudantes de comunicação, artes cênicas e cinema e também por assinantes daqueles famigerados carnês que oferecem todo tipo de peça teatral – como esta.
Luz no proscênio. Entra o ator número 3. Ruim. Seu sotaque me tirou a atenção, já não conseguia prestar nem mesmo em mim. Ali, me senti raptado, violentado e mergulhado num processo de auto-traição sem perdão. O que eu fiz para estar lá? Não, não pode ser tão ruim assim. Vai passar, falta pouco. Respira, pensa num cigarrinho, lembra da noite de ontem, feche os olhos. Respira. Arf, arf, sete, oito, e foi. Respira.
Meu Deus entra a atriz número 1, protagonista. Ela começa a gritar, tipo Camila Morgado. Não bastava falar? O teatro é pequeno o suficiente para ouvir, inclusive, o barulho de sua respiração ofegando dentro do método Stanislavski. Medo, pavor, pânico. Ao subir a entonação, no crescer da iluminação, ela começa suas elucubrações sobre o nada. Veio em mim aquela terrível sensação de que a peça jamais irá acabar. Desisti de lutar ali mesmo, a 40 minutos do começo. Ou seria do fim?
Já com muito pouco para perder além de alguns minutos de meu tempo precioso e apreciado, passei a lembrar de Paulo Autran e de outros senhores atores que já morreram ou que estão com o pé na cova (afinal, Ítalo Rossi está vivo?). Concomitantemente tentei fazer uma lista de jovens atores, bons atores, para ver se a lei da reposição estava em andamento, se daqui a alguns 20 anos teremos bons atores nos palcos. Não, não teremos. Hoje não existem cinco jovens atores decentes em atividade. Exceções de uma regra banguela, eles acabam fazendo sempre todos os filmes, todas as peças, todas as novelas.
Já não agüento mais olhar para Wagner Moura, Lazaro Ramos e Selton Mello. E o que vem atrás é tão fraco que tenho medo só de pensar no dia em que eles resolvam montar Tchecov, Brecht e outros mais que jamais, em tempo algum, fiz questão de entender. Hoje o teatro é uma arte menor porque é feita por gente pequena. Interpretações que fariam Paulo Autran levantar do túmulo. Em homenagem a ele e por amor próprio prometo nunca mais colocar meus pés num teatro.
Passa lá em casa que a gente conversa.