26/10/2007
PANELA VELHA

A terceira idade está causando. Na quarta-feira, uma véia de 76 anos foi presa em flagrante por tráfico de drogas em Juiz de Fora, distrito mineiro de Petrópolis. Foram localizadas em sua fralda geriátrica dez pedras de crack e sete porções de maconha. Arrasa, vovó.

E ontem, aposentados da Petrobras ficaram nus em protesto, em frente à sede da empresa, no Rio. De calças arreadas e aparentemente desprovidos de pinto, eles reclamavam contra o que consideram ser uma "política discriminatória" os planos de aposentadoria e pensões da companhia.

Na segunda-feira, a argentina Adelfa Volpes, de 82 anos, morreu por excesso de prazer depois da lua-de-mel com o marido, de 24 anos, no Rio. Enquanto isso, Dercy Gonçalves continua viva – já enterrou Paulo Autran, Nair Bello e Raul Cortez – e não tem milagre que explique sua presença neste plano. Eu bem acho que Dercy já desencarnou, o que vemos é um holograma.

E Dona Canô faz 100 anos, mais lúcida que Caetano Veloso. Hebe Camargo ainda aguarda testes de carbono 14 para identificar sua contagem, ou em que Era veio ao mundo, e Silvio Santos entra na quarta idade, a Roberto Marinho.

Por um outro lado, Paris Hilton diz que quer ser congelada para que no futuro seja reaquecida e volte a viver daqui a 70 anos, quando todas as suas amiguinhas já estiverem batendo papo com Anne Nicole Smith sentadas em alguma nuvem carregada que paira sobre Beverly Hills.

Eu nasci há dez mil anos atrás. E quero morrer bem velho. E ser um idoso muito chato, cheio de manias: de guardar sacolas plásticas, de colecionar guarda-chuva, de saber de cor o número de vasilhas Tupperware na despensa, de dar bengalada na cabeça de jovens arruaceiros. Isso sim é vida.
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25/10/2007
TEMPO, TEMPO, TEMPO, TEMPO

Tiraram-me o tempo ou foi ele que correu de mim. Tudo passa tão depressa, já não ando devagar e a sensação de estar sempre atrasado tornou-se uma paranóia cotidiana, corriqueira. Não olho para o relógio, pois sei que as horas já correm em nova velocidade.

Uma hora em trinta minutos, quando olho para fora o dia já deu lugar para noite. Sequer vi o sol, não fui lá fora tomar uma fresca. Chego em casa e todos já estão dormindo. A sala não faz os barulhos de antes.

Me sinto um bocado só e temo em dizer que amanhã não será diferente. Como fazer para voltar atrás sem regredir? Sonho por instantes de calmaria e não sei exatamente a que ponto estou desta madrugada. Mais uma.

Não converso, apenas dou ordens. Não falo, só escuto. Não verbalizo, apenas escrevo. É pouco, tenho em mim imensa vontade de sentar à mesa e perguntar “como foi seu dia?”, “quer jantar comigo?”, “vamos ao cinema?” Estou com saudades de mim, e preciso olhar para trás para buscar-me outra vez.

É que vivo adiantado demais agora. Fiquei no atraso. Todos dormem para acordar a tempo de entender o amanhã. E aproveitar cada segundo da vida. Um sopro dela. Pois agora vou me deitar. Preciso de mim daqui a muito pouco.

Tenho medo de amanhecer sem lavar os dentes. Não escová-los enquanto é noite talvez seja a pior forma de insônia. Quero correr. Como na praia. De repente vi coqueiros outra vez. Vou sonhar com eles. Para o tempo parar, para voltar nele e respirar de novo.
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24/10/2007
NA FILA DO CAIXA

Madrugada em São Paulo. Um casal conversa na fila do caixa de uma padaria especializada em sopas noturnas.

- Eu conheço você.
- Da Ilha Porchat, não é?
- Você era amigo do Zé, que fazia o som?
- Era.
- Nossa, como eu dançava naquela época.
- Nem me lembro o que se ouvia.
- Escuta, por onde anda aquela turma da praia?
- Perdi contato com todo mundo.
- Ainda falo com a Jussara, somos quase vizinhas.
- Dia desses, esbarrei com o Pedrão na rua de baixo.
- Você engordou.
- Nossa, você também.
- Quantos anos agora?
- 40 e poucos, mas casada.
- Continuo solteiro.
- Nem namorada?
- Não.
- E namorado?
- Só na adolescência.
- Mora por aqui?
- Não, só vim buscar o pão de amanhã.
- Anota meu telefone.
- Pega o meu endereço.
- Nos vemos?
- Já nos vimos.
- Quer ver mais?
- Só se eu mudar de idéia.
- Gostei de te ver.
- Mundo pequeno.
- Cidade grande.
- Nada, casualidades de classe média.
- Faz o quê da vida?
- Trabalho.
- Em quê?
- Nada surpreendente.
-
- E você?
- Pedagoga.
- Que previsível.
- Nunca escondi de ninguém mesmo.
- Matemática?
- Isso.
- Que sensível.
- Não por isso.
- Filhos?
- Não.
- Ta ouvindo?
- O quê?
- Essa música.
- E...?
- Não te diz nada?
- Já esqueci.
- Mas você lembrava do Zé...
- É meu marido.
- Que previsível.
- Nunca escondi de ninguém mesmo.
- A fila andou.
- Preciso correr.
- Até breve.
- Não tenho esse tempo.
- Então adeus.
- Não precisa ir tão longe.
- Até mais.
- Muito vago.
- Tchau.
- Tchau.
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23/10/2007
RIQUINHO

Luciano Huck vai ganhar um novo Rolex do amigo Fernando Di Gênio. O que é a fraternidade entre os seres humanos, não é mesmo minha gente? Presente de grego, este relógio. Eu, se fosse o apresentador, aceitaria o regalo. Eu, se fosse o ladrão, voltaria à cena do crime. Será que Luciano teria coragem de sair por aí usando um Rolex outra vez? Sim, teria. Acho que é mais forte do que ele, e concordo com a máxima de que temos o direito de ter, ir e vir.

Será que Fernando Di Gênio toparia dar carona para Luciano sabendo que ele é presa mais fácil da atualidade? Eu teria medo de andar com Huck, vai que me confundem com rico e tiram de mim algo que nem terminei de pagar. Vivo com medo porque ando a prestação. Se hoje me levam o relógio, por exemplo, ficarei seis meses pagando por algo que já não tenho.

Pois somos assim mesmo, consumimos o luxo em parcelas fixas e não temos sequer um futuro confortável a prazo. Todos dividindo no cartão, voando com cheques e comprando roupa de rico para minimizar a cara de pobre. Não adianta. Lição número 1: não se pode ter nada por aqui, se não é o fisco, é o bandido. Se não é o ladrão é o olho gordo da colega ao lado. Cada um na sua, sem ostentação.

Porque, juro, quando vejo uma perua dourada mancando de salto na calçada dos Jardins, tudo que desejo é um pequeno arrastão de efeito moral. Só para assustá-la. E quem sabe assim fazê-la cair na real. Ou pelo menos, que uma força maior a faça tirar aquela fantasia de mulher de fazendeiro.

O rico brasileiro é cafona. Chiques somos nós, que fomos obrigados a só ter o supérfluo necessário. Melhor assim, ninguém tira de quem pouco tem. Descobri que posso sobreviver à guerra dos mundos trajando apenas o básico. Discrição, nada de bandeira, guardo meus segredos a sete chaves e num cofre de fundo falso. Adoro essa vida classe média. Estou a salvo.
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22/10/2007
GENTE

Daniela Mercury está namorando uma mulher. U-hu, até que enfim uma notícia picante aparece nos jornais de um país onde, no máximo, mulher que gosta de mulher é curiosa. Mesmo sem assumir com todas as três letras g-a-y, Daniela é, antes de tudo, uma baiana.

E é bom lembrar que todo baiano é comum de dois, híbrido, não identificado. Quase transgênero. É só participar do Carnaval de Salvador para ver que, na hora agá, o baiano é o que o momento proporciona. Encara o que vier pela frente, seja homem ou ganso. Como os anjos, os baianos não têm sexo definido.

E estão alheios a rótulos científicos, podendo ser, ao mesmo tempo, heteros ou homossexuais sem que isso mude os rumos de suas vidas. Baiano tem dessas coisas, gosta de ser feliz e confirma a vontade na horizontal. Gente é muito bom, gente deve ser o bom, tem de se cuidar, de se respeitar o bom.

Marina, Bethânia, Dolores, Renata, Leilinha, Suzana, Dedé... Gente quer comer, gente quer ser feliz. Rodrigo, Roberto, Caetano, Moreno, Francisco, Gilberto, João. Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome. Gozai, oh pátria viril.

Quem de nós dois?
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www.ego.com.br Todos os dias, em caráter excepcional, críticas construtivas e crônicas destrutivas do mundo moderno na visão de Hermés Galvão, um jornalista antiquado.
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