04/12/2007
TEMPO, TEMPO, TEMPO, TEMPO
A expectativa de vida do brasileiro ‘já’ passa dos 70 anos. Que maravilha, não? O que o IBGE e nenhum outro centro de pesquisas conseguirão saber é quanto tempo de vida útil o brasileiro consegue ter. Pois quantos de nós sabemos aproveitar a vida? Perde-se tanto tempo com pequenas questões que sequer percebe-se que o mundo corre depressa e muitos de nós acabamos perdendo o timing.
Conheço tanta gente que ainda vive ontem. E vejo que para muitos o amanhã vai ser igualzinho ao dia de hoje, e que os minutos ganham o peso de horas, os segundos passam fora de compasso. E já é tarde outra vez, mas o que foi feito mais cedo em nada resultou. Aos 70, aos 80, aos 90.
Ainda acho a vida curta demais, não me conformo com o tempo real. Não quero acreditar que um cão vive apenas 15, talvez 17 anos. E que meus irmãos já não têm 5, 7 anos. Não faz muito tempo era 1975. E parece que foi agora pouco meu primeiro dia de aula na escola, ainda consigo ver minha lancheira com uma garrafa térmica amarela cheia de suco de uva e uma tupperware azul clara com biscoitos e sanduíche.
Ao mesmo tempo, já não me lembro mais o que fiz esta manhã. Memória seletiva, pode ser, mas antes disso uma cabeça retroativa que se recorda do passado em consignação. Faltam 27 dias para 2008 e minhas resoluções para 2007 ainda não foram de todas alcançadas. Falta de tempo, mas ainda assim agradeço a ele pela rapidez e eficiência de apagar da minha história certas coisas que sequer mereciam acontecer. Mas se aconteceu foi porque eu quis. E quero lembrar-me de todas elas em algum momento da vida. Talvez quando eu tiver próximo dos 70. Talvez depois. Só não sei ainda se quero morrer.
Existe uma maneira de viver sempre e sempre viver de modo a ser lembrado para sempre. Pode parecer estranho o que vos digo, mas é o que me acontece agora. Por isso respeito minhas palavras e espero que elas, um dia, sejam compreendidas por todos. Para o bem, para o mal, ou muito mal, mas escrever é minha forma de viver. Que todos vocês consigam um dia fazer algo para ser lembrado depois. Para que possamos recordar de você em alguma mesa de gamão, em algum ponto entre a pracinha e a varanda do asilo. Quero mais que 70, quero tudo.
Quero que a vida só aconteça porque eu aprendi a vivê-la. Como se não houvesse amanhã. Essa história me lembra meu irmão do meio, Hélio, que, quando criança, perguntava a toda gente “quantos ânus você tem?” A resposta era sempre a mesma. E a gente dava risada, como se aquela fosse a piada do século. De certa forma era. E lembrei-me disso agora. Pois, memória seletiva. Eletiva. Afetiva. Se eu me esquecer dela aos 70, ele me lembrará.
Porque o tempo não apaga certas coisas. E sorte a nossa que nunca iremos saber exatamente o que iremos levar para o futuro. Adoro as incertezas. Vivo delas. E são elas que me fazer pensar no tempo como fator relativo. Absolutamente eu.
Arpoador, 1978. Mamãe e eu. Fofo, não?