07/12/2007
TGI FRIDAY’S

Preguiça de escrever. Tô meio atordoado com a programação do fim de semana – medo, na verdade, de ter que conversar com muita gente uma vez que estarei metido em multidão de hoje a domingo. Vou sair de casa com o coração na mão, rezando para todos os deuses de todas as tribos me protegerem do mal e da muitíssima provável aparição de uma antiga colega de trabalho querendo puxar assunto entre o café e o embarque.

Vou ao Rio, mas não esperem por mim. Se me virem, virem as costas. Ou virem-se de lado para que eu possa dar um beijinho paulista e sair de fininho sem deixar vestígios ou lembranças recentes. Ando tão agoniado com tudo que sou capaz de fingir ser outra pessoa só para não ter que cruzar com a realidade dos fatos e atos. Quando me encontrar, por favor, finja ser elegante. Ou, ao menos, formal.

Mas não me cumprimente bêbado, não pergunte por outro alguém, não fale de trabalho. No máximo, estenda a sua mão e acenda o isqueiro para mim. Será de uma educação ímpar. Tem certeza que você não quer ficar na sua casa só para eu poder sair da minha? Faça isso. Não por mim, mas pela humanidade. A minha humanidade. Tão sincera e individualista. Como devem ser as coisas. Como deve ser a vida. Beijos e bom fim de semana. Para você e para os seus.
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06/12/2007
CORRIDA MALUCA

Viver tem sido desconfortável, mas ainda encontro um par de almofadas para me encostar sem que doam as minhas costas. É que às vezes cansa, não por nada. Nasci sem muita disposição para conviver comigo mesmo desta maneira, tão íntima que chega a invadir a minha privacidade.

Tem um lado de mim, o de dentro, que quer ficar quieto. O outro cutuca e abre certas questões em modo de ferida. Curativos ou panos quentes, não sei, mas tem sido cada vez mais complicada a profilaxia desses machucados e tornei-me assim tão paliativo que já consigo conviver com certas dores sem que elas me façam parar.

Desafio qualquer um a desligar-se do automático para olhar a sua volta e ver o que ficou para trás. Parece doença, uma obcecada caminhada rumo ao futuro, uma correria para chegar na frente, antes de todo mundo, em primeiro lugar. Não basta participar, tem que competir e vencer.

O prêmio é mérito próprio, auto-referência e egotrip. Auto-estima e insegurança a toda prova, provar para si mesmo que já não és como um dia disseram sobre você, mudar a opinião de todos sem que a sua tenha qualquer tipo de importância. O que falamos dos outros e de nós já não tem o menor crédito, mentimos tanto.

Só sei que o que sei não vai ajudar em nada. Preciso agora de uma idéia infalível para descer do mundo sem que eu perca as voltas que ele dá. É possível parar? Não corram, andem. Que eu pego vocês adiante.
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05/12/2007
CHRISTFEST

O espírito natalino entrou pela porta dos fundos e já não consigo mais fechar os olhos sem que luzes pisca-pisca atormentem o meu escuro íntimo. Lá fora faz 22 graus e a neve artificial cai sobre os pinheiros armados em frente às lojas da cidade. Os shoppings já contrataram velhos hipertensos para animar (ou espantar, como era o meu caso em criança) a praça de alimentação vestidos de sauna a vapor.

Pedintes se multiplicam à medida que as compras aumentam, os pobres ficam mais pobres e ainda assim acreditam que um milagre divino possa levar, ao menos, meia coxa de chester para suas mesas vazias. Empresas começam a organizar suas festas de fim de ano, funcionárias falsas já dobram o papelzinho para o amigo secreto e sua chefa acaba de fechar um acordo com a Bauducco para entupir a sua casa de farináceos a ponto de vencer. Sua cesta básica virá recheada de azeite de oliva de segunda categoria, panetone seco, vinho barato, biscoito champagne e o pior: presunto tender.

Por que somos obrigados a viver dezembro dessa maneira? O mês mal começou e as pessoas já estão em ritmo de ano novo, prometendo mudanças estruturais e jurando para Deus e sei lá mais quem que daqui para frente tudo vai ser diferente. Comida de Natal me embrulha o estômago, retém meus líquidos e me causam azia.

Não quero comemorar o nascimento do menino Jesus em estilo nababesco. Aliás, não vejo motivo para me reunir com ninguém só por impulso coletivo. Individualismo é comer peru numa quarta-feira qualquer e convidar os amigos para uma santa ceia improvisada, cozida num domingo irreverente e de bate pronto.

Espero continuar a presentear meus amados no dia e na hora que bem desejar, sem propósito e sem razão bíblica. Tenho horror a todos os religiosos que tiram um dia no ano para rezar, rever, reavaliar, enfim, fazer o que deveria ser feito todos os dias. Simbolismo é para quem não tem significado. Signos e significantes aos desprovidos de fé na própria história. Viva o mundo pagão.

Vou-me embora para a Alemanha. Atacar de calvinista e acreditar que mereço tudo que ganhei até agora. Porque sim, porque antes de saber que Papai Noel não existia eu já sabia que nada caía do céu. Só neve. Leb wohl, sehr geehrter Herr.
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04/12/2007

TEMPO, TEMPO, TEMPO, TEMPO

A expectativa de vida do brasileiro ‘já’ passa dos 70 anos. Que maravilha, não? O que o IBGE e nenhum outro centro de pesquisas conseguirão saber é quanto tempo de vida útil o brasileiro consegue ter. Pois quantos de nós sabemos aproveitar a vida? Perde-se tanto tempo com pequenas questões que sequer percebe-se que o mundo corre depressa e muitos de nós acabamos perdendo o timing.

Conheço tanta gente que ainda vive ontem. E vejo que para muitos o amanhã vai ser igualzinho ao dia de hoje, e que os minutos ganham o peso de horas, os segundos passam fora de compasso. E já é tarde outra vez, mas o que foi feito mais cedo em nada resultou. Aos 70, aos 80, aos 90.

Ainda acho a vida curta demais, não me conformo com o tempo real. Não quero acreditar que um cão vive apenas 15, talvez 17 anos. E que meus irmãos já não têm 5, 7 anos. Não faz muito tempo era 1975. E parece que foi agora pouco meu primeiro dia de aula na escola, ainda consigo ver minha lancheira com uma garrafa térmica amarela cheia de suco de uva e uma tupperware azul clara com biscoitos e sanduíche.

Ao mesmo tempo, já não me lembro mais o que fiz esta manhã. Memória seletiva, pode ser, mas antes disso uma cabeça retroativa que se recorda do passado em consignação. Faltam 27 dias para 2008 e minhas resoluções para 2007 ainda não foram de todas alcançadas. Falta de tempo, mas ainda assim agradeço a ele pela rapidez e eficiência de apagar da minha história certas coisas que sequer mereciam acontecer. Mas se aconteceu foi porque eu quis. E quero lembrar-me de todas elas em algum momento da vida. Talvez quando eu tiver próximo dos 70. Talvez depois. Só não sei ainda se quero morrer.

Existe uma maneira de viver sempre e sempre viver de modo a ser lembrado para sempre. Pode parecer estranho o que vos digo, mas é o que me acontece agora. Por isso respeito minhas palavras e espero que elas, um dia, sejam compreendidas por todos. Para o bem, para o mal, ou muito mal, mas escrever é minha forma de viver. Que todos vocês consigam um dia fazer algo para ser lembrado depois. Para que possamos recordar de você em alguma mesa de gamão, em algum ponto entre a pracinha e a varanda do asilo. Quero mais que 70, quero tudo.

Quero que a vida só aconteça porque eu aprendi a vivê-la. Como se não houvesse amanhã. Essa história me lembra meu irmão do meio, Hélio, que, quando criança, perguntava a toda gente “quantos ânus você tem?” A resposta era sempre a mesma. E a gente dava risada, como se aquela fosse a piada do século. De certa forma era. E lembrei-me disso agora. Pois, memória seletiva. Eletiva. Afetiva. Se eu me esquecer dela aos 70, ele me lembrará.

Porque o tempo não apaga certas coisas. E sorte a nossa que nunca iremos saber exatamente o que iremos levar para o futuro. Adoro as incertezas. Vivo delas. E são elas que me fazer pensar no tempo como fator relativo. Absolutamente eu.

Arpoador, 1978. Mamãe e eu. Fofo, não?
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03/12/2007
DUAS CARAS, FALSIDADES E MENTIRAS

Descobri que Preta Gil está na Record. Todo mundo me contou, nem eu mesmo vi. Mas diz que ela está atriz agora, atuando em novela. Soube, até, quanto ela está a ganhar – isso, claro, se as palavras nunca confiáveis de sua, como dizer?, amiga de infância valerem alguma coisa pelo menos agora. Acredito que não. Mas enfim, foi um fim de semana muito produtivo para meu enriquecimento frugal.

Além de saber que Preta ainda persegue a carreira de atriz, e que seu talento, finalmente, foi reconhecido por uma emissora – mesmo que evangélica, mesmo que pagando seu elenco com dinheiro suspeitíssimo – descobri o segredo do fracasso de Duas Caras: a novela se passa na Record. A luz, o figurino, a direção, a trama, tudo, tudo.

Enfermo, deitado sobre meu leito, obcequei no horário nobre e consegui baixar minha febre à medida que a audiência caía. Ufa, 36 graus. E 36 pontos de audiência.
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30/11/2007
TYLENOL DC

Estou enfermo. Minha garganta, um lixo. Alô baianos, rezem por mim. Depois de uma semana à base de carnes magras e algumas leguminosas, meu sistema imunológico faz a primeira baixa do ano e me surpreende com a gripe do frango grelhado. Ela se abate em pessoas obcecadas por magreza, gente como eu que se sente gorda um segundo depois de comer meia lasca de chocolate. Uma semana sem carboidratos, livre de álcool em doses sociais, resistindo ao café e maneirando no cigarro. Morri. Ou quase. Levantei sem forças para apertar o tubo da pasta de dentes, suei frio na fila do banco e vesti a primeira roupa que vi na frente. Morri. Quem me conhece não vai me reconhecer. Será que os pais-de-santo começaram os trabalhos para me derrubar? Salvador, sal grosso, sal de fruta. Que enjôo.
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29/11/2007
BOTA ABAIXO

Vão demolir o estádio da Fonte Nova. Sábia atitude. Mas antes de implodi-lo, vale lembrar que a Bahia tem outros pontos críticos que merecem ir pelos ares para fins de reurbanização. O governo asséptico de Jacques Wagner poderia aproveitar o embalo e derrubar alguns símbolos da cultura soteropolitana tais como:

- Elevador Lacerda
- Mercado Modelo
- Bahia Othon Hotel
- Praça Castro Alves
- Barracas de acarajé do Rio Vermelho
- Sorveteria da Ribeira
- O bairro de Pituba
- A casa de Carla Perez
- Dique do Tororó
- Todas as obras públicas de David Bastos
- Logradouros batizados com nomes da família Magalhães
- Lojas A Insinuante
- Orixás Center
- Todos os trios elétricos
- Nizan Guanaes

Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima...
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28/11/2007
CRÔNICA POLICIAL

De todas as pessoas públicas que não conheço, Viviane Araújo é a mais desclassificada delas. Por isso mesmo, aqui vai meu voto de apoio e simpatia a sua pessoa, que invariavelmente só aparece na mídia quando está pelada, brigando com um pagodeiro ou jogador de futebol, xingando a rival ou na delegacia.

Viviane é a baixaria em corpo e alma, retrato do verão brasileiro que se aproxima prometendo reforçar os clichês da nossa cultura barata e suada. Com Viviane, vem uma leva de modelos de catálogo prontas para aparecer no sábado de Carnaval e virar pó na Quarta-feira de Cinzas.

A partir de Viviane, surgem as Gracyannes, as Ladyannes, as Suelaines, as Elianes, as Edilaines, as Gislaines e todas as ‘etes’ da lista telefônica: Gorete, Valdete, Eliette, Silvette, Luzinette e por aí vai. E isso tudo me diverte, afinal a brasileira é uma grande vedete, ou melhor, uma chacrete.

Quem rebolar mais ganha. É isso aí, tem que mexer as cadeiras. Requebrar os quadris, sacudir o esqueleto. E 350ml em cada um dos seios, faz favor. Brasil, mostra a sua cara. De bunda.
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www.ego.com.br Todos os dias, em caráter excepcional, críticas construtivas e crônicas destrutivas do mundo moderno na visão de Hermés Galvão, um jornalista antiquado.
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