20/12/2007
SEI LÁ, MIL COISAS
Vou me adiantar. Feliz Ano Novo! Pois ando cansado, apesar de ainda estar de pé. Me encontro num moquifo quente e úmido em Copacabana, rezando e contando no relógio os minutos para partir e deixar a cidade onde nasci livre para a invasão de toda sorte de gente que de hoje até o Carnaval irá regar calçadas e avenidas de urina e cerveja quente.
Estou num cyber, onde um ventilador Faet serve a 17 clientes, todos sentados e mandando seus e-mails em norueguês, inglês e russo, e aproveito a manhã nublada e abafada para me despedir e desejar a todos, eu disse todos, um ótimo 2008. Turistas entram suados, olhando a tabela de preços como se estivessem lendo uma sentença de morte, vestidos como se a dois metros daqui houvesse uma praia caribenha lotada de barmen servindo drinks fluorescentes e lindas negras de maiô cor de laranja. Parafraseando sua vizinha, O Rio de Janeiro não é mais aquele dos cartões postais. E Copacabana não tem, nunca teve, aquele mar verde esmeralda que aparece nas pequeninas fotografias de correios.
Mas Copacabana não é um lugar para turistas. Nunca foi. Suas entranhas são de acesso restrito, abertas apenas a connaisseurs e sobreviventes. Copa é a primeira Babel da América Latina e por suas vielas é possível, talvez, deparar-se com seres vindos de outro planeta. Carla, a pessoa mais copacabanense que conheço, apesar de ter nascido e vivido parte da vida no Leme (antes de surtar e tentar a paz no interior de Goiás), jura ter visto ETs passeando entre as galerias – aquelas que desembocam em um botequim cheirando a cerveja parada. A decadência de Copacabana parece ter evoluído com a minha, e a de minha família. E com o Rio de Janeiro.
Logo aqui do lado está o Beco das Garrafas, lotado de lavanderias e pequenos armarinhos. De bossa nova mesmo, só o nome de uma loja de discos, situada no outro lado de calçada. Me puseram num quarto de hotel à beira-mar, vejam só, mas nada que possa te fazer inveja. No hotel onde me encontro (até hoje, como disse anteriormente estou de partida), há carpetes no chão, móveis de 50 anos atrás, hidráulica de 70 e um recepcionista de 80 e poucos.
Do lobby a cobertura, do bell boy a arrumadeira, tudo gagá. Tenho a impressão de que minha tia avó vai sair do armário a qualquer hora e num piscar de olhos vem à mente memórias da Copacabana dos anos 70, ainda livre e animada por senhorinhas vaidosas e cobertas, vejam só, de réplicas de suas jóias. Elas usavam colares e pulseiras muito douradas, cópias de suas originais que, cadeiradas em Rio de Janeiro, sabiam ser inviáveis de desfilar assim, publicamente. Mas elas iam às ruas, praticamente à forra, como aposentadas portenhas, trajando looks vintage sem saber da existência do termo – e nada era mais moderno que ter guardado e muito bem conservado, itens que voltavam à moda. Minha avó mesmo tinha uma coleção Pucci em seu guarda-roupa, capaz de enganar a qualquer stylist nascido nos anos 80.
Mas que papo é esse mesmo? Acordei com calor, eu e janela suando frio e quente, numa alternância esquizofrênica e vendo o bairro de cima, já lotado de transeuntes e ainda com um resquício de madrugada. Travestis cansadas, de bolsa vazia, voltam para suas cabeças de porco. Velhinhas já se aglomeram na fila do banco, afinal faltam só duas horas para as portas se abrirem; baratas retornam para os bueiros, onde, acredite, há mais fartura que festa de judeu; estrangeiros vão à caça de mulatinhas de fácil acesso e os ônibus lotam as pistas da Nossa Senhora de Copacabana formando uma fila indiana que, pelo visto, só pode mesmo terminar em Mumbai.
Odeio admitir, mas Copacabana tem um poder sádico sobre mim. E de masoquista que sou, perco minha última manhã no Rio de Janeiro a falar deste lugar, tão falado e tão pouco conhecido. Pois assim será, para sempre. Copacabana é um segredo bem guardado. Auf Wiedersen. Feliz 2008, saúde, paz, sucesso, saúde, dinheiro, sexo, drogas (leves, ou pegue leve), rock, sorvetes e amor.