28/12/2007
SALSICHAO

Berlim e o ultimo refugio libertario do mundo. Na contra-mao da civilizacao, ao contrario da nova ordem, por aqui ainda se fuma em lugares fechados, se come mal e nao precisa se vestir bem para sair de casa.

A metade oriental ainda parece a Albania, e os moderninhos adoram dizer que o lado de la e mais animado, vejam so. Daqui, da face ocidental, vejo a Alemanha de fato: controladamente chata e quase cosmopolita.

Ainda estou sem entender o que se passa por aqui, desconfio que irei partir sem pegar o recado. Ou sera que e isso mesmo? A arquitetura brutalista de hoje e a mesma ideia nazi-design de outrora; o tom de conversa e praticamente uma voz de prisao e as entradas dos clubes mais parecem portoes de campos de concentracao.

Eles tentam se livrar, esquecer ou ignorar, mas nao deu. Nao mesmo. A Alemanha e uma rica e bela nacao nazista. E Berlim a prova viva de que o Reich esta de pe. Ainda assim me sinto bem, livre e em paz. Alheio a tudo e a todos, fumando e bebendo sem parar e sem cair, rindo de mim mesmo e achando a maior graca na camponesa servente que tenta, de qq jeito, descobrir de onde vim. Mal sabe ela que nao sou de lugar nenhum.
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27/12/2007

Ah, viagens em grupo... De nada servem, a nao ser para adolescentes, jovens e senhores retardados que esperam recuperar o tempo perdido se utilizando de cacoetes ancestrais. Nao, meus amigos, nao viagem em grupo: viajem, no maximo, em dupla. Como combinados de sushi, como motocicletas e mesas em restaurantes pequenos. A vida e feita para duas pessoas. Mais que isso e imoral. Viajar em grupo, uma experiencia para ser vivida ate os 26 anos. Depois disso e retrocesso cultural. Ou retardamento mental. Ou os dois. So nao quero perder mais tempo ja que tenho o habito de fazer tudo a tempo e sem neuras de perseguir o tempo perdido. Cinco, seis pessoas nao cabem no taxi, nao entram no restaurante, nao chegam na hora. E brasileiro quando esta de ferias vive dizendo "relaxa, estamos de ferias". Dai passam o dia perambulando, nessa relaxada, sem fazer nada de util. Assim sao as ferias de alguns. Nao serao as minhas.
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26/12/2007
MITTE, GARTEN, ETC

Tenho verdadeiro horror a resolucoes. Elas sao como promessas, e como todas jamais sao cumpridas. Dezembro me agonia de certa forma, pois ao mesmo tempo que pensamos no que faremos no proximo ano olhamos para tras para ver o que nao fizemos no passado – e tudo que fazemos e jurar que daqui para frente tudo vai ser diferente.

E nao conheco ninguem que tenha, de fato, mudado da noite para o dia, ou melhor, de um ano para outro. Porque o que insistimos na vida, entra ano sai ano, e mudar na essencia. Nossos defeitos essenciais sao os que mais nos incomodam, sao os que irritam os outros e que nos caracteriza na sociedade. Dezembro e tempo de olhar para dentro, prefiro ir para fora e esquecer do que fiz.

E nao quero mudar, apenas pretendo entender melhor o que se passa a minha volta. Sem que necessariamente precise expressar, em palavras, tudo aquilo que sinto – ja que nao me farei compreender. Nao ha palavras, ou talvez eu nao tenha vocabulario suficiente, para deixar claro o que me presto a pensar. Entao farei assim: deixarei de prestar.

Serei, a partir de hoje, um servico de inutilidade publica pronto para o que der. Mas tenho minhas resolucoes para 2008, exatamente as mesmas de 2007 ou 1982. Nao as cumpri, e certamente nao as cumprirei. E cresci tentando consertar meus defeitos indefectiveis, passei toda a vida empurrando para o proximo ano os fracassos do tempo passado. Mas 2008 sera diferente, claro. Porque todas as minhas compulsoes, obsessoes e trangressoes virao ainda mais fortes. Doa a quem doer. Bom que so doi em mim. Algo como auto-sabotagem. Ou auto-piedade. Auto-estima, talvez.
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20/12/2007
SEI LÁ, MIL COISAS

Vou me adiantar. Feliz Ano Novo! Pois ando cansado, apesar de ainda estar de pé. Me encontro num moquifo quente e úmido em Copacabana, rezando e contando no relógio os minutos para partir e deixar a cidade onde nasci livre para a invasão de toda sorte de gente que de hoje até o Carnaval irá regar calçadas e avenidas de urina e cerveja quente.

Estou num cyber, onde um ventilador Faet serve a 17 clientes, todos sentados e mandando seus e-mails em norueguês, inglês e russo, e aproveito a manhã nublada e abafada para me despedir e desejar a todos, eu disse todos, um ótimo 2008. Turistas entram suados, olhando a tabela de preços como se estivessem lendo uma sentença de morte, vestidos como se a dois metros daqui houvesse uma praia caribenha lotada de barmen servindo drinks fluorescentes e lindas negras de maiô cor de laranja. Parafraseando sua vizinha, O Rio de Janeiro não é mais aquele dos cartões postais. E Copacabana não tem, nunca teve, aquele mar verde esmeralda que aparece nas pequeninas fotografias de correios.

Mas Copacabana não é um lugar para turistas. Nunca foi. Suas entranhas são de acesso restrito, abertas apenas a connaisseurs e sobreviventes. Copa é a primeira Babel da América Latina e por suas vielas é possível, talvez, deparar-se com seres vindos de outro planeta. Carla, a pessoa mais copacabanense que conheço, apesar de ter nascido e vivido parte da vida no Leme (antes de surtar e tentar a paz no interior de Goiás), jura ter visto ETs passeando entre as galerias – aquelas que desembocam em um botequim cheirando a cerveja parada. A decadência de Copacabana parece ter evoluído com a minha, e a de minha família. E com o Rio de Janeiro.

Logo aqui do lado está o Beco das Garrafas, lotado de lavanderias e pequenos armarinhos. De bossa nova mesmo, só o nome de uma loja de discos, situada no outro lado de calçada. Me puseram num quarto de hotel à beira-mar, vejam só, mas nada que possa te fazer inveja. No hotel onde me encontro (até hoje, como disse anteriormente estou de partida), há carpetes no chão, móveis de 50 anos atrás, hidráulica de 70 e um recepcionista de 80 e poucos.

Do lobby a cobertura, do bell boy a arrumadeira, tudo gagá. Tenho a impressão de que minha tia avó vai sair do armário a qualquer hora e num piscar de olhos vem à mente memórias da Copacabana dos anos 70, ainda livre e animada por senhorinhas vaidosas e cobertas, vejam só, de réplicas de suas jóias. Elas usavam colares e pulseiras muito douradas, cópias de suas originais que, cadeiradas em Rio de Janeiro, sabiam ser inviáveis de desfilar assim, publicamente. Mas elas iam às ruas, praticamente à forra, como aposentadas portenhas, trajando looks vintage sem saber da existência do termo – e nada era mais moderno que ter guardado e muito bem conservado, itens que voltavam à moda. Minha avó mesmo tinha uma coleção Pucci em seu guarda-roupa, capaz de enganar a qualquer stylist nascido nos anos 80.

Mas que papo é esse mesmo? Acordei com calor, eu e janela suando frio e quente, numa alternância esquizofrênica e vendo o bairro de cima, já lotado de transeuntes e ainda com um resquício de madrugada. Travestis cansadas, de bolsa vazia, voltam para suas cabeças de porco. Velhinhas já se aglomeram na fila do banco, afinal faltam só duas horas para as portas se abrirem; baratas retornam para os bueiros, onde, acredite, há mais fartura que festa de judeu; estrangeiros vão à caça de mulatinhas de fácil acesso e os ônibus lotam as pistas da Nossa Senhora de Copacabana formando uma fila indiana que, pelo visto, só pode mesmo terminar em Mumbai.

Odeio admitir, mas Copacabana tem um poder sádico sobre mim. E de masoquista que sou, perco minha última manhã no Rio de Janeiro a falar deste lugar, tão falado e tão pouco conhecido. Pois assim será, para sempre. Copacabana é um segredo bem guardado. Auf Wiedersen. Feliz 2008, saúde, paz, sucesso, saúde, dinheiro, sexo, drogas (leves, ou pegue leve), rock, sorvetes e amor.
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www.ego.com.br Todos os dias, em caráter excepcional, críticas construtivas e crônicas destrutivas do mundo moderno na visão de Hermés Galvão, um jornalista antiquado.
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