03/01/2008
CLICHE
A Italia vem me apresentando todos os seus cliches. Desde a minha chegada ate agora, sentado num cyber cafe com vista para o Duomo de Milao, onde foi preciso gritar com o funcionario da loja para me deixar usar a internet sem apresentar o passaporte – ah, como eles sao burocraticos: me senti tao em casa agora...
Ha pizzas ruins por todos os lados, as boas lojas e os restaurantes mais locais estao fechados, os chineses dominam o cenario alternativo e as milanesas aproveitam a neve para usar suas peles combinadas com vinil. Veramente norte, veramente cliche.
E anteontem, enlatado no trem, ao atravessar a fronteira suica, a menos de 30 minutos de Stazione Centrale, ja em Milao, fui interceptado por uma brasileira que descobriu minha procedencia da maneira mais brasileira possivel: observando tudo o que havia sobre minha mesinha. A biografia de Tim Maia, com a capa vermelha e letras em amarelo manga, entregou tudo e me arruinou.
Pois fui amolado, quase assediado moralmente, pela brasileira que, ora ora, fez questao de me dizer tudo que fazia por aqui – mesmo sem eu ter perguntado nada. Vanessa mora em “Milano” ha 14 anos e que vive de mesada do marido. Disse tambem que e gaucha e que esta preocupada por nao saber qual dos empregados a iria buscar na estacao.
O telefone de Vanessa toca. Seu ringtone e um funk atual, muito atual, alias, para quem, segundo ela, nao visita o Brasil ha mais de cinco anos.
Alo Polliana, piranha, voce pode me buscar na estacao? Aproveita e passa no mercado para comprar quiabo. To louca para comer galinha com quiabo.
Vanessa desliga o telefone. E volta a puxar assunto.
Primeira vez na Europa?
Nao, nao
Tu vai 'faze' o que em “Milano”?
Nada demais.
(Vanessa tira um bone Gucci falso da bolsa e enfia na cabeca)
Nao gosto muito de Milano, prefiro a Dinamarca.
Ah.
Aqui ja deu, vou para Londres.
Oi?
Sei la, rodar por ai.
Entendo.
Quer um 'golio' de “vino rosso”?
Nao, obrigado.
Que horas sao no seu relogio? Preciso acertar o meu, que esta sempre cinco minutos “avanti”.
Quatro em ponto.
Quer um pouco de vino?
Nao, ja disse.
Silencio. E Milao a vista. Alivio. Vanessa pega suas coisas e se despede de mim. Com pressa, desce do trem e entra no metro. Sozinha, a bordo de seu Nike tamanho 44. Ai, a Italia e um cliche.