15/01/2008
FASHION TRUQUE
Certa vez eu resolvi ser um jornalista de moda. Achava que poderia ser divertido participar de Fashion Weeks e afins e que, melhor ainda, meu chefe do jornal, ao saber que eu ‘gostava de moda’, não iria me mandar apurar buraco de aslfalto em subúrbio tampouco chacina em favela – sim, porque fui ensinado assim: quando ainda metade da redação usava máquina de datilografar, isso lá pela primeira metade dos anos 90, nem faz tanto tempo, meus chefes achavam que jornalista tinha que aprender com a miséria, subir morro e perguntar à mulher que perdeu tudo na enchente: “Como você está se sentindo?”. Bem, metades dos meus colegas que acreditaram nisso, hoje, são excelentes repórteres. De enchentes e chacinas.
Enfim, vamos voltar ao assunto moda, até porque está para começar mais um São Paulo Borges Fashion Show. Em 2001, resolvi ser jornalista de moda. E fui credenciado pelo meu veículo para cobrir (vocês sabem o que significa ‘cobrir’ no universo jornalístico, pois não?) a semana do Rio e de São Paulo. Credencial nas mãos, convites entre os dedos. Oh, não me colocaram na primeira fila. O que será da minha reputação fashion? Ih, olha lá os assistentes da Érika Palomino segurando lugar na fila A para ela. Nossa, cadê a imprensa internacional já que há 10 lugares reservados para eles?
E vai começar o desfile! Reinaldo Lourenço chega com o filho, os dois estão de óculos escuros Dior, modelo feminino, e sentam nas cadeiras destinadas à imprensa estrangeira. - Nunca vem ninguém mesmo, disse a jornalista ao lado. As luzes se apagam, surge na passarela a modelo vestida de tendência. A primeira fila olha, mas faz cara de quem não vê. Um gesto tênue entre o desatento e o desavisado, não sei.
E a fila B (eu estava na C) anotando tudo, como se um vestido resumisse a coleção, a estação, toda uma geração. Ao meu lado, a jornalista estranha meu bloquinho todo em branco, com apenas um telefone anotado. Pois eu não sabia que era preciso analisar o que estava sendo apresentado, digo, assim, com afinco. E entra a segunda, a terceira, a quinta modelo. Para mim, para o bem ou para o mal, as roupas todas pareciam iguais. A jornalista me olha e diz: “este desfile tem unidade”. Ah, tá. Pronto.
Acaba o desfile. E eu não cheguei à conclusão alguma. Vejo os jornalistas correndo para o mesmo lado (correndo mesmo, como se alguma tia loira estivesse distribuindo saquinhos de Cosme e Damião em alhures) e resolvo aderir ao movimento. Fomos todos parar na sala de imprensa, onde computadores enfileirados esperavam para ser ocupados. Sentei em um deles, abri um documento de word em branco. E o que escrever? Como começar? Falar sobre o quê? Para que tipo de público? Desespero total, o tempo passando, o próximo desfile prestes a começar.
- Alô, Bruno?
- Fala mané.
- Preciso escrever sobre um desfile que acabei de ver.
- E...?
- E sei lá, é para falar de quê?
- Do que você viu, ora.
- Mas eu não vi nada de inspirador.
- Faz o seguinte: pega o release que te entregaram, tira dali umas palavras-chave, mistura com uns termos em inglês, algumas gírias, leia a crítica de Érika para ver quais são os chavões que ela está usando agora, tipo absurdinho e avonts, mistura tudo e pronto.
- Ok. Abs.
- Depois manda e-mail com o texto para eu rir também.
- Tá.
Dez minutos depois sai meu primeiro texto de moda. Modéstia à parte, ficou incrível. Nada fazia sentido, cada frase era de uma pretensão atroz. O texto passou, entrou na primeira página, muita gente veio comentar depois que minha crítica estava excelente, realista e bem ‘amarrada’. Cheio de marra, com uma auto-confiança jamais vista (nem com fluoxetina e sessões intensivas análise consegui me sentir daquela forma), parti para os desfiles seguintes. Conclusões aquelas, críticas e reflexões. Todo mundo acreditou. Posei de jornalista de moda e por uma temporada fui levado a sério. Caíram no conto do hype, vejam só.
Foi a primeira vez que me diverti enquanto trabalhava, e minha última como jornalista de moda. Um exercício livre de deboche e, como diz a letra, “ironia a toda prova”. E aquela gente, ao se levar tão a sério, sequer percebeu que minhas linhas não queriam significar coisa alguma. E que, independente do Fause Haten apostar no preto ou Alexandre Herchcovitch “flertar com o perfume retrô sessentinha”, nada daquilo tinha a menor importância. E não tem, jamais terá. Serviu para rir, de tudo e de todos. Que sarro.
NÃO PERCAM AMANHÃ: COMO FAZER SUA CRÍTICA DE DESFILE UTILIZANDO OS MÉTODOS PALOMINIANOS.