01/02/2008
NEGRITUDE JUNIOR

O Carnaval da Bahia é racista. Segregados da folia, os negros passam os quatro (ou cinco, sei lá) dias pulando nas ruas atrás dos cordões de isolamento utilizados para proteger os brancos que pagaram caro por um uniforme colorido para dançar atrás de um caminhão cheio de luzes coloridas.

E no alto dos camarotes, onde os únicos negros convidados pertencem a uma mesma família, brancos observam a passagem de pobres coitados e exibem suas figuras nas frisas para serem adorados do mesmo modo que faziam os reis africanos.

Ah, mas tem as negras quituteiras que baianos brancos adoram alugá-las em dia de festa. Penso cá se elas já estão incluídas no serviço do buffet, juntamente com o aluguel das cadeiras, mesas e toalhas. E suas paramentas são tão brancas que só mesmo a sinhazinha anfitriã poderia mostrar. E no tabuleiro da baiana tem de tudo, para branco nenhum reclamar.

As festas de brancos em Salvador são as mais fartas e nababescas que se têm notícia. E lá, como em nenhum outro lugar do mundo, os serviçais funcionam para tudo e estão aos montes, abanando voissuncê ou preparando sua sexta rodada de caipirinha de sirigüela. Claro, todos negros.

A Bahia é uma viagem no tempo, um retrocesso cultural para fins antropológicos. E ai de você se achar aquilo tudo um fuzuê social. É crime dizer que baiano é racista, escravocrata. Se estiver a caminho de Salvador, faça como o Nizan: ache tudo muito natural.

O sangue de Jesus tem poder. E a minha lipo também. Neste Carnaval, não use camisinha. Pois fazer sexo é coisa do demo.
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31/01/2008
FESTA VIP

Tem gente que só consegue se divertir em festa vip. E quando a festa não é totalmente vip, digo, quando existe aquela mistura boa de gente boa e gente feia, eles logo procuram um cercadinho para, então, mostrar às pessoas que, alem de vip, ela não se mistura.

E lá fica ele, de smoking próprio, porém de medidas disformes, posando ao lado de mulheres aparentemente elegantes, disfarçadas de cetim. Todo eles sentam no sofá, riem de piadas falsas, mentem às gargalhadas ensaiadas.

Observam seu andar, procuram em você qualquer referência a um mundo que não lhes pertence. No cercadinho vip, os very important pobres olham a platéia e se perguntam como é que aquela gente consegue se divertir com tão pouco? Do cercadinho, o pobre do vip se apaga em sua própria existência.
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30/01/2008
QUEM VIVER, VERÃO

Cariocas adoravam batizar seus verões. Já houve o verão do apito, quando a turma baseada do Posto 9 anunciava a chegada da polícia com um... apito. Houve o verão da lata, quando um bem aventurado cargueiro despejou milhares de latas de maconha no mar da cidade, fazendo a alegria de todo mundo e mais um pouco. Houve o verão da tanga do Gabeira, das dunas da Gal, do sanduíche natural do Pepê, do Petit, do fio dental, da morey boogie, da acerola, do Circo Voador...

E há quanto tempo não celebramos a chegada do verão lançando uma mania que tout Rio iria adotar do Leme ao Pontal e assim, conseqüentemente, batizá-lo com um nome bem sugestivo? O Rio encaretou, empobreceu, entristeceu, encolheu, sumiu, desapareceu. Escafedeu. As gatinhas de Ipanema já não são notícia, as colunas preferem comentar assuntos pífios e rechear suas páginas com fotos tolas, de pessoas que não dizem a que vieram e que tampouco têm algo a dizer.

O Rio está entregue à falta de notícia, ao fim dos modismos e das alegrias do calor. Fala-se agora de gordas, vejam só. Mas assim, em tom de compaixão. A obesidade mórbida tratada de maneira sórdida, ora, ora. Pensei que a falta de criatividade dos colunistas havia chegado ao limite do fim quando decidiram comentar sobre capivaras ou garis dançarinos há coisa de dois verões atrás.

Mas eis que eles se superaram e passaram a partir deste último fim de semana a falar das gordas. Todos a favor das gordas, mas todos contra elas quando o assunto sai da ética para a estética. E as gordas partiram para o contra-ataque, num plano de vingança só visto no spa e nas páginas da Hustler.

Elas estão com tudo, e merecem o nosso aplauso. E eu, que adoro minhas amigas gordas, estou com elas e não abro: “Gordo só não é magro porque come duas vezes antes de pensar e pensa uma vez antes de comer”. Pois é isso, depois de tantos verões sem nome, o Rio de Janeiro lança o verão das gordas. Feliz 2008 e força no maiô pra todo mundo.
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29/01/2008
OS ÚLTIMOS PASSOS DE UM HOMEM

O que faz uma celebridade quando ela não tem mais para onde apelar e nem aonde aparecer? Vira evangélica. Repare. Todos os ex-famosos se converteram, de Simony a Mara Maravilha, e agora Carla Perez.

A sociedade crente é um mundo paralelo onde todos têm vez, desde que tenha fundos. E por falar em fundos, já percebeu que todas as ex-famosas evangélicas já posaram para a Playboy e hoje se arrependem de ter mostrado a perereca para o Brasil inteiro. Será que elas se arrependeram de ter gastado o cachê comprando um apartamento com vista para o basculante?

Mas a entrada no mercado evangélico para as esquecidas da mídia é, mesmo, a última tentativa para prolongar seu tempo de exposição e, em último caso, a primeira experiência com, como dizer?, o mundo superior. Carla Perez, por exemplo, já era dada por desaparecida até ontem, quando resolveu anunciar seu ingresso na religião que cobra ingresso para entrar.

Ela agora (mas só agora?) é filha de Deus e jura por Ele que será uma pessoa mais comportada e centrada, que vai dedicar seu talento (o quê?) às criancinhas pobres de Salvador e aos foliões mirins que seguem seu trio elétrico pelas ruas da cidade mais úrica do universo. Perdão por aqueles que pecam, ó Rei.

Então é ver para crer. E tentar esquecer a Dança da Garrafa, a Cinderela Baiana, a Dança do Kibe, a Dança da Manivela, a Dança do Siri Catado, a Dança do Bode Senil e por aí vai. Não acredito em Deus, nem na Carla Perez. Desconfie sempre de um baiano.

E as pastorinhas....





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28/01/2008
NOUVEAU RICHE, OLD MONEY

Passo a conviver, quase que por obrigatoriedade, com um tipo social que há muito não via e que por muito pouco não me irrita. Você conhece ou já ouviu falar dos seguidores de ricos? Sabe aquela pessoa que não tem onde cair morta, mas que por alguma razão profissional e, por conseguinte, pessoal, passou a andar exclusivamente com ricos? Tem um monte por aí, mas não se engane: eles não são abastados. E como reconhecê-los, uma vez que se vestem com as mesmas roupas e falam a mesma língua dos ricos? Ora, pela atitude. Sempre. A regra vale para tudo na vida. Pois se reconhece a nobreza de alguém pelo bom comportamento. A seguir, algumas indicações para você perceber, a léguas de distância, a presença de um alpinista social de média altitude:

. O seguidor de rico pode ser decorador, assessor de imprensa ou promoter. Ou as três coisas ao mesmo tempo.

. O seguidor de rico só quer namorar ricos. Só que os ricos não são burros.

. O seguidor de rico pode ser um bom amigo. Mas os ricos preferem que eles sejam bons empregados.

. O seguidor de rico só fala com você quando VOCÊ está mais inserido no contexto do que ele. Numa festa onde ele sabe que você é íntimo do aniversariante, por exemplo.

. O seguidor de rico não vai falar com você caso VOCÊ chegue sozinho a um evento ou caso ELE esteja na companhia de ricos.

. O seguidor de rico não pode mostrar aos ricos que ele conhece pobres.

. O seguidor de rico não sabe que ricos adoram pobres.

. O seguidor de rico não tem passado. Nasceu aos 25 anos, já em São Paulo, e não teve cabelo ruim, infância pobre e nem problemas de ordem financeira com os bancos.

. O seguidor de rico é gay. Ou mulher bicha.

. Você nunca verá o seguidor de rico namorando alguém. Até porque quem ele quer namorar já tem namorado. E muito rico.

. O seguidor de rico ganha entre R$ mil e R$ 10 mil. Mas tem que ajudar a família, que mora no interior de São Paulo.
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www.ego.com.br Todos os dias, em caráter excepcional, críticas construtivas e crônicas destrutivas do mundo moderno na visão de Hermés Galvão, um jornalista antiquado.
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