11/02/2008
RODOVIA PRESIDENTE DUTRA, KM 290
Não tenho carro, não sei dirigir, tenho horror a trânsito e adoro a idéia de largar a minha bicicleta amarrada em qualquer poste. Acho todos os carros iguais, para mim são sempre variações de Pajero e Santana – pretos ou prata. E nunca soube exatamente por que não existem mais modelos amarelos, verdes e azuis ziguezagueando pelas ruas. Ninguém me contou, nem mesmo meu querido pai, que nos anos 80 trocou sua Belina bege por uma Caravan... cinza chumbo metálica.
Neste Carnaval, fui convencido a ir para o Rio de carro, via Dutra. A cada curva a sensação de que um caminhão lotado de galinhas iria tombar ao nosso lado, o medo de que um ônibus da viação Amigos Heróis, que faz a rota Feira de Santana – Porto Alegre, pudesse quebrar na altura de Aparecida do Norte e nós, testemunhas oculares do drama do asfalto, tivéssemos que ajudá-los por espírito cristão.
Por sorte, nada de tão grave aconteceu e mais uma vez as tragédias ficaram estacionadas no meu campo gravitacional imaginário. Ouvi dizer que seriam apenas (esse apenas foi proferido por uma das tripulantes) seis horas de viagem, sem previsão de contratempos. As seis tornaram-se nove graças à queda de uma árvore centenária – centenária não, milenar, a contar pelo tamanho – atravessando as duas pistas.
Todos parados, engarrafamento de 15 quilômetros, uma Coca Zero esquentando entre as pernas, um cigarro após o outro, um snack de posto de gasolina e a faixa 3 de More Love From Colette. Tudo sob controle? Nãããõ, o ar-condicionado entra em pane, eu entro em parafuso, o sol entra pelas janelas, o calor passa pela minha camiseta e o inferno mora ao lado: sim, minha gente, um caminhão repleto de galinhas caipiras para a menos de um metro do meu nariz.
Meu pesadelo torna-se realidade a 290 quilômetros de Ipanema. As colegas penosas estavam lá, como eu, esprimidinhas e falantes, a reclamar em seu dialeto aviário das condições do tráfego e, por que não?, das acomodações. E o cheiro que saía de suas asas era de capaz de me fazer esquecer frango grelhado por duas gerações. Mas o que fazer? Se fechar a janela eu morreria de calor, se abrir eu morreria asfixiado.
O incômodo foi virando surto, o surto foi ficando incontrolável, a árvore continuava caída, as galinhas cada vez mais fedorentas, o disco já estava em sua segunda rotação, a lata de Coca-cola já tinha virado cinzeiro e a placa anunciava: Rio de Janeiro a 288 quilômetros. Oi? Só andamos dois quilômetros? Liga o rádio, canta alguma coisa, reza para alguém, vê se o celular dá sinal, pega uma água, chama o Alfredo, pelo amor de qualquer coisa, me tirem daqui.
Estou desolado agora, olho triste para as galinhas que, a esta altura, já não me incomodavam tanto assim. Passei a pensar de modo mais otimista, afinal, seria muito pior se eu fosse uma daquelas frangas que se acotovelavam (aves têm cotovelos?) na garupa daquele caminhão como sardinhas em óleo comestível – um parêntese: alguém tem coragem de comprar conserva em óleo comestível?
Ah, parece que agora vai andar. Opa, desvia aqui, corta daqui, ultrapassa lá. Provação divina ou castigo de Deus, vai saber, mas parecia que a viagem voltaria a seu curso normal. Placa anuncia: subida da serra. – Mas essa serra é daquelas grandes e cheias de curva?, eu perguntei. – Serra é serra, responderam no banco de trás. Achei subjetiva demais a resposta, mas ok, seguimos em frente. Relax total, abro a janela, sinto o vento serrano bater na minha cara, acendo mais um cigarrinho e já vejo a hora de chegar ao destino final.
Contemplo a mata e o céu e como num piscar de olhos uma nuvem preta, preta, preta vem correndo em nossa direção. Assim que elas estacionam sobre nós, desgarradas de algum tornado caribenho iniciado com K – Katielly, talvez – começam a trabalhar em ritmo ininterrupto: chove loucamente no nosso capô, as águas de março chegaram adiantadas e resolveram cair justamente na descida da serra, quando placas anunciam PERIGO! PISTA ESCORREGADIA, PERIGO! ÁREA DE ALTÍSSIMO ÍNDICE DE ACIDENTES e um outdoor gigante mostra a foto de um carro, bem parecido com o nosso, completamente destruído com os dizeres ESTE CARRO PODERIA SER SEU. Nada mais estimulador, não?
Ah, e claro que não se via um palmo à frente, pois a chuva batia com imensa força sobre o painel de modo que os pára-brisas, mesmo ligados em sua potência máxima, de um lado para o outro como se fossem dois baianos do grupo Psirico (alguém aí me diz o que significa Psirico? Seria uma vertente do axé oriunda da psicologia priáprica?) , não davam vazão à evasão pluvial. E tudo embaçava, lembrando que estávamos sem ar-condicionado e qualquer abrir de janela era enchente na certa. Pego uma flanela, limpo o vidro, mais uma curva, Rio a 70 quilômetros, mais chuva. Do fundo, a voz da quarta ocupante constata que aquela serra era meio “sinistra”.
– Mas vocês disseram que serra é serra! Vocês mentiram pra mim!.
– Ah, e o que você faria se soubesse antes que a serra era sinistra? Desceria do carro e atravessaria a pé?.
– Nesse caso a nado, né? Vocês me enganaram! Se eu chegar vivo no Rio vou sumir da vida de vocês.
– Calem a boca, por favor. Falou e disse, motorista.
Fim da serra, fim da chuva, fim da viagem? Não, ainda tínhamos que atravessar a Linha Vermelha.
– Ouvi dizer que tem muito tiroteio nessa área.
– Qual área especificamente?
– Toda.
– Mais alguma informação relevante?
– Não está mais aqui quem falou.
– Está sim, e pra variar falando demais.
– Que tal pegarmos a Avenida Brasil?
– E não tem tiroteio por lá?
– Ter, tem, mas é menos.
– Ah, menos tiroteio. Que confortante. Adoro seu otimismo.
– Então, pessoal? Linha Vermelha ou Avenida Brasil?
– Siga seu instinto.
– Só se for o maternal, porque vocês parecem umas crianças que nunca foram para o Rio de carro.
– É a minha primeira vez.
– É a minha última.
– Não, é a sua penúltima. Porque quem vai, volta.
– Não volto, não volto, não volto.
– Ah, volta sim.
– Mas não volto mesmo.
– Pra mim o Carnaval acabou.
– Liga o rádio e fica calmo.
– Tá tocando Ivete Sangalo e a gente tá chegando no Rio.
– Então procura uma rádio que toque funk.
– Prefiro a morte.
– E a gente quase morreu.
– A gente nasceu de novo.
– E você já nasceu velho, né Hermés?
– É.