15/02/2008
TARJA PRETA

O bom da loucura é que você pode perder o controle a qualquer momento sem surpreender ninguém. A vantagem de ser louco é que ninguém dá bola para o que você fala, muito menos para o que a gente escreve. Ser louco é de uma liberdade infantil, uma alforria social. E em nome da esquizofrenia me dou ao direito de viver do jeito que me ocorre, porque corro o risco de voltar ao normal assim que os remédios começarem a fazer efeito.

Mas por que é tabu falar de loucura ou assumir a própria condição de louco? Sofro preconceito por ser louco e acho das mais primitivas das sensações, essa de preconceito contra o maluco. Não fui diagnosticado, mas como tenho o hábito de me auto-analisar, além das duas sessões semanais de divã (Monica, tive que mudar), chego a feliz conclusão que não estou com as faculdades mentais em dia.

Nem sei se faz sentido o que digo, mas minha loucura veio justamente dessa obsessão pela razão, pela busca dos porquês. Já não quero saber de nada, já não vou me importar com tudo. Vou apenas ser, porque ser é a mais louca das experiências que o homem pode ter. E sendo eu mesmo, confesso que o surto passageiro estacionou e veio para ficar. Tenho surtos diários, umas horas mais – outras muito mais.

Sonho loucuras, falo loucuras, faço loucuras, escuto loucuras também. Dizem que sou louco por pensar assim. Se sou muito louco é você quem vai dizer. Não fala nada agora, deixe apenas eu ser. Está mais forte que eu, perdi para mim mesmo. Desisti.
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14/02/2008
CEASAR SALAD

Estou bloqueado para receber chamadas, não estou aqui para ninguém. Consegui me desligar do mundo, finalmente. Pessoas se tornaram invisíveis, mal as escuto. Acordei mais tolerante, ou menos irritante. Fato é que consegui diminuir o ser humano à condição de vegetal. Assim sendo, todos a minha volta são alfaces e acelgas que por ventura virei a comer. Ou não.

Já consigo olhar para o lado e ver na figura da mulher amarga um grande brócoli ambulante, desses modificados geneticamente. Agora vejo o mundo como uma grande feira popular, onde vende-se produtos infestados por agrotóxicos e peixes de águas rasas.

De banca em banca, imagino um exército de donas xepas pechinchando por um punhado de nabos, famigeradas de fome e prontas para devorar o próximo como se fossem saladas verdes com suas folhas queimadas pelo gás da geladeira. Estou tão orgânico que tudo me é digerível, engulo a seco e sigo em frente. Porque sou duro, como pedra. Sou mineral.
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13/02/2008
GERAÇÃO X

Filhos de celebridades nasceram com meio caminho andado. Mas o que acontece com eles quando decidem ingressar na carreira artística? Parece que andam para trás, não sei, mas o assunto veio à tona no meu almoço de ontem, sentado em frente a um grande amigo. Passamos cinco minutos listando nomes de filiações famosas que deram certo e chegamos a conclusão que não há tantos assim, aliás quase ninguém. Uma meia dúzia de dois, talvez. Cleo Pires? Sim, talvez. Moreno Veloso? Não, jamais.

E não parávamos de contabilizar, o rol crescia a cada garfada, foi tanta gente que decidimos parar e mudar de assunto. Mas ficou a pergunta no ar, do prato principal até o cafezinho: mas por que será que os filhos não têm o talento dos pais? Ah, lembramos: reza a lenda que a cobrança neste caso é muito maior, que esperamos dos filhos dos famosos um retorno igual ou superior ao dispensado pelos pais. Verdade? Não sei, não. Acho puro clichê, aliás, achamos.

Mas será que a divindade só reserva um gênio por família, seria isso? Ou vamos retornar à máxima dos velhos tempos “avô nobre, pai rico, filho pobre”? Mas por que seguir a carreira dos pais, ora bolas? Eu não virei dentista e meu amigo não virou engenheiro. Escolhemos nossas profissões. Será que os meninos famosos não puderam fazer o mesmo ou entraram nessa por conveniência, comodismo e vaidade?

Acho que passa por educação, talvez seus pais tenham autografado seus boletins lotados de notas vermelhas ao invés de assinar como se fosse uma queixa policial. Ah, essas escolas experimentais... Matemática subjetiva, metafísica maternal, anatomia com massinhas e vivência no jardim. Acho que algo deu errado, só não sei ainda se foi em casa ou a caminho do Projac. Mas que tem algo estranho com esses filhos de celebridades, ah, lá isso tem. A você, que está na Record: desista e não insista.
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12/02/2008
SEU MADRUGA

O medo só serve para dar medo, para mais nada, ou quase, mas ainda assim ando com medo. Tenho andado quase parando, correndo contra o tempo, contra mim mesmo. A agonia das horas passa a passos largos, a madrugada tem sido meu santo remédio e o dia meu ópio sagrado, capaz de me fazer esquecer que logo mais já será escuro outra vez. Preciso dormir, não sei se quero.

Tudo que faço é não querer mais, preciso de um desejo, uma coisa qualquer que me faça sentir o estranho da vida e não apenas seu excesso. Tenho que parar agora, antes que amanheça outra vez sob minha vista cansada. Quero fechar os olhos e só abri-los oito, dez horas depois, como fazem os meninos da escola. Onde foi que eu perdi o sono, será que ele se perdeu comigo no caminho da história?

Hoje eu já chorei, mas agora já estou seco outra vez. Porque não se deve molhar o rosto na frente do computador, deixe para fazê-lo sobre os livros. Leia com atenção, pois nem sempre me mostro como sempre fui. Talvez eu não esteja sendo eu mesmo agora, talvez se eu fosse quem eu pensava ser já estaria a esta hora deitado, a contar estrelas, a contar as alegrias da minha jornada. Pois há, pois é, elas já não cabem em mim, já não cabem nas mãos, ficaram tão grandes que fugiram de mim, assim, de repente. De repente, não, devagar. Devaneio? Devo parar.
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11/02/2008
RODOVIA PRESIDENTE DUTRA, KM 290

Não tenho carro, não sei dirigir, tenho horror a trânsito e adoro a idéia de largar a minha bicicleta amarrada em qualquer poste. Acho todos os carros iguais, para mim são sempre variações de Pajero e Santana – pretos ou prata. E nunca soube exatamente por que não existem mais modelos amarelos, verdes e azuis ziguezagueando pelas ruas. Ninguém me contou, nem mesmo meu querido pai, que nos anos 80 trocou sua Belina bege por uma Caravan... cinza chumbo metálica.

Neste Carnaval, fui convencido a ir para o Rio de carro, via Dutra. A cada curva a sensação de que um caminhão lotado de galinhas iria tombar ao nosso lado, o medo de que um ônibus da viação Amigos Heróis, que faz a rota Feira de Santana – Porto Alegre, pudesse quebrar na altura de Aparecida do Norte e nós, testemunhas oculares do drama do asfalto, tivéssemos que ajudá-los por espírito cristão.

Por sorte, nada de tão grave aconteceu e mais uma vez as tragédias ficaram estacionadas no meu campo gravitacional imaginário. Ouvi dizer que seriam apenas (esse apenas foi proferido por uma das tripulantes) seis horas de viagem, sem previsão de contratempos. As seis tornaram-se nove graças à queda de uma árvore centenária – centenária não, milenar, a contar pelo tamanho – atravessando as duas pistas.

Todos parados, engarrafamento de 15 quilômetros, uma Coca Zero esquentando entre as pernas, um cigarro após o outro, um snack de posto de gasolina e a faixa 3 de More Love From Colette. Tudo sob controle? Nãããõ, o ar-condicionado entra em pane, eu entro em parafuso, o sol entra pelas janelas, o calor passa pela minha camiseta e o inferno mora ao lado: sim, minha gente, um caminhão repleto de galinhas caipiras para a menos de um metro do meu nariz.

Meu pesadelo torna-se realidade a 290 quilômetros de Ipanema. As colegas penosas estavam lá, como eu, esprimidinhas e falantes, a reclamar em seu dialeto aviário das condições do tráfego e, por que não?, das acomodações. E o cheiro que saía de suas asas era de capaz de me fazer esquecer frango grelhado por duas gerações. Mas o que fazer? Se fechar a janela eu morreria de calor, se abrir eu morreria asfixiado.

O incômodo foi virando surto, o surto foi ficando incontrolável, a árvore continuava caída, as galinhas cada vez mais fedorentas, o disco já estava em sua segunda rotação, a lata de Coca-cola já tinha virado cinzeiro e a placa anunciava: Rio de Janeiro a 288 quilômetros. Oi? Só andamos dois quilômetros? Liga o rádio, canta alguma coisa, reza para alguém, vê se o celular dá sinal, pega uma água, chama o Alfredo, pelo amor de qualquer coisa, me tirem daqui.

Estou desolado agora, olho triste para as galinhas que, a esta altura, já não me incomodavam tanto assim. Passei a pensar de modo mais otimista, afinal, seria muito pior se eu fosse uma daquelas frangas que se acotovelavam (aves têm cotovelos?) na garupa daquele caminhão como sardinhas em óleo comestível – um parêntese: alguém tem coragem de comprar conserva em óleo comestível?

Ah, parece que agora vai andar. Opa, desvia aqui, corta daqui, ultrapassa lá. Provação divina ou castigo de Deus, vai saber, mas parecia que a viagem voltaria a seu curso normal. Placa anuncia: subida da serra. – Mas essa serra é daquelas grandes e cheias de curva?, eu perguntei. – Serra é serra, responderam no banco de trás. Achei subjetiva demais a resposta, mas ok, seguimos em frente. Relax total, abro a janela, sinto o vento serrano bater na minha cara, acendo mais um cigarrinho e já vejo a hora de chegar ao destino final.

Contemplo a mata e o céu e como num piscar de olhos uma nuvem preta, preta, preta vem correndo em nossa direção. Assim que elas estacionam sobre nós, desgarradas de algum tornado caribenho iniciado com K – Katielly, talvez – começam a trabalhar em ritmo ininterrupto: chove loucamente no nosso capô, as águas de março chegaram adiantadas e resolveram cair justamente na descida da serra, quando placas anunciam PERIGO! PISTA ESCORREGADIA, PERIGO! ÁREA DE ALTÍSSIMO ÍNDICE DE ACIDENTES e um outdoor gigante mostra a foto de um carro, bem parecido com o nosso, completamente destruído com os dizeres ESTE CARRO PODERIA SER SEU. Nada mais estimulador, não?

Ah, e claro que não se via um palmo à frente, pois a chuva batia com imensa força sobre o painel de modo que os pára-brisas, mesmo ligados em sua potência máxima, de um lado para o outro como se fossem dois baianos do grupo Psirico (alguém aí me diz o que significa Psirico? Seria uma vertente do axé oriunda da psicologia priáprica?) , não davam vazão à evasão pluvial. E tudo embaçava, lembrando que estávamos sem ar-condicionado e qualquer abrir de janela era enchente na certa. Pego uma flanela, limpo o vidro, mais uma curva, Rio a 70 quilômetros, mais chuva. Do fundo, a voz da quarta ocupante constata que aquela serra era meio “sinistra”.

– Mas vocês disseram que serra é serra! Vocês mentiram pra mim!.
– Ah, e o que você faria se soubesse antes que a serra era sinistra? Desceria do carro e atravessaria a pé?.
– Nesse caso a nado, né? Vocês me enganaram! Se eu chegar vivo no Rio vou sumir da vida de vocês.
– Calem a boca, por favor. Falou e disse, motorista.

Fim da serra, fim da chuva, fim da viagem? Não, ainda tínhamos que atravessar a Linha Vermelha.

– Ouvi dizer que tem muito tiroteio nessa área.
– Qual área especificamente?
– Toda.
– Mais alguma informação relevante?
– Não está mais aqui quem falou.
– Está sim, e pra variar falando demais.
– Que tal pegarmos a Avenida Brasil?
– E não tem tiroteio por lá?
– Ter, tem, mas é menos.
– Ah, menos tiroteio. Que confortante. Adoro seu otimismo.
– Então, pessoal? Linha Vermelha ou Avenida Brasil?
– Siga seu instinto.
– Só se for o maternal, porque vocês parecem umas crianças que nunca foram para o Rio de carro.
– É a minha primeira vez.
– É a minha última.
– Não, é a sua penúltima. Porque quem vai, volta.
– Não volto, não volto, não volto.
– Ah, volta sim.
– Mas não volto mesmo.
– Pra mim o Carnaval acabou.
– Liga o rádio e fica calmo.
– Tá tocando Ivete Sangalo e a gente tá chegando no Rio.
– Então procura uma rádio que toque funk.
– Prefiro a morte.
– E a gente quase morreu.
– A gente nasceu de novo.
– E você já nasceu velho, né Hermés?
– É.
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08/02/2008
CINZAS

O Carnaval acabou. O Rio já era. Salvador já foi. Recife já-mais. Vamos acabar com essa folia desatada, onde todos os blocos, cordões, trios e escolas de samba deram um nó cego em nossas cabeças. Que festa é essa onde pierrôs são jogadores de futebol e colombinas atrizes de novela? Mas que camarote é esse onde eu tenho que dividir a frisa com a ex-paquita pagodeira e ainda disputar um cachorro quente com Gracyanne Barbosa?

Abri as alas para as cabrochas de agora e vi suas coxas passarem por mim como peças de presunto tender e suas pernas, enforcadas por tiras, como um grande queijo provolone. E suas bundas são grandes terminações nervosas que me lembraram muito a bunda dos ursos que vi recentemente no zoológico de Berlim.

Olhem que eu procurei por odaliscas, indiazinhas e havaianas, talvez perdidas em suas fantasias românticas, mas só tive olhos para Angelas Bismarchis e Vivianes Araújos. Uh, que frisson. Elas andavam nuas pela Avenida, penduradas sobre penachos e arames como se estivessem a caminho do abate. Mas quem vai querer? Ah, claro, o Seu Antônio da oficina do seu bairro. Mas será que todas elas querem seduzir operários e comerciantes de média renda? A quem interessar pode um tipão desses, assim, Lilian Ramos e Nana Gouvêa?

O que vai acontecer com essa turma toda quando o tempo passar? Como será o Carnaval de 2014 para elas? E se tudo cair, quem vai levantar? As mulheres do samba são perecíveis? Efemérides da folia, subprodutos de uma cultura vulgar, esta a nossa.

Elas são a cara de uma festa mal vivida, de uma história mal curtida, de um fim de folia triste, com notas baixas no quesito evolução e harmonia. Por mim, todas estão rebaixadas. E no Carnaval das baixarias, quero que todas desfilem no grupo de acesso do inferno que virou a mais profana e deliciosa das datas. Já estou de quaresma. Em quarentena social. Que venham as rezas.

Achei chique
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07/02/2008
SÁBADO DE CARNAVAL

De volta ao batente, sobrevivente de uma folia cada vez mais decadente. Tinha homem sem dente na comissão de frente, perereca saliente na cara da gente, uma beleza de Carnaval, como não se vê desde o ano passado. O Rio de Janeiro continua sendo. Sendo a cidade mais úrica do planeta e ponto de encontro de todas as bichas cabeleireiras e esteticistas da galáxia.

Mas tem lá o seu charme, pois nada mais charmoso que ser jovem em tempos de apocalipse social, de enterro definitivo do jet set e do fim anunciado do old money. Agora é tudo nouveau riche – com muito espumante barato e summer jacket de primeiro aluguel.

E do lado de lá, o black-tie puído entra de mãos dadas com mulheres maquiadas de cosméticos cheirando a coisa velha, um leve perfume de Coty no ar misturado a um talvez Fleur de Rocaille. Alguns paetês, quando não amassados, estão presos por um fio. E ameaçam cair a qualquer momento, provavelmente depois dela.

No equilíbrio da antiga cabeça, daquele certo baile de 77, madame adentra o hall pedindo grampos loiros à amiga recém-tingida de idade jamais revelada. Ah, o Rio... E vem chegando ele, filho de comunicador, lobista dos graúdos, de médio capital não declarado. Sobe no camarote, cumprimenta o grande elefante branco do jornalismo brasileiro, olha para os lados e estranha a ausência dos flashes. Estavam todos focados na dama de vermelho, gravitando sobre seu próprio eixo, provando para todos que essa papo de rehab é coisa para enganar mamãe. Ai, que loucura isso tudo. Que cansaço.

Agora corta – corta mesmo – porque é a vez de Roberta Close rebolar. Vem de matrona, contando as peripécias de Zurique e prometendo novos projetos para o futuro. Mas que futuro é esse? Seguimos com Lilian Ramos, de calcinha, matando as saudades da folia e rezando para alguém lembrar de sua cara. Teve Ariadne Coelho, alalaô, penetra de todas as festas, rainha de todas as quentinhas, embrulhada numa fantasia fria. Ei, olha lá o Humberto Saade! E a Maninha, a Beth, ai, ai, ai. É o fim, é o começo, é o tropeço.
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www.ego.com.br Todos os dias, em caráter excepcional, críticas construtivas e crônicas destrutivas do mundo moderno na visão de Hermés Galvão, um jornalista antiquado.
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