07/03/2008
BANHEIRO MASCULINO

Senhoras e senhoritas, bichas de todo o País, uni-vos! Será realizado amanhã, ao vivo e infelizmente em cores, mais uma edição do concurso Mister Brasil – evento este que irá coroar o homem mais bonito da nação, aquele que irá representar todo o charme e malemolência do macho brasileiro.

Estarão reunidos, na chatíssima cidade de Poços de Caldas, na distante Minas Gerais, candidatos saídos das principais saunas a vapor de 23 estados do território nacional – se bem que, analisando de perto, alguns parecem ter vindo de outro planeta. A Bahia mais uma vez não enviou a sua carranca para a festa, por falta de quórum. No entanto, Roraima e Amapá tiveram a cara de pau de mandar seus concorrentes.

Além de desfilar em trajes de banho e noite, os candidatos participam de competições esportivas e são avaliados em entrevista e em trabalhos de responsabilidade social - categoria chamada "Beleza com Propósito". Seja qual for o propósito do concurso, e a razão pela qual foram selecionados alguns dos homens mais feios do mundo, SuperEgo, em sua constante luta pela defesa do belo, apresenta hoje alguns favoritos a disputa pelo título.

Com vocês, os semi-finalistas segundo a opinião de Fabio B, consultor do blog para assuntos estéticos. A propósito, as fotos foram realizadas na piscina privativa do decorador Leo Schetman.

De Ponta Grossa, no Paraná, Arnaldo Alisson. Mas precisava posar de cueca?

Do Ceará, Edvaldo dos Santos, porteiro do edifício Riviera del Fiori, no Itaim Bibi

De Tocantins, Graziani Ramos e seu corpinho de pêra

Sobrevivente de Neverland, o hispânico sul matogrossense Jefferson Nunes

Reinaldo Ferreira, de Goiás, ainda sob efeito do césio

Simão Freitas, da Paraíba. Mas o que é aquilo em sua sunga? Uma azeitona?

Vinicius Ribeiro, do Espírito Santo, irmã gêmea de Marco Antonio de Biaggi
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06/03/2008
PÓS-POP

Helen Ganzarolli, para quem não conhece trata-se de uma apresentadora seminua, semi-bonita e semi-estrábica do SBT. Ela, a bordo de sua Pajero, capotou na rodovia Castelo Branco na altura de Osasco, na Grande São Paulo, nesta madrugada. Helen foi atendida no hospital público da cidade e passa bem, apesar de ter perdido o carro, este comprado com o cachê da Playboy. A notícia foi quase destaque do portal Terra desta manhã, mas quando voltei para ler a notícia, a chamada já havia saído da home e entrado para o incrível buraco negro da Internet onde vagam, livremente, spams, vírus, informações velhas, histórias mornas, enfim.

O lixo da web, apesar de invisível, é tóxico, radioativo. Apesar de não vermos o que acontece depois que uma notícia, por exemplo, sai do ar, sabemos que ela está armazenada em algum lugarzinho virtual, em forma de link, com muitas letras, https, duas barras, números e letras. E sabemos também que, depois de algum tempo, essa notícia irá se desintegrar em caráter definitivo, sem deixar rastros ou história para contar. Sim, porque nada do que se faz na Internet é para sempre, não houve um dia em que alguém se lembrasse com carinho, e não com pressa, de algo que tenha lido na rede.

E na velocidade do tempo, na correria da informação, na necessidade de entupir a cabeça com todo e qualquer tipo de notícia, perdemos o timing da hora e deixamos passar algumas notícias que poderiam ser lidas com mais calma. Não foi o caso da nota sobre Helen Ganzarolli, mas precisavam deixar apenas 10 minutos no ar? Será que é esse o tempo reservado às pessoas e histórias comuns? Será que a Internet derrubou a tese de Andy Warhol que dizia que no futuro todos seriam famosos por 15 minutos? É isso: o pop tem um delay de cinco minutos em relação à web. A Internet é pós-pop.
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05/03/2008
BELEZA PURA

Na dúvida, não confie. Na certeza de um mundo cada vez mais desconfiante e desconfiado vá por mim: não confie. Mas não confie em quem não confia em si, de resto pode acreditar. Não confie, por exemplo, em mulher feia. Digo, mulher que se acha feia – porque as que acreditam ser bonitas, mesmo não sendo, merecem um voto de confiança. Ou de misericórdia.

Mas não, as feias não são dignas de confiança, são um poço de inveja e infelicidade. As feias guardam em si um despeito tão grande da beleza alheia que por mais que tentem parecer lindas em alguma instância não convencem. A feiúra vem de dentro pra fora, vem em forma de mau hálito, de cabelos secos, de todos os lados. A bonita pode se parecer assim por algum tempo, mas ele há mostrar, por mais tempo que leve, a verdadeira faceta de sua pessoa.

Já vi mulheres lindas ficarem feias, envelhecerem à força e rejeitar os anos como quem rejeita um amor fácil demais. É preciso aprender a reconhecer as feias antes que elas quebrem o espelho e te convençam do contrário. Porque as feias guardam em si um mistério, uma falsa auto-estima, uma raiva do belo. Desde que inventaram a beleza, o belo e o bom, as feias passaram a correr em direção ao impossível. Enquanto todos fogem dos padrões, as muito feias suam para atingi-los, seja como for.

E não há meios que justificam os fins, há sempre a possibilidade de acordar ao lado de uma feia transfigurada de bonita. A beleza costuma durar, perdurar, prosseguir. A beleza vem de quem não se compara, não se enquadra. A feiúra está aí, para quem quiser ver. Mas nem sempre está em evidência. A feiúra é cartesiana, absoluta, concreta. A beleza é relativa, subjetiva, abstrata. Beleza se rouba, feiúra se entrega. Tudo beleza.
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04/03/2008
ESTABLISHMENT

Só há uma coisa na vida que eu realmente detesto: a TIM (A NET eu odeio). E sabe por que eu a detesto? Porque ela nunca dará a mínima para o que penso sobre ela, porque ela é desumana e inatingível. Não há uma pessoa física, poderosa o bastante para resolver o seu problema. Parece que a empresa de telecomunicações, que não sabe se comunicar, é controlada por uma grande máquina, complexa e cheia de luzes, como a da Sala de Justiça.

Quando a coisa começa a engrossar, aquela atendente, que não passa de uma célula integrante de um grande corpo, corpo este que sequer sabe quem ela é, diz que o seu problema não pode ser resolvido porque o sistema está lento. E quando você pede alguma informação, ela diz que o sistema não está programado para falar nada além do que você já sabe. Ou que o sistema caiu.

Em nome desse sistema – que não é gente, não é gerente, não é chefe – suas indagações e revoltas passam a ser apenas parte de um sistema criado para te enlouquecer. E como o sistema sabe que você depende dele para viver, e que se você não o quiser vai ter quem queira, ele não dá a mínima se você está sem celular ou se ele apresentou um problema repentino: o sistema não só prevê esse tipo de revés como torce para que você o tenha e, se tudo correr bem, para que você resolva quatro, cinco horas ou dias depois – a um passo da loucura.

A loja da TIM é de um vazio deprimente, decorado propositalmente para você se sentir deprimido, desconfortável, esquecido do mundo e largado à própria sorte, pobre de sua alma, penado de si mesmo. E ninguém que lá está parece ser capaz ou ter a vontade de te ajudar – o máximo que eles fazem é xerocar a sua identidade e repetir, como secretárias eletrônicas, que o sistema está lento. Sistema, sistema, sistema. Não existe palavra mais desoladora que esta: falar que seu caso será analisado pelo sistema é ver sua questão, tudo o que você explicou, suas horas perdidas ali, caminhando para um enorme vazio, uma despensa onde se guardam nadas e coisas nenhuma.

Não entendo o significado de sistema, se você for ao dicionário verá que sistema não significa nada daquilo que fomos ensaiados para pensar. Sistema é tão abrangente quanto ‘negócio’ ou ‘coisa’. Mas se você me disser que vai comer um ‘negocinho’ e depois me falar uma ‘coisa’ eu sou capaz de entender tudo. Mas se aquela senhora gorda e alisada da TIM da Oscar Freire me repetir esta manhã que o sistema não reconhece meu problema eu juro que sou capaz de quebrar o sistema.

Oi mãe. Eu tô na rua, mas vai esquentando a janta que eu chego já já.
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03/03/2008
SOBRE ONTEM A NOITE

Estou insustentável. E a leveza de meu ser tem sido de uma inconstância parabólica, tem dias que acordo um peso morto. Como se o mundo andasse nas minhas costas, pressionando minha testa para baixo até que eu não consiga mais olhar para frente, nem para cima.

Agora não penso em nada – e ter a cabeça vazia é das mais libertárias das experiências individuais que se pode ter. Não pensar é pensar em si. De certa forma a solidão liberta mesmo, cair no vazio é tão refrescante quanto colocar a cabeça para fora do carro, no banco de carona.

Estar vazio é estar clean, viver o minimalismo sentimental é meu passo rumo ao futuro, é meu código de sobrevivência a caminho de 2010, o ano em que faremos contato. Meu vazio anda cheio de significados, agora é hora de arrumá-los em pastas, arquivar cada assunto em sua própria caixa e limpar o desktop para novas conversas. Vou comprar um iBook para que a minha vida deixa de ser um PC, pouca coisa.

O fim de semana é sempre o começo de outra história. Não gosto quando os fins de semana acabam mal, é como se o ontem não tivesse terminado. A segunda-feira de hoje ainda é semana passada. Amanhã tem mais.
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29/02/2008
LE PETIT PRINCE

Alô Talibã, tem carne branca solta no Afeganistão! O pequeno príncipe Harry, aquele que fuma maconha e se fantasia de nazista em festa infantil, o terceiro na linha de sucessão ao trono britânico, se encontra neste exato momento dando uma sopinha nos arredores de Cabul. Com isso, Harry quer provar que é homem feito, apto a comandar uma nação que sustenta sua família real ‘just for a change’ e que é tão corajoso quanto o leão do Mágico de Oz. Mas afinal, Harry está no Afeganistão no front, na linha de frente mesmo, ou brincando de Play Station?

- Papai, eu quero atirar nos muçulmanos de Queensway.
- Não, meu filho, as coisas não podem ser assim tão claras.
- Mas eu odeio eles, todos cheiram a kebab. E tem muitos aqui em Londres.
- Deixe que eles se matem entre si. E assista tudo no Channel 4, filho.
- Preciso descarregar o rifle que você me deu no meu aniversário de nove anos. Não agüento mais atirar em cervos no Lake District, posso mudar de ares?
- Pode, que tal a Irlanda?
- Ai não, muito óbvio.
- Hummm, Johannesburgo?
- Serei apenas mais um. Não quero.
- Já sei! Pyong Yang!
- Muito perigoso, quero algo mais seguro e relaxante.
- Por que você não vai para o Afeganistão? Pode atirar em quantas pessoas quiser e ninguém irá dar falta.
- E como eu faço para chegar lá?
- Vai de Virgin.
- Cheers, dad.
- Mas traga umas infusões do Free Shop para a sua avó acreditar que você foi para a Índia.
- Mais alguma coisa?
- Sim, traga uma burca para a Camilla.
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28/02/2008
FLORA, NÃO A GIL

A mulher jaca, a mulher melancia, o homem bambu, a mulher samambaia, enfim, que derrota essa flora brasileira, hein? E você, cara de pau, quem elege a musa do Créu? A melancia ou a jaca? Posso atirar um tomate no meio da sua testa?

E afinal, o que é Créu? A nova dança do Tchan? Um hit do Tchakabum? Um funk carioca com frases de triplo sentido? Por onde anda Lacraia, Tigrão e Tati Quebra Barraco?

Ah, sim, já foram enterrados vivos e hoje ninguém mais sabe deles. A sorte é que daqui a dois meses o Créu, seja lá o que for, fará parte do mausoléu da MPB, assombrado por nomes que há coisa de dois verões entupiam nossos ouvidos com hits criados por uma turma de gravadora que tem rabo preso desde a loja de cd até o locutor de rádio.

A vantagem de morar num país sem memória, sem cultura, sem vergonha e sem senso estético é que tudo e todos vão e vêm com uma rapidez explosiva. Gente assim, que vem, canta, dança, se reproduz, vira evangélico e morre. Gente assim, que sai no xixi.

Afinal, o lider do grupo de axé diurético e priáptico Psirico ainda namora? Ou foi coisa de uma semana de Carnaval? Já sei, acabou. Acabou porque não virou hit, porque não repercutiu tanto assim, foi coisa de, sei lá, vigésimo lugar nas paradas de sucesso da Caras.

Ah, tanto a mulher jaca quanto a mulher melancia merecem um rodo e um avental. Vão arear panela, vão.
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27/02/2008
COM AÇÚCAR, COM AFETO

Tenho afeto a coisas e pessoas. Não apego. É preciso aprender a diferenciar, antes que se perca o sentido da vida. Sinto gosto azedo, não amargo. Também é importante dissolver os valores de cada palavra para não errar no paladar. E por extrema falta de afeto sou capaz de pensar as loucuras mais amargas, impronunciáveis e insensíveis.

E por enorme desejo afetivo me vejo atravessando mundos, mudando valores, trocando idéias e crescendo a passos largos. Ando com afeto, pratico o desapego e tenho horror a quem vive a amargura dos dias. Sim, porque não é preciso olhar a fundo para ver o que o outro tem de pior, pois seu ruim está na cara, na expressão, no olhar, no fundo de seu raso mais profundo.

Fui cercado, ou deixei-me acuar, pelas mais amargas das criaturas, daquelas que não merecem um segundo do meu afeto. E sem afeto, não há por que prosseguir. O bom da história é que já não tenho apego, o que vier está visto. O que for está passado. E o amanhã será ótimo para mim, na flor dos meus 30 e pouquinhos, no auge de mim mesmo, no esplendor da juventude, na saúde e na alegria de todos os dias, ao olhar para mim nas manhãs mais ressaquentas e ainda assim adorar o que vejo.

Tenho afeto por mim, e por aqueles que estão comigo. Um doce para quem adivinhar o que penso agora. Bom dia também para você, que já perdeu o brilho do sol.
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www.ego.com.br Todos os dias, em caráter excepcional, críticas construtivas e crônicas destrutivas do mundo moderno na visão de Hermés Galvão, um jornalista antiquado.
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