11/03/2008
DE FRENTE COMIGO MESMO
Desde sexta-feira convivo com a sensação de ter perdido algo que havia conquistado com as palavras. E parece que perdi sem ao menos ter dito algo. Mas é isso, palavra de jornalista é uma nota de R$ 15. Aqui se faz, aqui se apaga. E pago, à vista, pela fama concedida. Não a mim, mas à classe. Ô raça.
Ontem dei minha palavra, e hei de honrá-la. Sou daqueles que dão a palavra por não ter nada de mais precioso para entregar, por achar também que ela, a palavra, a minha palavra, é dos bens mais preciosos que posso ter. Minha palavra vale a minha vida, pois vivo dela e corro o risco, diariamente, de morrer pela boca.
E mesmo de boca fechada, morri. Amanhã talvez acorde vivo, talvez moribundo. Mas vivo. Prossigo, então, com dois ouvidos e dois olhos, maiores em quantidade e sensibilidade que a língua, pronto e consigo, em frente, escutando e observando, falando estritamente o desnecessário e o indispensável, respirando pelo nariz e segurando as mãos com firmeza para não bater palmas para os loucos que habitam minha cabeça.
Tenho conversado comigo, falado demais de mim mesmo, de dentro pra fora, dando corda para meus devaneios e esperando uma voz de basta vinda do fundo da arquibancada lotada que assiste, de camarote, minha rotina descondensada e fora de ordem. Porque eu preciso pensar no dia de amanhã com tanta ênfase? Às vezes parece que o amanhã não depende de mim, mas de quem fala de mim.
Posso acordar amanhã e ser o vilão de uma grande trama antes mesmo de tomar meu café com leite clarinho. E quando sair na rua, ao colocar o primeiro pé no pedal da bicicleta, quem sabe eu já não sou, ainda sem saber, o protagonista de um corriqueiro mal entendido criado para animar o dia-a-dia de quem dorme cedo? Desde que inventaram o jornalista e o informante, o futuro passou a ser inventado.
Os fatos nada mais são que devaneios de mentes desocupadas demais com a própria história, a notícia só é quando não se tem novidade a contar. E logo eu, ouvinte de contos do vigário, caí em um. Mas não há de ser nada. A não ser que eu conte tudo. Sei, e apenas sei a parte que me cabe. E cabe a mim a minha vida, nunca a de outro alguém. Cada um, cada um. Com seu cada qual. E fico agora, como na sexta-feira, à espera de um reply.