14/03/2008
LOOOOOSER

É fácil reconhecer um perdedor. Não só pela cara, mas também pelas palavras. Os perdedores têm um verbete próprio e não hesitam em usar termos como:

. Tenho um projeto, mas ainda não posso falar;
. Está tudo certo, só falta captar recursos;
. Preciso aparar umas arestas antes de começar a trabalhar;
. Vejo esse projeto por um outro prisma;
. Precisamos concatenar nossas idéias;
. Estou focado na carreira;
. Você ainda vai ouvir falar de mim.

O loser também pode ser reconhecido nos mínimos detalhes. Tais como:

. O cartão de visitas é de papelaria e o contato é através do hotmail;
. As roupas são de costureira e as cores são neutras para poder repetir modelito sem chamar a atenção;
. Os óculos escuros são da Chilli Beans;
. Os objetos de decoração de suas casas são da Imaginarium;
. O almoço é sempre no Viena;
. Todas fazem a dieta dos pontos.
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13/03/2008
ELAS POR ELAS

Recente pesquisa aponta que 90% das prostitutas brasileiras atuantes em Portugal têm curso superior, são magras, bonitas e brancas. É sempre assim: o Brasil exporta suas melhores matérias-primas e abastece o mercado interno com sobras e produtos de segunda categoria. É assim com o café, a laranja, a banana e... as prostitutas.

De acordo com a mesma pesquisa, do total das quengas brazucas que operam em Lisboa e no Porto 30% são de Goiás e 18% de Minas Gerais, ou seja, metade das pererecas alugadas de Portugal tem sabor de galinha caipira. Alô você, dona goiana, ainda acha que sua filha está na Europa estudando ciências exatas? Alô, alô, dona Palmira, de Viçosa: sua sobrinha não é gerente de boutique nem sócia de restaurante no Chiado.

Pois é, logo as mineiras, tão recatadas... logo as goianas, tão discretas. Nossas meninas estão bombando no Espaço Schengen, indo e vindo e batalhando o seu. A cada dia entram, em média, 1500 novas mineiras – de programa – na Espanha, França e Portugal. Algumas voltam, outras vão. No vai e vem de piranhas, serventes e pedreiros não acho nada estranho deportar turistas comuns que facilmente podem ser confundidos com possíveis candidatos a ilegalidade. Deportar para proteger, é isso aí.

Poucos de nós somos exceções à regra, e muitos de nós corremos o risco de bater e voltar. Culpa das milhares de goianas e mineiras, brasileiros e brasileiras que vivem para burlar, para ganhar pouco e aprontar muito.
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12/03/2008
ESCRITO NAS ESTRELAS

Ontem, num momento explícito de auto-felação cadastral, dei uma busca no Google de mim mesmo. E encontrei ocorrências em meu nome da primeira a vigésima página. Será que estou ficando famoso ou o mundo está mais desocupado e desinteressante do que imaginava? Sou mais a segunda opção, mas nem por isso acho menos genuíno o fato de ter meu nome bem cotado na rede.

Descobri outros blogueiros que dedicam (pequenas) partes de seus espaços aos meus ralos pensamentos, encontrei pessoas físicas e jurídicas citando frases um dia escritas por mim. Também achei novos amigos, amigos estes que se dizem minhas amigas, mas que infelizmente ainda não conheci.

E revi fotos minhas, um dia publicadas em sites alheios, onde apareço incrivelmente feio e com um cabelo pior que o da.... deixa pra lá. Tem um jornalista de Rio Preto, do Jornal Bom Dia, que me chama de colega e até, vejam só, me fez virar notinha ao me encontrar numa festa. Tem texto meu em fórum de debate de acadêmico, tem frase minha alçada à condição de pensamento do dia e até colunista carioca jurando me conhecer de outros carnavais.

Mas é, tô no Google, e mais: tenho duas comunidades no Orkut. E ainda assim me sinto tão ignorado quanto um qualquer, sabendo que em dois, três meses, talvez, já não se encontre meu nome escrito na rede. Não que eu queira ficar famoso, só não quero ser esquecido. Ainda não sei ao certo de como gostaria de ser lembrado no futuro, mas morro de medo de não o ser.

O que devo fazer? Ser eu mesmo e apenas isso? Escrever um livro, plantar uma árvore, batizar uma praça na terra natal de meus antepassados, o quê? Já sei. Acho que vou me inscrever no Wikipédia. Para não cair no esquecimento. Porque nada está escrito nas estrelas. Nada.

Caso do acaso bem marcado em cartas de tarô, ô, ô
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11/03/2008
DE FRENTE COMIGO MESMO

Desde sexta-feira convivo com a sensação de ter perdido algo que havia conquistado com as palavras. E parece que perdi sem ao menos ter dito algo. Mas é isso, palavra de jornalista é uma nota de R$ 15. Aqui se faz, aqui se apaga. E pago, à vista, pela fama concedida. Não a mim, mas à classe. Ô raça.

Ontem dei minha palavra, e hei de honrá-la. Sou daqueles que dão a palavra por não ter nada de mais precioso para entregar, por achar também que ela, a palavra, a minha palavra, é dos bens mais preciosos que posso ter. Minha palavra vale a minha vida, pois vivo dela e corro o risco, diariamente, de morrer pela boca.

E mesmo de boca fechada, morri. Amanhã talvez acorde vivo, talvez moribundo. Mas vivo. Prossigo, então, com dois ouvidos e dois olhos, maiores em quantidade e sensibilidade que a língua, pronto e consigo, em frente, escutando e observando, falando estritamente o desnecessário e o indispensável, respirando pelo nariz e segurando as mãos com firmeza para não bater palmas para os loucos que habitam minha cabeça.

Tenho conversado comigo, falado demais de mim mesmo, de dentro pra fora, dando corda para meus devaneios e esperando uma voz de basta vinda do fundo da arquibancada lotada que assiste, de camarote, minha rotina descondensada e fora de ordem. Porque eu preciso pensar no dia de amanhã com tanta ênfase? Às vezes parece que o amanhã não depende de mim, mas de quem fala de mim.

Posso acordar amanhã e ser o vilão de uma grande trama antes mesmo de tomar meu café com leite clarinho. E quando sair na rua, ao colocar o primeiro pé no pedal da bicicleta, quem sabe eu já não sou, ainda sem saber, o protagonista de um corriqueiro mal entendido criado para animar o dia-a-dia de quem dorme cedo? Desde que inventaram o jornalista e o informante, o futuro passou a ser inventado.

Os fatos nada mais são que devaneios de mentes desocupadas demais com a própria história, a notícia só é quando não se tem novidade a contar. E logo eu, ouvinte de contos do vigário, caí em um. Mas não há de ser nada. A não ser que eu conte tudo. Sei, e apenas sei a parte que me cabe. E cabe a mim a minha vida, nunca a de outro alguém. Cada um, cada um. Com seu cada qual. E fico agora, como na sexta-feira, à espera de um reply.
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10/03/2008
É SÉRIO?

Pois matei a minha curiosidade, mórbida, e lá fui eu para o cinema assistir ao primeiro roteiro de Miguel Falabella para as telas. Polaróides Urbanos é o filme, uma tentativa mal sucedida e bem intencionada de misturar novela global com Almodóvar, piadas internas com comédia ligeira.

Mas enfim, não sou crítico de cinema e tampouco gostaria de o ser, muito embora tenha lá minhas convicções e me arrisco a opinar sobre uma cena ou outra. O filme, a propósito, é constrangedor, mas os espectadores adoraram, o que é um mau sinal. Sou um dos poucos sádicos no mundo que se permite sofrer – e faço isso todo domingo, numa sala escura de um Unibanco qualquer, sabendo que o pior me espera pelos próximos, na melhor das hipóteses, 90 minutos.

Masoquista bissexto, sinto um estranho prazer em ficar por dentro do que acontece no cinema brasileiro, assisto a tudo e não me canso de reclamar de cada take, cada diálogo, cada close na favela, nos negões, no Nordeste, nas drogas, no Lázaro Ramos e no Wagner Moura. Não sei quanto aos outros, mas talvez não exista em outro país coeficiente tão desfavorável à boa produção em relação à má do que aqui.

De 100 filmes realizados, não salvam dois. E estes dois são, invariavelmente, continuações de uma história velha, esgotada em sua própria referência. Carandiru, Tropa de Elite e Cidade Baixa. E futuramente Juízo e Maré, mais dois filmes que vão falar de tráfico de drogas e miséria. Não se consegue fazer um longa-metragem minimamente urbano, atual, que fala mais de vida do que de morte.

É que não há um diretor corajoso e competente o suficiente para levar um bom roteiro adiante, sem que se baseie em livros ou fórmulas já consagradas e, de tão exploradas, ultrapassadas. O novo cinema nacional é retrô. Mas para que serve esse papo todo?
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www.ego.com.br Todos os dias, em caráter excepcional, críticas construtivas e crônicas destrutivas do mundo moderno na visão de Hermés Galvão, um jornalista antiquado.
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