16/04/2008
OUVIR ESTRELAS

Vamos lá, celebridades. Façam algum escândalo, animem a vida alheia, assumam suas fraquezas, freqüentem o re-hab, façam valer a pena cada minuto de fama. Não é possível que não haja uma atriz sequer neste país com status de diva, daquelas loucas infernais, alcoólatras e amantes, idolatradas e odiadas ao mesmo tempo.

Vocês são todas umas medrosas, não se colocam nunca. Quero várias Naomis por metro quadrado, ver o circo pegar fogo, ouvir histórias cabeludas e achar que Narcisa Tamborindeguy, perto de você, chega a ser carola. Falta cultura pop nessa terra, gente que faz, gente que renda notícia, que acontece, que apronta.

Tudo que vejo é uma turma de bonzinhos de faz-de-conta, jararacas camufladas de ovelhas brancas e sem opinião para nada. Faz anos que não ouço falar de você, há décadas ninguém vira assunto. Procura-se estrelas no Brasil. Está em falta, acabou. O máximo que temos é uma Preta Gil.

Que venham polêmicas, que apareçam as vilãs, que as boazinhas se danem. Vai, minha filha, faz o que te dá na cabeça porque você não deve satisfações a ninguém. E não se preocupe caso o Falabella não lhe conceda o dom do papel principal. Outros virão.

Seja protagonista de, pelo menos, um fato verídico. A novela é outra agora, baseada em mentiras sinceras. Tudo de plástico. Você e seu discurso. Eu?
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15/04/2008
CARÊNCIA ZERO

Ana Carolina diz que agora quer namorar um homem. Atriz lésbica está namorando um gay. Peruas vão para o altar com bichas, casais homo tentam repetir em casa a rotina hetero. Enrustidos constituem família de segunda a sábado e no domingo descansam no gueto.

Nada contra ninguém, nem sou eu o primeiro a contar isso para alguém, mas que medo é esse de ficar sozinho? Será que vale se submeter a tudo e a toda hora só para contar com o duvidoso achando que está tudo certo? Como reza o novo contrato social entre parceiros?

Depois do pacto de sangue e do pacto nupcial, o que vem agora como garantia de felicidade oficial? Estou me separando de mim mesmo, agora. E lanço a pergunta: como é se sentir solitário ao lado de alguém?
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14/04/2008
AS TRÊS MACAQUINHAS

E depois o preconceituoso sou eu. Assisti ao Miss Brasil do início ao fim, ou, como dizem lá em Manaus, de cabo a rabo. Das 27 candidatas, foram selecionadas 15 e dessas apenas três eram do Nordeste e uma do Norte – do Sul e do Sudeste, todas estavam no grupo. E depois o preconceituoso sou eu. E a Miss Ceará, surda e muda, mas antes de mais nada uma mulher feia.

E foi até o fim, foi longe demais, só porque era deficiente. Em situações normais, nunca, jamais, ela estaria entre as 5 finalistas. Chegou lá porque o povo gosta de torcer pelo improvável e pelo bizarro. E porque jurado de concurso sempre foi cego. Bem, como sempre, ganhou a gaúcha. Com cara de travesti, jeito de drag queen e nariz de Miss Venezuela.

A propósito, eram todas iguais, tão plastificadas que poderíamos pensar que foram modificadas geneticamente. Tinha até homem ali, de faixa e biquíni. Vai saber. Concurso trash, tudo muito feio. Tudo baranga.

Até as do sudeste, com menção honrosa a Miss Rio de Janeiro que tinha uma deformação no globo ocular decorrida de um sarampo mal curado. A paulista quase pegou no cetro e na coroa, mas hoje, de volta à realidade, já está com a mão na vassoura. Queria mesmo era que a goiana vencesse. Era até bonita, mas será mesmo que ela nasceu em Goiás?
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11/04/2008
BURGO, PÓLIS, GRADO, CITY, CIUDAD, VILLE, SEI LÁ EU

Ao andar pelas ruas de São Paulo, e ao olhar para o chão, fico a imaginar como deveriam ser as cidades da Europa no século XVIII. Talvez fossem parecidas com a nossa, cheia de valas, buracos, restos de comida, ratos, baratas, cachorros sarnentos, gente dormindo no relento, todo tipo de transporte transitando pela mesma via, lama e gatunos camuflados nas sombras das árvores à espera de uma féria tomada à força.

Naquela altura, fico a imaginar, Paris devia ter uns 500 anos de vida urbana, talvez mais – talvez menos. E a organização de sua sociedade talvez fosse muito parecida com a nossa de hoje. Assim, a Deus dará, terra de ninguém, lei do cão. Agora fico a imaginar como será São Paulo daqui a outros 300 anos. Penso que os postes emaranhados de fios elétricos deixarão de existir, assim como os bueiros atolados de sacolas plásticas e os pontos de ônibus premiados com resíduos consumistas.

O tempo, e tão somente ele, vai se encarregar de limpar a cidade de gente suja. Nem mais, nem menos: São Paulo ainda tem 300 anos de história pela frente. E até lá viveremos em um burgo populoso, mal diagramado e acamado por doenças tropicais e rotina colonial. Ainda estamos no século XVIII, a contar de hoje. Rumo ao século XXI, com o atraso de sempre. Estamos a meia hora de um minuto que passou. Adiantem seus ponteiros, corram para o futuro. Porque hoje já acordou com cara de ontem. Bom fim de semana.
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10/04/2008
DON’T MISS

E lá vamos nós para mais uma edição do Miss Brasil, o concurso que vai coroar, neste domingo, a mulher mais bonita do país. SuperEgo, o blog mais esteta do Mercosul, presta um serviço a comunidade ao apresentar, com sérias ressalvas, algumas das candidatas que brigarão pelo título e por um ano de supermercado grátis.

Analisando cada concorrente, e comparando com as edições anteriores, posso dizer que o nível melhorou sensivelmente – a afirmação não vale para os estados do Norte e nem para o Piauí, claro. Mas se as meninas estão mais, como dizer?, apresentáveis, seus nomes de batismo continuam uma malvadeza. O que tem de Keylla, Kaylla, Kaytlen, Katielly não ta fácil. Isso sem contar a apresentadora da noite, que se chama Nayla Micheriff.

Bem, chega de conversinha e vamos às vias, de fato. Lembrando que, das 27 interessadas na coroa e na faixa, apenas uma volta pra casa com o kit completo. Assim sendo, sobram 26 disponíveis para aquela vaga de copeira que sua tia do Panamby tanto precisa. Um passo a frente, pois lá vêm elas. Escolha a sua favorita.

Achemar de Castro, do Acre. Se a Amazônia é o pulmão do mundo, seu nariz é o centro do universo.

Andressa, do Rio Grande do Norte, com um olho virado para Rio Grande do Sul.

Emmyllie Daniele, de Roraima. Se perder pode tentar a sorte na Espanha.

Do Espírito Santo, a impronunciável Francielem Riguete.

Kanionara Souza, da Paraíba.

Ludmila Costa, do Distrito Federal. Mas pode travesti?

Williana Graziella, de Alagoas.
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09/04/2008
BRECHÓ

Aconteceu no suntuoso Jockey Club de São Paulo o bazar de objetos do traficante colombiano Juan Carlos Abadia. A fila de compradores dobrava o quarteirão e no empurra-empurra para comprar seus restos mortais havia ricos e pobres, patrões e empregados, gente como eu e como você.

Gente louca, do tipo que senta na mala para fechar o zíper, do tipo que viaja e acha o máximo passar tardes na Sephora, nos outlets da vida e no fim das contas comprar bebida e chiclete no Free Shop. Foi esse tipo aí que perdeu a terça-feira gorda na porta do Jockey, disposta a abocanhar um monte de lixo comprado com os lucros do tráfico de drogas.

As peças colocadas à venda, por um preço de banana, iam de bolsas Chanel a sapatos Church’s, passando por bugigangas da Hello Kitty e jogos de cama, mesa e banho. Foi uma finesse total, pessoas desesperadas por uma roupa velha, que pertenceu a um traficante cafona, loucas para adquirir por R$ 40 um par de sandálias que um dia foram usadas por sua mulher, uma maloqueira de quinta categoria.

Realmente o paulistano é de um chiquê sem igual. Imagina só chegar em casa vestindo um casaco que pertenceu a um bandido? Hoje vou bancar o patrulheiro ideológico e condenarei todos aqueles que aparecerem usando os antigos pertences de Abadia. A regra vale para todos e deixo aqui meus votos de pêsames a você, que vai sair por aí com uma Vuitton à tiracolo que um dia carregou dinheiro sujo. Quer saber? Vocês são uns cafonas.
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08/04/2008
A BUNDA ABUNDA

Mônica Mattos é uma atriz pornô de São Paulo, já estrelou 300 filmes nacionais e seu papel nas telas é versátil - de dupla penetração ao mais romântico dos anais. Foi a primeira brasileira a ganhar o Oscar do cinema erótico americano e fez por merecer: em uma de suas atuações, no já clássico “Devassa – As Brasileirinhas”, Mônica transa com dez homens ao mesmo tempo e na maior naturalidade, como se estivesse no quarto de casa, bem à vontade. Mas é isso que faz uma boa atriz, atuar na ficção como se vivesse aquela realidade. E Mônica é a prova viva disso e levou a estatueta de melhor atriz estrangeira.

Pronto, nosso primeiro Oscar veio de um filme de sacanagem. Mais coerente, impossível. Nada de Fernanda Montenegro, nem Sonia Braga – que, aliás, merecia ao menos uma indicação ao Oscar erótico por conjunto da obra: todas as suas participações em longas-metragens e seriados nos Estados Unidos tiveram uma conotação, como dizer?, apelativa. Foi sapatão em Sex and the City, prostituta reformada em um filme obscuro onde contracenava no feno com dois rapazes, caranguejeira real em O Beijo da Mulher Aranha e por fim, Gabriela reloaded em Luar Sobre Parador, sem dúvida uma das dez piores produções de todos os tempos. Agora corta.

Ontem parei em frente a banca de jornal e fiz a conta: de quinze revistas voltadas para o público feminino, daquelas de dieta, moda e beleza, oito mostravam na capa atrizes e modelos sorrindo de costas. A bunda em primeiro plano, o megahair loiro em segundo e por último a cara – que era de bunda. Pois é, somos mesmo uma grande bunda, gigante pela própria natureza. Uns bundões.

Uma vez, lá pelos anos 90, tive a oportunidade (vamos colocar assim) de cobrir pela revista Caras – meu passado é um cocô – as eliminatórias e a grande final do concurso A Nova Loira do Tchan. Lá estava eu, na sala do Teatro Fênix, no Rio, esperando pelo resultado, ao lado do fotógrafo. Fausto Silva, este sim a bunda em pessoa – já reparou que a bunda dele é para frente? – anuncia a vitória da bunduda Scheylla Mello. Emocionada, ela sai correndo pelo corredor e é abordada por mim.

- Ei, Scheylla, vamos fazer uma foto?
- Claro! Como você quer?
- Como você quiser.

E Scheylla vira-se para a câmera, empina a bunda e flash! Foi a primeira foto oficial de Scheylla como famosa. A primeira de muitas outras focadas em sua tão grande bunda. Imagina passar a vida sendo apenas uma bunda? Que fascinante, não? E tem tantas outras bundas famosas que nem me lembro mais como eram as caras de suas donas. Lembro da bunda da Claudia Egito, da Márcia Dornelles, da Enoli Lara, da Rose di Primo e da Magda Cotrofe, mas sou capaz de bater de frente com elas na rua e passar batido. Talvez por isso elas só andem de ré.

Ainda voltando no tempo. Em 1993, Madonna se apresentou no Brasil, isto é, no Rio e em São Paulo. Chegada a hora de mostrar seu português para o público, ela disse: “E aí, bunda suja?” O povo foi ao delírio. E repetiu com ela inúmeras vezes bunda suja, bunda suja, bunda suja. Ela chamou o Maracanã inteiro de bunda suja e 120 mil pessoas assinaram em baixo. Realmente uma mulher moderna, adiantando tendências e prevendo o futuro – mesmo que óbvio. Pois nossa bunda é suja mesmo, sempre foi, e ainda assim tem quem queira. E é tudo que querem de nós, é tudo que temos para dar. Somos uma bunda, a Big Bunda Brasil.
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07/04/2008
EM NOME DO PAI

Domingo é o meu dia internacional da consciência pesada. E quando a noite chega tudo aquilo que fiz de errado durante a semana volta com força total, como uma enxurrada de culpas caindo sobre as costas, pesando sobre o corpo, atormentando a cabeça e tirando o sono. Será que todos os espíritos errantes são e pensam assim?

Todos os domingos eu prometo começar uma dieta, economizar alguma grana, dormir mais cedo, falar mais com a minha família, pegar mais leve com o próximo, exigir menos de mim para, enfim, chegar ao próximo domingo mais leve.

Pensei em tudo isso na semana passada e continuo na mesma – com uma diferença: fui a uma missa! Pois carrego em mim uma culpa católica muito grande, culpa por não sair como planejado, por não ter, sequer, um plano B que me faça seguir. Se algo der errado, não tenho para onde correr – ou, como dizem as más línguas, onde cair morto.

Pois a partir de hoje vou lutar por um lugar para cair ou para ficar em pé, que seja. Vou pisar com os dois pés no mundo dos precavidos, poupar a mim e a meu bolso, investir, soletrar abreviações de impostos como se estivesse recitando um poema, ligar para o meu gerente e perguntar aonde eu posso investir, desligar o telefone na cara do vendedor da Osklen que me liga semana sim, semana sim, avisando das novidades na loja.

Vou comer a quilo, andar de ônibus, cair na minha real, matar o loiro rico que mora dentro da minha barriga e acertar, de uma vez, as contas pendentes da minha vida amorosa e financeira. Vou morrer de tédio, mas vou ter onde cair. A partir de agora não irei mais concordar com as duas máximas que sempre defendi com unhas e dentes: “antes morto que mal remunerado” e “limite para mim é saldo”.

Pois a contar de hoje vou mudar. Ou acreditar que posso. E isso é uma oração. Boa semana para mim e para vocês.
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www.ego.com.br Todos os dias, em caráter excepcional, críticas construtivas e crônicas destrutivas do mundo moderno na visão de Hermés Galvão, um jornalista antiquado.
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