17/04/2008
A PROVA

Ainda sobre o caso Isabella. A menina de cinco anos foi assassinada e a polícia, que não tem idéia de quem a matou, ouviu nesta quarta-feira mais duas testemunhas – nem de acusão, nem de defesa. Foram prestar depoimento duas professoras da escola da vítima. Que informação elas poderiam dar para ajudar na investigação?

- Olha, a Isabella, que tinha cinco anos, apresentava um comportamento estranho mesmo. Era péssima filha e aluna, só tirava nota baixa e vivia dizendo na hora do recreio que queria acabar com a raça da madrasta e do pai, um banana.

Ou...

- A Isabella, apesar de ter apenas cinco anos, já era mulher feita. Seu pai e sua madrasta sofriam de maus-tratos por parte dela e não era raro aquela menina aparecer na escola visivelmente drogada.

A polícia civil, assim mesmo, em letras minúsculas, é incapaz de solucionar um roubo de galinhas no sítio mais próximo. Já se passaram duas semanas da morte de Isabella e tudo que eles conseguiram reunir, além de informações infundadas, 57 testemunhas que não disseram a que vieram. Seja qual for o veredicto, pelo tempo perdido e pela falta de competência, já não dá mais para saber quem foi ou quem deixou de ser o responsável pelo homicídio. A única prova real e cabível que teremos é que a polícia não serve nem para solucionar mistérios de Scooby Doo.

Por isso que eu prefiro morar na superficialidade. Vou mesmo é me inteirar a respeito do namoro lésbico de Claudia Jimenez e Rodrigo Phavanello, que a cada notícia que sai trata de colocar mais uma consoante em seu sobrenome artístico. Deu que eles brigaram, diz que Rodrigo ficou com ciúmes da presença do ex-namorado da atriz, a preparadora física Stella Tonhão. Eu sei lá, viu. Ciúmes pra quê? Aproveita que você está vivo, meu rapaz. E lembre-se que, uma vez gay, para sempre gay. É ou não é, Ana Carolina?
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18/04/2008
REI

Roberto Carlos sempre me despertou curiosidade. Passei a mais tenra infância querendo saber qual de suas pernas é a mecânica, qual a marca do seu shampoo e o que as mulheres vêem (ou sentem) nele. Para mim, Roberto Carlos é a única incógnita do showbizz mundial, o homem mais misterioso da Terra e o soberano de um reinado povoado por senhoras de alta estirpe e domésticas de baixa renda. RC é um fenômeno.

Nunca se soube nada a seu respeito, digo, nada que tivesse saído de sua boca. Tudo a seu respeito não passa de especulação – inclusive o capítulo sobre a perda de um dos membros inferiores. Fui a alguns de seus shows e passei algumas horas de olho em seu andar, na esperança de que um passo em falso revelasse a verdadeira identidade de sua perna biônica. E nada, nada me fez ver e, por conseqüência, acreditar que o rei era manco. Deve ser intriga da oposição.

Sou a seu favor, e parece que o tempo também. Roberto Carlos não envelhece, não fica doente, não vai a restaurantes, nem bares, muito menos boates. Roberto Carlos nunca foi visto comendo uma picanha na brasa ou andando no calçadão de Ipanema. Roberto Carlos talvez não exista, talvez seja um holograma, um replicante, um ET. Ninguém sabe o que Roberto faz para manter os cabelos e sua franja em dia, não há registros de compras feitas por ele em lojas caras ou supermercado.

Nenhum escândalo envolvendo seu nome foi manchete de jornal, nem hoje, nem nunca. Desde a Jovem Guarda, tudo que sabemos de Roberto Carlos é que ele tem uma mãe, Lady Laura (que naturalmente nunca foi vista), que se casou algumas vezes, que tem algumas filhas, algumas manias e uma carreira que jamais passou por maus momentos. Do Canecão ao navio, de um acústico bem elaborado a um show cafona em cruzeiro marítimo, RC é um sucesso de público. E por ele, acredito, a crítica não precisaria sequer existir. Falar mal de Roberto Carlos não deve levar a lugar nenhum. Não conheço uma pessoa no Brasil que diga “Eu não suporto Roberto Carlos”.

E ontem, ao saber que ele lançou um perfume que leva o nome de seu hit maior, “Emoções”, senti no ar o cheiro de mais um sucesso sob sua chancela. Certamente, a fragrância deve ser um horror, mas sou bem capaz de um dia passar na loja e dar uma borrifadinha no pulso só para saber que cheiro tem o “Emoções”. Pois tenho curiosidade em tudo que diz respeito a Roberto Carlos. E se tudo que ele tem para dar é uma fragrância de farmácia, que assim o seja. Vou sentir Roberto Carlos. Porque hoje, mais do que nunca, se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi. I love you, Roberto Carlos.

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22/04/2008
BALÃO MÁGICO

Bom dia amiguinhos. E o padre que sumiu depois de acreditar ser a reencarnação da Simony? O que ele esperava da vida – senão a morte – ao sair por aí voando com a ajuda de duas caixas de bexigas de aniversário? Uma ótima idéia, não é mesmo?

Adelir de Carli (parece nome de drag) pretendia quebrar o recorde de permanência no ar com balões preenchidos por gás hélio. Uma meta bem específica, esta. Brasileiro tem essa mania de querer ser o melhor em tudo, mas como não consegue nada acaba inventando uns poréns para entrar na história. Tipo: o maior relógio (de quatro faces) do mundo, a maior árvore de natal (flutuante), o maior corredor dos 100 metros rasos (em pista coberta) e por aí vai.

Voltemos a Adelir, o padre que botou a maior fé na história de que poderia mesmo flutuar em seu balão mágico de R$ 1,99. Dançou. Mas pelo menos ele foi para o céu – afinal, não era isso mesmo que ele queria?
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23/04/2008
DUNGEONS & DRAGONS

Hoje é dia de São Jorge, padroeiro das barangas e o protetor mais evocado pelos espertos. E todo ano, nesta data, vem à tona os nomes de Jorge Ben Jor e Zeca Pagodinho, dois fervorosos devotos do santo guerreiro.
Por isso, o capítulo deste 23 de abril é dedicado a eles. Sou contra a tudo o que Zeca Pagodinho representa: a vitória da malandragem, o excesso de álcool, a comida pesada, as amizades oportunistas e, claro, o pagode.

Zeca é a prova viva da decadência da música brasileira e das relações sociais entre cariocas. Aquelas festas em sua casa, as pessoas que o cercam, os nomes de sua lista, as listas onde ele aparece, a cerveja e o toucinho, a barriga e o falso clima suburbano. Todo mundo freqüenta para fazer papel de gente que adora pobre, todos na aba de Regina Casé, a Evita Perón de Xerém.

Fico a imaginar o que Zeca Pagodinho e Giovana Antonelli têm em comum ou o que eles tanto conversam em dias de churrasco, cozido ou feijoada. Que laços unem o pagodeiro a Carolina Dickhead? Não sei quando exatamente Zeca Pagodinho foi eleito ícone cool, se quando ele se vendeu para Nizan Guanaes por um engradado de Brahma a mais ou quando a imprensa carioca partiu em busca de um novo Bezerra da Silva para vestir branco em época de coluna social de Carnaval.

Às favas com a malandragem. E Jorge Ben Jor, que há 30 anos só canta teretetetetê, devia compor algo ao invés de fazer manutenção de refrão. Vamos trabalhar? Bem, eu vou. Até.
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24/04/2008
ABALOU BANGU

Foi destaque no Jornal Nacional, manchete de todos os periódicos e assunto nas rodas de conversa fiada. Pois ontem não se falou outra coisa senão o terremoto de 5,2 graus na escala Richter que atingiu São Paulo na noite de terça-feira. Isso porque ninguém morreu, nenhuma família ficou desabrigada e não houve um ferido sequer. Mas a comoção foi geral.

Na TV, donas-de-casa contavam do “desespero” de sentir a sala tremer, uma mostrava sua sanca de gesso com uma rachadura causada pelo tremor de terra – antes tivesse desabado seu teto rebaixado. Outra dizia que ficou assustadíssima porque achou que seu prédio estava desabando – imaginem a qualidade do edifício onde ela mora.

Enquanto isso, a Folha de S. Paulo, numa tentativa corriqueira de contabilizar suas notícias, dizia que desde 1922 o estado não verificava um tremor, que houve 3.600 chamadas de emergência para o Corpo de Bombeiros, que Ronaldo, de 36, Patricia, de 37, Sergio, de 71 (que “estava no banho”) e Eduardo, de 38, pensaram estar delirando. Um surfista de Ubatuba, sem idade revelada e sem entorpecentes declarados, achou tratar-se de assombração. Francamente!

Foram seis segundos e um tremor numa escala tão ínfima que numa comparação anatômica poderíamos dizer que equivale a uma ‘cosquinha’ na bunda gigante de Fausto Silva. Muito barulho por nada, como sempre. É como neve no Sul: basta cair um centímetro de madrugada que o povo sai correndo para fotografar o chão.

Para insatisfação do brasileiro, trágico por natureza, não há terremotos nem nevascas no país. Mas tem coisa pior e, de tão banal, sequer nos interessamos: chove cântaros no Nordeste há meses, Natal está debaixo d’água e nunca deram uma primeira página para isso.

A dengue (ou o dengue, sei lá) faz a festa no Rio, mas o Amazonas registra o dobro de casos diários de malária; a doença de chagas é comum e cada vez mais recorrente no Pará, há ocorrências de leshmaniose e a hanseníase no Mato Grosso e no Tocantins, no sertão ainda se morre de fome, metade das casas na Bahia não tEm rede de esgoto e o ar de São Paulo é tão poluído quanto o de Pequim. Mas o terremoto de 5,2 graus é assunto prioritário, afinal é uma novidade. E nós adoramos novidade.


Olha quem chegou para a nova temporada de Lost!
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25/04/2008
DINHEIRO NA MÃO

Sou contra a distribuição de renda como fator determinante na formação de uma sociedade mais justa. Sou a favor da distribuição por meritocracia. Explico: todo o dinheiro do mundo ficaria guardado em bancos e só seria liberado depois de uma exaustiva conversa entre correntista e gerente, este que avaliaria se o montante requisitado seria usado para bons e devidos fins. Claro que este bancário seria, além de extrema confiança, um esteta nato e entusiasta da coletividade.

Com isso, ele evitaria que seu cliente rico novo usasse seu patrimônio para construir mansões estilo normando no meio de São Paulo ou para financiar a viagem de sua namoradinha 35 anos mais velha a Paris. Este gerente seria uma espécie de conselheiro financeiro-sentimental, um tutor capitalista sempre disposto a agir com a melhor das intenções. Seria um protetor mesmo, do cliente e, por conseguinte, da sociedade.

Pensei nisso depois de ler que o jogador português com nome de Baixada Fluminense Cristiano Ronaldo resolveu subir mais dois andares de sua casa de três, no tradicional bairro de Alderley Edge, em Cheshire, Inglaterra. Seus vizinhos – que já moram lá desde quando ele pescava sardinhas no Algarve – reclamaram, pois com a tal reforma vão perder a vista de suas janelas.

Lembrou-me um fato idêntico ocorrido em São Paulo. Tenho um casal de amigos que mora no Morumbi há pelo menos 30 anos e que até 2006 gozavam de uma agradável vista (sentido figurado) da Marginal Pinheiros e adjacências. Mesmo que a paisagem fosse uma auto-estrada cercada de grama queimada por todos os lados, era uma vista. De repente, um global decide mudar-se para o condomínio. E seu arquiteto tira do papel uma mansão neoclássica de dimensões palacianas que, com seu telhado à Museu do Louvre, bloqueou integralmente o campo de visão de todos os moradores da região.

Sensível como ele só, para indenizar os condônimos, o novo morador resolve presentear cada parte lesada com um Rolex – um ato deliberadamente dispendioso e desnecessário – ou ele achava mesmo que os moradores daquele pedaço precisam de um relógio para viver? Ou será que ele achou que R$ 15 mil calaria a boca daqueles que nunca ostentaram nada além de uma boa conversa à beira da piscina?

Nessa hora entraria o gerente e bloquearia todos os bens do infeliz, encaminharia o cliente para uma sessão de análise e educação social. Para aprender a ser, se vestir, se portar, se comportar, conviver e não agredir. Talvez eu pense assim por ser pé rapado. Mas se eu realmente tivesse muito dinheiro poderia até me mudar para um condômino desses. Mas não me atreveria a comprar nada além do que o silêncio dos meus vizinhos. E minha moeda de troca seria o meu silêncio recíproco. Porque eu só quero ter uma vista. Para não ter que olhar para você, pobre rico novo.
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28/04/2008
CULTURA BRASILEIRA

Felizmente não tive a oportunidade de participar da Virada Cultural de São Paulo, evento este que ressuscitou mortos da MPB e outros nomes que já deveriam ter sumido do mapa há muito tempo. Foram 24 horas com o pior da cena musical brasileira para o pior público do país e com a cobertura dos piores jornais do mundo. Deu de Lobão a Ultraje a Rigor, Marcelo D2 e Fernanda Takai, estes dois encabeçando a lista daqueles que não precisavam mais estar entre nós – culturalmente falando.

Mas a maratona de shows parece ter surtido o efeito indesejado no coletivo, que pela primeira vez em um mês conseguiu mudar de assunto e não mais falar de Isabella, a menina do sexto andar. Findo o festival, todos já retomaram a sua rotina e hoje, pelo menos no que leio, vejo que a pauta voltou a sua formação original, com Isabella e dengue no cardápio. É incrível o que a falta de assunto não faz com um ser humano, não é mesmo?

Fico a imaginar o que será da vida de todos depois que a história da garotinha voadora se encerrar, quando, finalmente, a polícia der o caso por encerrado e todos voltarem a ser apenas espectadores de suas próprias vidas, tão sem graça e sem enredo. Por um lado, sinto que existe no ar um certo desejo involuntário de que essa investigação não acabe, que a cada dia apareça mais uma evidência, um elemento-surpresa, uma nova testemunha, um novo parecer, uma nova pista, enfim, algo que mantenha viva a morte de Isabella.

O povo precisa disso para se sentir vivo, é o ópio nosso de cada dia. E de alguma maneira, a justiça parece saber disso. E ela há de tardar, ela há de não falhar em sua mórbida mania de deixar a verdade para as cenas do próximo capítulo. Pois bem, estou na Escócia e espero voltar apenas quando todos já tiverem mudado de assunto. Por sorte, já não sei como se desenrolou a reconstituição do crime. Não me interessa saber. Estou vivo e tenho mais o que fazer. E muito o que falar. Até amanhã.
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www.ego.com.br Todos os dias, em caráter excepcional, críticas construtivas e crônicas destrutivas do mundo moderno na visão de Hermés Galvão, um jornalista antiquado.
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